quinta-feira, 28 de julho de 2016

1976-07-28 - Luta Popular Nº 351 - MRPP

3.° Anexo ao Relatório Preliminar do 25 de Novembro

EPA - A PRAÇA FORTE DO GOLPE SOCIAL-FASCISTA NO ALENTEJO

Uma das principais unidades militares em que o P«C»P se apoiou para desencadear no Alentejo o seu golpe foi sem dúvida a Escola Prática de Artilharia.
As características desta unidade as tropas de que pode dispor (2 companhias de intervenção, mais as companhias de artilheiros) o material que possui (artilharia pesada de campanha), bem como a situação geográfica em que se encontra, fazem dela uma tias unidades mais importantes da Região Militar Sul.
Bem sabedores de tudo isto, os social-fascistas do P«C»P tudo fizeram para se apoderar do comando desta unidade militar e para a utilizarem ao serviço dos seus interesses contra-revolucionários.
Dentro das unidades da Região Militar Sul, a EPA foi a que mais contribuiu para a formação da nova burguesia rural social-fascista já que, com acções militares, tentava controlar, suster, desviar e por sob o controlo do P«C»P o grande e justo movimento de ocupações dos latifúndios pelos assalariados rurais.
Nesta tentativa desesperada de levar à prática a lei da «Reforma Agrária» do P«C»P, que foi aprovada pelo governo na altura do «companheiro» Vasco, lei essa que permite a existência de latifúndios com 500 hectares de terras de sequeiro e 50 hectares de regadio, muito se distinguiram os oficiais social-fascistas da EPA que sob o signo da «Aliança Povo-MFA, percorriam de noite e de dia as regiões onde estavam previstas as ocupações tentando controlá-las e entregá-las à direcção dos novos patrões, os caci­ques do P«C»P.
É dentro desta política que os oficiais social-fascistas da unidade, entre os quais se distinguem o capitão Ferreira e Sousa, o capitão Rodrigues e o furriel Sequeira, se multiplicam em esforços no sentido de arregimentarem os soldados para as suas manobras. Para tal usam de vários métodos que vão desde as aulas de política do P«C»P a que dão o nome de formação político-social até à demagogia podre e corrupta por que pautam a sua actividade.
Tais manobras sofreram sempre por parte dos nossos camaradas soldados uma resposta firme e convicta que impossibilitou que os oficiais social-fascistas tivessem qualquer êxito nas suas tentativas de atrelar os filhos do povo na EPA à política do P«C»P.
A provar tal facto está a actuação dos soldados que, chamados para desocupar uma grande herdade que era propriedade de um capitalista alemão, não não cumpriram tal ordem que lhes fora dada pelos social-fascistas como apoiaram com as suas armas a ocupação da herdade capitalista.
OS SOCIAL-FASCISTAS DA EPA PARTICIPAM NA PREPARAÇÃO DO GOLPE
Dada a importância militar da unidade e o controlo que os oficiais social-fascistas sobre ela exerciam. a EPA esteve representada pelos oficiais do P«C»P em quase todas as reuniões preparatórias do golpe de 25 de Novembro.
Na reunião realizada no dia 30 de Outubro no Centro de Sociologia Militar e classificada como reunião da ADUs, os social-fascistas da EPA destacaram-se pela forma como frisavam a necessidade das «forças progressistas» tomarem uma posição definitiva e que «pusesse cobro a todos os ataques da direita». Aliás e como já ontem referimos, o capitão Rodrigues (ainda hoje na EPA) propôs o julgamento «popular e militar» para todos os oficiais e militares que obedecessem às ordens do «governo da burguesia». 
A nível dos oficiais social-fascistas que dirigiram a execução militar golpe bem como a nível dos dirigentes do P«C»P, a Escola Prática de Artilharia era uma unidade de «extrema confiança» e que «pode e deve desempenhar tem importante papel. (palavras de Varela Gomes numa reunião com militares de várias unidades a 17 de Setembro de 1975).
Foi assim que, numa reunião havida nos arredores de Évora pouco tempo antes de 25 de Novembro, reunião em que participaram os oficiais social-fascistas da RMS, a direcção da Organização Regional do Alentejo e Algarve do P«C»P e dois membros do Comité Central desse partido, ficou decidido que a unidade militar fundamental para desencadear o golpe no Alentejo e depois consolidá-lo era, precisamente, a EPA. Era também a EPA que maiores possibilidades tinha de cortar o avanço à coluna que saísse do Regimento de Cavalaria de Estremoz já que os social-fascistas do P«C»P contavam com a hesitação da maioria das unidades que não se pronunciariam sem que o golpe pendesse para um dos lados. No entanto, uma coisa tinham os dirigentes social-fascistas como certa: o RCE sairia para se opor ao golpe. Os canhões pesados, de grande calibre e de grande alcance da EPA eram a melhor arma para deter o avanço da coluna blindada do RCE.
É dada a importância que a EPA tinha para o êxito do golpe social-fascista nas regiões alentejanas, que os dirigentes do P«C»P, na reunião efectuada nos arredores de Évora, decidem concentrar o grosso das suas hostes frente àquele quartel.
Dava-se assim cumprimento a uma das directivas saídas dessa reunião e que vem expressa no comunicado da direcção da organização regional do P«C»P distribuído no próprio dia 25 e em que se diz já quase no fim:
«Apelamos para que os militares progressistas se mantenham vigilantes dentro das suas unidades e colaborem com os trabalhadores e o povo na defesa da Revolução.
