terça-feira, 26 de julho de 2016

1976-07-26 - Luta Popular Nº 349 - MRPP

3.° Anexo ao Relatório Preliminar do 25 de Novembro

RIS: OS SOLDADOS OPUSERAM-SE AO GOLPE SOCIAL-FASCISTA

Um dos «êxitos» mais propagandeados pelos social-fascistas do P«C»P nas primeiras horas do seu golpe de 25 de Novembro foi aquilo a que apelidaram de constituição da chamada «Comuna de Setúbal». Para animar as suas hostes os revisionistas espalharam aos quatro ventos através do país que o povo de Setúbal se havia sublevado; os soldados tinham vindo para a rua; a cidade estava tomada e nas mãos das «forças progressistas» que haviam sido armadas pelo Regimento de Infantaria de Setúbal.
Tudo isto não passava de uma prodigiosa e muito oportuna invenção dos social-fascistas que se destinava a animar os golpistas que sentiam o chão fugir-lhes debaixo dos pés perante o desprezo e o ódio que o povo votou a essa aventura contra-revolucionária. Mais uma vez para atingirem os seus fins, os social-fascistas mentiam descaradamente ao povo e aos soldados para tentar arrastá-los para o golpe e assim serem utilizados como tropa de choque ao serviço dos interesses do social-imperialismo revisionista soviético.
É precisamente a acção desenvolvida pelos revi­sionistas do P«C»P-FU«R»-U«DP» na preparação e desencadeamento das suas manobras no Regimento de Infantaria de Setúbal, tendentes a envolver aquela unidade nas operações militares do golpe, que vem referida no 3.º Anexo ao Relatório Preliminar de 25 de Novembro que passaremos a comentar.
CONTROLAR O RIS: UM OBJECTIVO IMPORTANTE PARA O P«C»P
Dado que o P«C»P logo a seguir ao 25 de Abril se apoderou, no distrito de Setúbal, de grande parte do aparelho de estado fascista (câmaras, juntas, etc.) e mesmo do aparelho sindical, tornava-se importante para as actividades desse partido controlar a mais importante unidade militar da região que era precisamente o Regimento de Infantaria de Setúbal.
Tal controlo efectivo do RIS tornava-se importante não só para apoiar o sector do aparelho de estado que dominava com forças repressivas à altura, mas também, para impedir o desenvolvimento e desviar dos seus objectivos o movimento revolucionário de massas, bem como, servir-se das G-3 do RIS como armas de protecção para a conquista de novos postos aos outros sectores da burguesia com quem os social-fascistas se disputam pela posse do aparelho de estado e do aparelho militar.
Esse controlo efectivo da unidade vêm-no a conseguir após o 28 de Setembro. Através de uma série de golpes e de manobras de gabinete apoiados pelo «companheiro» Vasco, os social-fascistas do P«C»P conseguem introduzir na unidade um comandante e um 2° comandante que não só permitem como fomentam as actividades dos oficiais social-fascistas dentro e fora da unidade.
É a partir de então que com total conhecimento do comandante e do segundo comandante major Tavares Carvalho, um grupo de oficiais liderados pelo alferes Botas se dedica a toda a espécie de actividades ao serviço do partido social-fascista recebendo dele ordens directas acerca do que devia ser a sua actividade.
As «campanhas de dinamização» promovidas pelos oficiais do RIS levam à demissão de uma série de elementos de Comissões Administrativas de juntas e de câmaras onde são colocados elementos do P«C»P. O alferes Botas reprime em Setúbal bem como nos bairros limítrofes as primeiras tentativas de ocupações de casas, pois para isso tinha ordens da C.A. social-fascista da câmara de Setúbal. Esse mesmo alferes Botas e um sargento lambem do P«C»P de nome Laranjeira logo que os assalariados rurais do vale do Sado e da região de Santiago do Cacém se põem em marcha e começam a ocupar os ricos e extensos latifúndios de terra de regadio existentes nessa zona, recebem ordens no sentido de o conterem tentando aplicar a lei da «Reforma Agrária» bem como o colocarem sob o controlo do P«C»P. Por este meio, o partido social-fascista veio mais tarde a poder apoderar-se das melhores terras e das melhores herdades sobre as quais passou a exercer um controlo efectivo.
