sexta-feira, 29 de julho de 2016

1976-07-29 - Revolução Nº 081 - PRP-BR

EDITORIAL

Em Julho de 75 um grupo de oficiais que ficou conhecido pelo «Grupo dos Neve» elaborou um documento que havia de servir de porta de abertura para futuras e fatais manobras da direita aí se gerava o golpe do 25 de Novembro. Hoje alguns desses homens podem ser vítimas de um novo golpe de direita, desta vez não para pôr termo aos «excessos» da esquerda, mas para simplesmente pôr termo definitivo ao 25 de Abril. Melo Antunes, Victor Alves, Charais, podem vir a sentar-se no banco dos réus ou simplesmente nas bancadas do Estádio Nacional, após qualquer noite negra, durante a qual se instale um regime de excepção e terror. É pois o momento de esses homens escolherem o lado de que se encontram. Esperar pelo final do Governo do PS é capaz de ser tarde demais.
Quando em Julho de 75 este grupo escolheu fazer aquele documento, os motivos que os moveram residiam sobretudo numa raiva surda e cega contra o PC, de cuja burocracia e manobrismo estavam fartos. Simplesmente, para se oporem a tais erros escolheram a porta da direita. E a porta da esquerda era tão possível quanto foi provado pelo «documento dos oficiais do Copcon», o qual teve a maior adesão popular de que há memória em relação a um documento. E isto em Agosto, não só «quente» politicamente, como quente de temperatura e portanto com muitos trabalhadores ausentes dos grandes centros.
Mas poder-se-á dizer que o que levou os «nove» a escolherem a oposição de direita ao PC e não a oposição de esquerda, foi a sua posição de classe, foi o quererem conservar não tanto privilégios económicos, mas privilégios de poder, privilégios de mando, os quais são postos em causa pelo avanço das grandes massas trabalhadoras.
Esta forma de sair pela direita de situações em que pesa a mão controladora do stalinismo, repete-se aliás em vários países e sobretudo nos países do Pacto de Varsóvia, onde a «oposição» de que temos eco é sempre uma oposição de direita.
E o certo é que em Portugal o gonçalvismo desembocaria num poder revolucionário, no qual o PC seria largamente ultrapassado e o stalinismo nunca estaria efectivamente no poder. O apoio ao Documento do Copcon, a FUR, e a recente campanha eleitoral para as eleições presidenciais mostraram-no bem.
Mas é certo também que a quase totalidade dessa oposição formada à volta do documento dos «nove» temia tanto o PC como um poder revolucionário.
Opondo-se portanto ao stalinismo, e aparecendo docemente como «socialista», «terceiro-mundista», etc., o «Documento dos nove» teve a propriedade de juntar toda a direita militar e de permitir, pela sua leitura nos quartéis, que se contassem os oficiais que a ele aderiam. Foi portanto um trabalho de prospecção, necessário para uma direita que se queria contabilizar. A este trabalho de «apalpam da situação política não podemos deixar de aliar o então Presidente Costa Gomes, homem interessado em conciliações, em encontrar soluções políticas, enfim, negociador por excelência. Por isso entusiasmou os «nove» no seu trabalho e por isso os retirou depois, por discordar de alguns aspectos do método. Mas reservou-se novo papel de negociação para o 25 de Novembro.
Este golpe dos «nove» foi portanto o primeiro passo para o pronunciamento de Tancos, para a queda do V Governo e a sua substituição pelo VI, para as medidas de provocação (bomba da Rádio Renascença, etc.) e finalmente para o golpe do 25 de Novembro. Entretanto consolida-se em Agosto um comando militar clandestino, que haveria depois de aparecer à luz do dia exactamente durante aquele golpe e cujas figuras haveriam de tomar lugares do mais alto destaque. Hoje, todo esse comando clandestino de Agosto, tem postos dos principais, política e militarmente. Tal comando foi pois gerado pelos «nove» e por eles apadrinhado.
Por aí entrou pois a direita, que em Portugal não estava em condições de se instalar de rompante e brutalmente.
Hoje, o novo poder político-militar faz o seu trabalho de reconstrução de uma estrutura que possibilite um regime fascista. Saneamentos à esquerda, colocação de militares progressistas em postos burocráticos, restabelecimento de uma hierarquia e de uma disciplina que têm a ver com o antigo regime, reestruturação da GNR e da PSP, como forças de ordem burguesa.
E alguns dos «nove» são postos de lado, ou são instalados como figuras decorativas. Os que dirigem regiões militares ou se portam bem (ou seja à direita) ou vêem o seu lugar em perigo. Por isso Melo Antunes diz que «há quem sonhe alto pôr o 25 de Abril no banco dos réus».
Estes homens que se quiseram moderados e que pensavam encontrar o caminho para um projecto de «socialismo à portuguesa» que era uma misturada ambígua de todas as coisas, esqueceram o principal a situação económica. E esquecendo isso, ignoraram que a solução para a crise ou pende definitivamente para o lado dos trabalhadores a Revolução Socialista ou para o lado da burguesia    um regime fascista.
Mas o decorrer do processo vem mostrando cada vez mais que assim é. E por isso eles terão que escolher entre os trabalhadores e a burguesia. Escolha que não terão que ser só eles a fazer, mas todos aqueles que continuam a pretender manter-se no meio.

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