terça-feira, 26 de julho de 2016

1976-07-26 - O Escriba Vermelho Nº 03 - PCP(ml)

ALICE BÁRTOLO RESPONDE AO COMUNICADO DA DIRECÇÃO
PELA BOCA MORRE O PEIXE

O comunicado da Direcção do Sindicato dos Escritórios de Lisboa, sob o título «Esclarecimento Desmentido» (que não esclarece mas mente descaradamente), emitido em 12 de Julho e publicado no Jornal Novo do dia 14, em resposta à entrevista concedida por mim, Atice Bártolo, alguns dias antes a este Jornal, e à «Carta Aberta» que dirigi aos corpos gerentes, desmascara ainda mais as suas posições reaccionárias e caluniosas típicas dos sociais-fascistas e de quem não tem argumentos para rebater a acusação de traição ao programa eleito pelos sócios do Sindicato.
AS MENTIRAS E INSINUAÇÕES TORPES DA MAIORIA DA DIRECÇÃO
Comecemos pela vossa democracia: o vosso comunicado de resposta à minha «Carta Aberta» foi decidido numa reunião de Direcção para a qual não fui convocada, «por lapso», como o Vítor Hugo teve o descaramento de dizer.
1 - Dizem que a minha «Carta Aberta» foi «profusamente distribuída».
Esta aflição de quem se vê desmascarado e grita «ai, que toda a gente vai saber o que nos somos», só prova que temem a verdade. Convinha-lhes mais que a censura social-fascista tivesse impedido que a minha «Carta Aberta» fosse distribuída profusamente, a ainda têm o descaramento de defender essa censura no bom estilo do submarino Arons de Carvalho, que bateu palmas à proibição de «Século-Hoje» por denunciar o social-imperialismo russo.
2 – Dizem que não possuo «disponibilidades materiais» para fazer a distribuição da minha «Carta Aberta».
O desespero de censores impotentes leva-os a recorrerem a insinuações e à baixa calúnia fazendo as contas sobre um comunicado a ser distribuído no meio dos empregados de escritório, verifica-se facilmente que vocês não percebem nada de artes gráficas e que o vosso intuito é caluniarem-me (insinuando) que é a forma de os cobardes e os sociais-fascistas o fazerem. Aliás, para aumentar o vosso desespero, aviso-vos que o meu próximo comunicado será distribuído no dobro de exemplares, e assim sucessivamente. É que o apoio dos verdadeiros patriotas e democratas à minha luta já é grande e irá aumentando.
3 - Dizem que, ao contrário do que eu afirmava, não fui destituída das minhas funções.
É verdade que sete de vocês me destituíram das funções que eu desempenhava no Sindicato como membro da Direcção responsável pelo Serviço de Apoio a Delegados Sindicais (SADS). Na reunião de Direcção de 29-6-76, de cuja acta tenho fotocópia, sete de vocês aprovaram a seguinte proposta:
« - seja anulada a requisição desta Directora à empresa onde trabalha;
- não delegar qualquer representatividade desta Direcção nesta Directora;
- lhe seja retirada a responsabilidade de qualquer pelouro!
De salientar que, nesta reunião, elementos provocadores da Direcção, em que se destacou Vítor Hugo, boicotaram as minhas intervenções, como aliás vinham fazendo há muito, e nem sequer me deixaram rebater as calúnias dos sociais-fascistas que deram origem à vossa proposta. Aliás, a acta da reunião é elucidativa, dado que nela não consta qualquer intervenção minha. A vossa democracia é igual à de Cunhal e, portanto, contrária ao programa com base no qual fomos eleitos.
4 - Dizem que me manterei na Direcção até ao final do mandato.
Ao afirmarem tal, querem, esconder que podem ser demitidos. Basta que os sócios assim o queiram. Um princípio básico da democracia é que quando os eleitos traem o programa que os elegeu, podem e devem ser destituídos.
5 - Dizem que eu não cumpria o horário de trabalho no Sindicato.
Logo após a nossa eleição, eu critiquei o vosso comportamento de chegarem sistematicamente atrasados às reuniões (às vezes mais de duas horas) ou faltarem pura e simplesmente. Muitas não se realizavam por falta de quórum e vocês divertiam-se com gracinhas do tipo «então já temos coiro?». E chegava-se ao ponto de alguns dormirem durante as reuniões e outros beberem bagaço! As minhas horas de trabalho no Sindicato podem ser testemunhadas pelos empregados do meu sector (os que não são nazis cunhalistas, claro).
Quanto às minhas idas a plenários, o que se passou na realidade foi que vocês me boicotaram sistematicamente o acesso aos processos de trabalho. O provocador Janeiro (do Conselho Fiscalizador) chegou a dizer que preferia que os processos estivessem entregues aos sociais-fascistas do que nas minhas mãos.
6 - Dizem que foram feitas quatro reclamações contra mim e insinuam que, por isso, eu seria uma criminosa.
Mas escondem quem as fez! Pudera, pois foram os sociais-fascistas com o apoio dos submarinos e a conivência dos conciliadores, com o objectivo de me afastarem e poderem manobrar mais à vontade. Na, «Carta Aberta» eu deixo bem claro o caso do nazi Paulo Bacellar, «o KGB», e o de Daniel de Matos, empregado de Cunhal num posto-chave do Sindicato, que apresentaram duas dessas «reclamações».
