quarta-feira, 27 de julho de 2016

1976-07-27 - Luta Popular Nº 350 - MRPP

3.º Anexo ao Relatório Preliminar do 25 de Novembro

RMS: O P«C»P E DESENCADEOU O GOLPE NO ALENTEJO

Uma das pedras fundamentais para o triunfo do golpe contra-revolucionário planeado e executado pelo P«C»P em 25 de Novembro era, sem dúvida a mobilização das massas populares em seu apoio. Sem esse apoio o golpe social-fascista estava condenado à derrota desde o primeiro minuto em que fosse desencadeado.
Sabendo disto, o P«C»P planeou cuidadosamente uma série de acções que visavam de uma forma demagógica e falsa mobilizar as massas populares era tomo do apoio activo ao golpe desencadeado nas forças armadas pelos oficiais social-fascistas.
O Alentejo era uma dessas regiões do nosso país para onde essas acções foram planeadas. Dizemos planeadas já que na sua esmagadora maioria não chegaram a ser executadas porque os assalariados rurais não se deixaram iludir pela demagogia dos revisionistas do P«C»P e votaram-nos ao mais completo desprezo.
Estas acções a desenvolver, quer pelo P«C»P quer pela« organizações sindicais cujas direcções eram controladas pelos social-fascistas, articulavam-se com operações militares que seriam levadas a cabo a partir de algumas unidades onde os oficiais do P«C»P tinham algum peso a nível de comando.
São todo este conjunto de acções que vêm referidas no 3.° Anexo ao Relatório Preliminar sob o título Região Militar Sul, e que boje passaremos a analisar.
A PREPARAÇÃO DO GOLPE
Do ponto de vista das armas e do poderio militar a Região Militar Sul não era favorável aos planos dos social-fascistas. O P«C»P tinha alguma influência em certas unidades militares mas a esmagadora maioria tinha comandos que conciliando com as manobras do P«C»P certamente se oporiam ao golpe logo que ele fosse desencadeado.
O P«C»P tinha na Região Militar Sul duas bases de apoio importantes: a Escola Prática de Artilharia e o Gabinete de Dinamização Regional da RMS.
Foi nestas duas forças que o P«C»P se apoiou para aplicar a sua reforma agrária social-fascista e desviar dos seus objectivos revolucionários o justo movimento de ocupações de latifúndios em que se empenharam como um só homem todos os assalariados rurais do Alentejo.
A Escola Prática de Artilharia serviu para muitas vezes impedir pela força das armas que os camponeses aplicassem a sua reforma agrária e que fossem obrigados a respeitar as instruções dadas pelos caciques do P«C»P no sentido que se respeitasse a «Reforma Agrária» dos social-fascistas que a propuseram num dos governos provisórios.
O Gabinete de Dinamização Regional da Região Militar Sul, à frente do qual se encontrava o capitão Andrade e Silva com mais alguns apaniguados, todos quadros do P«C»P escolhidos a dedo, é o responsável por através de todo o Alentejo ter realizado milhares de sessões de «dinamização» em que os oficiais acima referidos faziam a mais descarada e veemente propaganda ao P«C»P.
O capitão social-fascista Andrade e Silva e todos os oficiais do GDR, a secção da 5.ª divisão social-fascista para o Alentejo, são ainda responsáveis por atrasos importantes no desenvolvimento e organização do movimento das ocupações e da formação das cooperativas já que logo que sabiam que uma ocupação se ia realizar, tentavam adiá-la e coloca-la nas mãos do «IRA» e sob o controlo do P«C»P.
Foi nestas duas forças militares estreitamente ligadas à nova burguesia rural social-fascista que o P«C»P encontrou os seus principais apoios para a sua aventura contra-revolucionária.
Elas tiveram uma participação activa na preparação militar do golpe já que estiveram presentes em todas as reuniões que se realizaram em Lisboa e nas quais as unidades militares controladas pelos social-fascistas contaram as armas, os homens os canhões e os tanques que dispunham para desencadearem as operações militares no dia 25 de Novembro.
Numa dessas reuniões, a que se realizou no Centro de Sociologia Militar a 30 de Outubro, o capitão Rodrigues da E.P.A. chegou mesmo a propor:
«Para começar, devemos adoptar a medida de exigir e levar a cabo o julgamento popular e militar de todos aqueles (oficiais) que cumpram as ordens do governo da burguesia.»
Sabendo que não podiam contar coro os comandos das unidades da Região Militar Sul, nem possuíam qualquer implantação política para além daquela que tinham na EPA e na GDR, o P«C»P levou a cabo uma série de acções que precederam o golpe e que visavam a substituição do comandante da RMS e de alguns oficiais cujos campos eram importantes para que o golpe resultasse na região Sul do país.
É dentro deste plano que os «S»UV realizam uma manifestação em Évora exigindo o saneamento de Pezarat Correia, comandante da RMS. A manifestação foi no entanto um fracasso completo. Presentes na manifestação poucos ou nenhuns soldados da RMS e das unidades de Évora. A primeira parte do plano tinha falhado — a manifestação fora um fracasso —, logo o P«C»P não pôde desencadear a segunda que era a contestação, em cada unidade que eles não controlavam, do comando desse quartel e da Região Militar.
Muitos esforços desenvolveram os social-fascistas do P«C»P no sentido de atrelar os soldados a esta manobra mas o esclarecimento persistente e a forte implantação entre os filhos do povo da organização de unidade revolucionária dos soldados e marinheiros — a RPA-C — impediram que os social- fascistas do P«C»P conseguissem os seus intentos.
A TÁCTICA PARA O GOLPE
Sendo que não dispunham de forças militares suficientes para desencadear uma acção ofensiva que contribuísse com peso para a vitória do golpe, os social-fascistas do P«C»P viam assim em grande parte os seus planos falhados.
No entanto, as ordens eram para actuar. Realizou-se assim poucos dias antes do golpe de 25 de Novembro uma reunião em que participaram vários militares social-fascistas (capitão Andrade e Silva, capitão Rodrigues, capitão Ferreira de Sousa e vários oficiais milicianos) e a direcção da organização regional do Alentejo e Algarve do P«C»P que contou ainda com a participação de dois elementos do comité central daquele partido.
Nessa reunião que se realizou nos arredores de Évora foi definida a táctica que devia ser seguida no Alentejo durante o decorrer do golpe.
A táctica era simples. Adoptava-se a medida de não envolver as tropas da EPA em acções ofensivas mas guardavam-se para fazerem frente e cortarem caminho a quaisquer forças que se dirigissem a Lisboa para conter o golpe. A situação geográfica daquela unidade que se situa em Vendas Novas e o armamento que dispõe (canhões de artilharia pesada de longo alcance) permitiam tal tipo de actuação. No entanto, os social-fascistas do P«C»P esperavam que as unidades militares só se pronunciassem a favor ou contra quando a situação estivesse clara e se visse quem estava a ganhar. No entanto, quanto ao Regimento de Cavalaria de Estremoz não havia qualquer dúvida: iria actuar contra o golpe, havia, portanto, que impedir que tal acontecesse.
Quanto à mobilização popular ficou decidido que ela seria feita tanto pelas organizações do partido social-fascista como pelas organizações sindicais cuja direcção era controlada pelos caciques do P«C»P. Tomaram ainda outra medida que tanto quanto possível todas as acções levadas a cabo por essas organizações deveriam ser acções armadas capazes de dissuadir qualquer intervenção da GNR.
Quanto à data ela também ficou clara: as acções seriam levadas a cabo algumas a 24 e outras a 25.
O DESENCADEAR DO GOLPE: AS PRIMEIRAS DERROTAS PARA O P«C»P
É dentro desta táctica que dia 24 de Novembro se realizam duas manifestações, uma frente à EPA para apoiar aqueles militares e assim incitá-los a cumprir as tarefas de que estavam incumbidos para o dia seguinte e outra, em Campo Maior onde uma escassa centena de manifestantes exige o «regresso do Vasco». Esta foi uma das primeiras provas que o P«C»P obteve do seu isolamento junto dos assalariados rurais do Alentejo. Outras manifestações que estavam programadas não se realizaram porque os seus promotores — os caciques social-fascistas — viram que não conseguiam mobilizar ninguém.
Começava mal a «mobilização popular» em apoio ao golpe social-fascista.