Apelamos igualmente para que o povo se concentre junto das unidades militares no sentido de reforçar a unidade do povo com os soldados, sargentos e oficiais progressistas.»
Apesar de tal comunicado ter sido distribuído apenas a 25 de Novembro, quanto à EPA, a directiva que dele transcrevemos começou logo a ser cumprida.
PARA ATRELAR OS SOLDADOS AO GOLPE PLENÁRIOS E MANIFESTAÇÕES
Os planos dos social-fascistas do P«C»P tinham no entanto pela frente um grande obstáculo que teria que ser removido para que ele pudesse ser aplicado. Esse obstáculo era a resistência tenaz que os soldados da EPA, sob a direcção do nosso Partido, tinham vindo a desenvolver contra as manobras dos revisionistas do P«C»P.
Para tentar ultrapassar a posição dos soldados que deitava por água abaixo todos os planos que haviam traçado, os oficiais social-fascistas sob instruções do P«C»P começam a espalhar uns dias antes do 25 de Novembro que estava na forja o golpe fascista, que vinha aí o Pinochet, que era o fim de tudo e de todos. E, contra tal situação, punham eles a necessidade de os soldados e os militares progressistas se oporem ao avanço da «besta fascista» apoiando a luta contra as «medidas das direitas» que visavam afastar todos os homens «revolucionários» das F.A.s.
Ao mesmo tempo que moviam no interior do quartel esta campanha e começavam a vigiar e ameaçar os nossos camaradas soldados, os social-fascistas para pressionarem os outros soldados e demonstrar, lhes que o povo também estava contra tais manobras, realizou-se uma manifestação frente a EPA no dia 20 de Novembro. Tal manifestação era também um teste do P«C»P para ver como estava a sua «capacidade de mobilização», para ver como devia proceder nos cinco dias que faltavam para o desencadear do golpe,
No dia 24 de Novembro volta-se a repetir a mesma manifestação. Os social-fascistas presentes aprovam 14 moções todas elas em apoio aos objectivos do golpe que na madrugada se viria a desencadear.
Ambas as manifestações tiveram a presença de um número muito reduzido de soldados da Escola Prática de Artilharia. Tal provou que apesar de todas as manobras, ameaças e tentativas de aliciamento feitas pelos oficiais social-fascistas, os soldados da EPA não estavam dispostos a servir de carne para canhão no golpe a desencadear pelo P«C»P.
ARMAS DO COPCON PARA AS MILÍCIAS SOCIAL-FASCISTAS
Perante a situação existente e que era a de que os oficiais social-fascistas da EPA não sabiam muito bem com quantos homens poderiam contar para as operações militares, o comando militar do golpe instalado no COPCON decide enviar, como já havia sido programado na reunião realizada nos arredores de Évora cerca de 1000 G-3 para a EPA.
São essas armas que vieram pela mão do capitão Rodrigues do RPM para a EPA que se destinam a armar, como não podia deixar de ser, as milícias social-fascistas do P«C»P logo que para tal fosse dada ordem.
As milícias social-fascistas substituiriam assim os soldados da EPA em quem os golpistas não tinham nem pouca nem muita confiança, não tinham nenhuma. O isolamento dessa escumalha era tão grande que foram incapazes de fazer aprovar uma moção de apoio a Saraiva de Carvalho e de repúdio à nomeação de Vasco Lourenço para Chefe da RML num plenário da unidade. No entanto, como essa moção era imprescindível, um soldado de aviário, lacaio menor da oficialagem social-fascista, escreveu-a de noite e por indicação dos seus chefes enviou-a pelo telefone para o Rádio Clube que a divulgou em nome de alguns militares da EPA.
O RUIR DA PRAÇA FORTE
A praça-forte do golpe social-fascista no Alentejo começava assim a ruir por entre muros.
Os soldados opõem-se a desenvolver qualquer acção. As milícias social-fascistas que haviam passado a noite de 24 para 25 à espera das armas começam-se a cansar. As G-3 vindas do RPM de onde saíram para a EPA por ordem do COPCON chegam apenas às 24 horas do dia 25 de Novembro.
As milícias quando as vêem entrar perguntam quando é que elas serão distribuídas. Os oficiais social-fascistas entreolham-se, fazem um sorriso muito amargo e retiram-se sem dar qualquer resposta. O golpe social-fascista tinha começado a ser contido e o próprio P«C»P dedicava-se ao seu desmantelamento. Os pára-quedistas tinham sido desalojados, a «insurreição popular» não se tinha concretizado porque os assalariados rurais tinham votado o golpe ao desprezo e o P«C»P ao isolamento. Acabava não só de ruir a praça-forte como também todo o golpe e esfumavam-se assim os sonhos de Barreirinhas Cunhal e de Brejnev de, nessa altura instaurarem na nossa pátria uma ditadura social-fascista.
O golpe foi derrotado porque o povo não lhe deu qualquer apoio. Mas uma coisa é certa: os oficiais social-fascistas da EPA continuam na unidade. O capitão Rodrigues, hoje conhecido propagandista da O«R»FA/U«DP», continua as suas actividades e ainda há bem pouco tempo esteve na origem da prisão e expulsão de vários soldados revolucionários que prestavam serviço na EPA.
O golpe falhou, foi derrotado, mas os golpistas continuam impunes e a colher os louros e os frutos das suas actividades contra-revolucionárias e conspi­rativas com que preparam de novo o golpe.

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