A terceira «reclamação» é a de uma infeliz que se encontra sob chantagem de Daniel de Matos, pois é ele quem está a tratar do seu processo de despedimento. Pedi a convocação de uma reunião, com esta senhora, para que ela provasse as mentiras de que me acusa e vocês impediram essa reunião (mais concretamente o provocador Janeiro, do Conselho Fiscalizador).
A quarta «reclamação» desconheço-a. É claro que o partido nazi cunhalista pode inventar e apresentar centenas de «reclamações» e «acusações graves» contra mim, que, aliás, vocês fazem vossas, já que têm a mesma política. Prática essa em que os sociais-fascistas, desde o 25 de Abril, têm sido exímios.
7 - Dizem que o público não conhece os processos que me foram movidos e que eu os escamoteio.
Ora, a minha «Carta Aberta» destinou-se exactamente a dar a conhecê-los e nela constam vários excertos das cartas dos sociais-fascistas que me «acusam». Vocês é que escamoteiam os processos, pois nem sequer me deixaram fotocopiar aquelas cartas para eu as analisar e rebater, permitindo-me apenas tirar algumas notas, e só mas deram a conhecer passado um mês da sua entrega aos corpos gerentes. Desafio-vos a não escamotear os processos e a divulgá-las, pois nelas se pode verificar a vossa intimidade com nazis cunhalistas bem conhecidos, que vos tratam por «amigos e camaradas» e aplaudem vibrantemente a vossa actuação social-fascista.
8 - Dizem que eu afirmei que «estava na Direcção para cumprir aquilo que o meu partido determinasse».
Esta calúnia é ridícula. Nem os sociais-fascistas dizem tais parvoíces! Eu nunca escondi que sou militante do PCP(m-l), e até foi por ter esta filiação partidária que o PS me convidou para fazer parte da lista B. No entanto, apesar do trabalho sindical ser um trabalho político e as correntes sindicais serem o reflexo de uma determinada orientação política, sempre me preocupei em estabelecer relações de trabalho correctas com base no programa da lista B, o único que me comprometi defender. O mesmo não aconteceu convosco. Vocês querem cobrir-se com a demagogia do «apartidarismo» para melhor encobrirem a vossa prática ao serviço do social-fascismo. Essa táctica já era seguida por Salazar com a demagogia corporativista de «nada de política nos sindicatos» (só a PIDE podia lá fazer trabalho político) para os desviar da luta mais geral do povo contra o fascismo. Hoje, são os sociais-fascistas que mais demagogia fazem sobre o «apartidarismo» e a «unidade» (social-fascista. evidentemente). Mas, já agora vos digo que seria bom se vocês seguissem as directivas democráticas do PS e não as do partido nazi cunhalista.
9 - Dizem que eu repudiei a festa da «unidade» do 1. de Maio.
Eu defendo a unidade das forças democráticas e luto contra a unidade podre mm o social-fascismo. A táctica actual de Cunhal é vestir a pele de cordeiro para poder, encavalitado no PS, realizar a caminhada que o levou ao 25 de Novembro. Ao mesmo tempo, que necessita de provocar a instabilidade e prosseguir na sabotagem económica. É por isso que hoje vemos os cunhalistas com pele de cordeiro a não apoiarem abertamente as greves que ultimamente têm surgido. O papel que Cunhal atribui à Direcção é de serem vocês agora a desempenhar essa tenebrosa tarefa de sabotagem da reconstrução nacional. O apoio sistemático que a Direcção, através dos seus comunicados e da sua acção, tem dado a uma série de greves reaccionárias (retalhistas, hotelaria, sector automóvel, etc.), mostra que vocês cumprem bem o papel.
A DIRECÇÃO DEFENDE AS POSIÇÕES DE CUNHAL SOBRE A ACTUAL SITUAÇÃO POLITICA
Para quem ainda tiver dúvidas sobre a linha social-fascista da Direcção, basta ler a última parte do seu comunicado n.º 29 que estamos a citar, em que caluniam o PCP(m-l) e fazem a mesma análise de Cunhal sobre a actual situação política. Segundo a Direcção estamos a assistir a um processo de «recuperação capitalista» e instauração de um «regime de direita», e que o PCP(m-l) divide as «verdadeiras forças de esquerda». O que estes sociais-fascistas encapotados querem dizer é que preferem o caos e o terror do «processo revolucionário em curso» e a «unidade de esquerda» contra a unidade das forças democráticas. O PCP(m-l) é da «direita» por lutar com firmeza contra o social-imperialismo russo e seus agentes, por defender, no momento actual, uma política de cooperação entre os sindicatos, os partidos democráticos e o Presidente da República. Vocês cumprem a tarefa reaccionária de tentarem impedir a estabilização da democracia.
QUEM NÃO DEVE NÃO TEME…
Já que se mostraram tão melindrados por eu não ter recolhido ao aparelho técnico do Sindicato para a impressão da «Carla Aberta», desafio-vos a não boicotarem a utilização do aparelho técnico a que tenho direito como membro da Direcção para a feitura deste comunicado de resposta às insinuações e calunias de uns tantos sociais-fascistas dos Corpos Gerentes do Sindicato.

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