No dia 25 de Novembro e logo que se sabe da ocupação das bases da força aérea pelos pára-quedistas, operação militar que visava aniquilar a força aérea, a direcção da organização regional do Alentejo e Algarve do P«C»P emite um comunicado em que se diz:
«Para já apelamos para estarmos todos vigilantes e esta noite (e até a situação se clarificar) montarmos guarda:
— Às centrais de abastecimento de água, energia eléctrica, centrais telefónicas e correios.
— Às herdades colectivas e cooperativas, Sindicatos, Centros da Reforma Agrária e Sedes de partidos progressistas;
— Às fronteiras terrestres e marítimas, aos aeroportos, aos cruzamentos ferroviários e rodoviários mais importantes;
— Vigiar os fascistas mais importantes.
Apelamos para que os militares progressistas se mantenham vigilantes dentro das suas unidades e colaborem com os trabalhadores e o povo na defesa da Revolução.
Apelamos igualmente para que o povo se concentre junto das unidades militares no sentido de reforçar a unidade e do povo com os soldados sargentos e oficiais progressistas.» Termina este comunicado dizendo numa das suas últimas linhas: «Paralisemos o trabalho!».
Estas eram as acções a desencadear para levar a táctica adoptada pelo P«C»P no Alentejo que estava expressa neste comunicado e foi com base nele que a maioria das operações se desencadearam.
Apesar de todos os apelos das direcções social-fascistas dos sindicatos agrícolas para haver paralisações de trabalho os assalariados rurais não as cumpriram nem executaram qualquer das acções propostas por elas, acções que eram idênticas as que haviam sido mencionados no comunicado do P«C»P.
Incapazes de mobilizai- as massas e especialmente os assalariados rurais (já no dia 24, em Beja, o M«D»P/C«D»E não havia realizado a manifestarão prevista por não haver ninguém), os social-fascistas e os seus grupelhos tentam eles levar a cabo as acções de vigilância sobre as unidades de menos confiança. É assim que durante todo o dia 25 várias brigadas do P«C»P e da U«DP» vigiam o Regimento de Cavalaria de Estremoz.
Já ao fim da tarde de 25 de Novembro e utilizando todos os métodos repressivos que estavam à sua mão para levar os camponeses a nelas participar, os social-fascistas do P«C»P montam barricadas nas estradas por onde poderia passar uma coluna militar vinda de Estremoz.
É assim que essas barricadas aparecem montadas em Bencatel, na estrada de Vila Viçosa — Redondo, na aldeia de S. Miguel de Machede, na estrada de Évora — Redondo e na aldeia de Amareleja (Moura).
No distrito de Beja o cacique social-fascista Soeiro consegue apenas mobilizar vinte homens que arma e com os quais efectua na cidade e regiões vizinhas missões de vigilância.
No dia 25 de Novembro a instalação sonora montada na sede do P«C»P em Évora faz lacrimejantes apelos para que a população se concentre junto aos quartéis e outros pontos «sensíveis». Tais apelos não surtem efeito e a essas concentrações apenas aparecem os social-fascistas a quem na noite de 24 para 25 tinham sido distribuídas armas pelo capitão Fernandes.
Quando a coluna de blindados de Estremoz se põe em marcha em direcção a Lisboa os social-fascistas da EPA informam o COPCON do que se passa e recebem ordens da sede do P«C»P em Évora por intermédio do capitão Andrade e Silva no sentido de desmobilizarem os soldados. Nesta altura já se tinha iniciado a contenção do golpe e os social-fascistas do P«C»P já tinham visto o isolamento e o desprezo a que os votavam os assalariados rurais.
Como se vê a táctica do P«C»P para as suas acções golpistas no Alentejo falhou. Sofreu uma derrota estrondosa porque tal como os outros sectores do nosso povo que estavam contra o golpe social-fascista que visava instaurar na nossa pátria uma ditadura pior que a ditadura fascista, também os assalariados rurais não o apoiavam.
Tal como se vê nos acontecimentos que se desenrolaram no Alentejo, o golpe social-fascista de 25 de Novembro foi cuidadosamente preparado e executado pelo P«C»P. É certo que o Relatório Preliminar esconde e escamoteia.

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