Esta situação, bem como os mais veementes e sentidos protestos dos soldados que várias vezes se ergueram contra a repressão que os social-fascistas exerciam sobre eles (rusgas à noite às casernas à procura de propaganda revolucionária, agressões contra aqueles que não cumpriam as ordens que eram dadas pela oficialagem social-fascista) fez com que os comandos fossem substituídos e o alferes Botas fosse transferido para funcionário do Serviço Cívico.
Este foi um golpe rude que os soldados e as forças democráticas impuseram aos social-fascistas do RIS logo nos princípios do Verão.
No entanto, os social-fascistas não cruzaram os braços e com as forças que lhes restavam no interior do quartel, que ainda eram algo numerosas aliadas às forças do P«C»P que do exterior pressionavam o comando do quartel, começaram a preparar as condições para de novo assumir o controlo da unidade.
A CONSTITUIÇÃO DO COMITÉ DE LUTA NO RIS
Quando no dia 29 de Setembro o COPCON ordena às suas forças militares a ocupação das emissoras de rádio e de televisão, os social-fascistas de toda a região industrial de Setúbal tentam arregimentar os operários para se concentrarem junto ao RIS, exigirem armas e marcharem sobre Lisboa no sentido de impedir o avanço do que classificavam de «golpe fascista em marcha».
Servindo-se de uma medida do CR que em nada alterava o controlo social-fascista sobre esses órgãos da «informação», antes pelo contrário consolidava-o, o P«C»P lançou uma intensa campanha de agitação e mobilização no sentido de preparar desde então as suas forças mantendo-as em tensão para o golpe social-fascista já em preparação e em marcha.
Perante a concentração de alguns milhares de operários e populares à porta do quartel que, dirigidos pelos social-fascistas, exigiam armas, os soldados realizam um plenário, elegem uma Comissão, constituída na sua maioria por soldados mas que tem representantes dos oficiais e sargentos. Essa Comissão entra então em contacto com as Comissões de Moradores e de Trabalhadores que se encontravam no exterior e propõem uma reunião em conjunto para estudar a situação política e as medidas a tomar. A maioria das comissões presentes controladas pelos social-fascistas do P«C»P, muitas delas eleitas a golpe e nas costas das massas, pronunciam-se pela entrega das armas à população e pela marcha sobre Lisboa. Os soldados revolucionários e os elementos militares democratas que constituem a Comissão do quartel juntamente com os elementos antifascistas e anti-social-fascistas das C.M.’s e das C.T.’s pronunciam-se também contra, acabando os social-fascistas por ficar isolados e retirar a sua proposta inicial.
Vêem, no entanto, na constituição de um Secretariado da Comissão de Luta uma oportunidade excelente de o utilizar para de novo tentar assumir o controlo da unidade. É por aí então que enveredam. Os soldados revolucionários, os operários e elementos do povo antifascistas e anti-social-fascistas cometeram então um erro que mais tarde lhes veio a sair caro. Não controlaram as entradas, nem verificaram se as comissões presentes estavam mandatadas e se eram realmente comissões eleitas pelos operários e pelas massas populares ou se eram comissões eleitas nas costas das massas e que actuavam contra os seus interesses.
Tal situação, veio a permitir que os social-fascistas presentes a essa reunião elegessem para o secretariado da Comissão de Luta apenas aquelas comissões que eram directamente controladas pelo P«C»P ou pelos seus cães de trela, salvo um caso: a C.T. da Sapec,
O PLANO MILITAR DO GOLPE SOCIAL-FASCISTA VISAVA TAMBÉM A TOMADA DA CIDADE DE SETÚBAL
É esse Secretariado da Comissão de Luta de Setúbal, sob a direcção do P«C»P, que toma em mãos a preparação do golpe de 25 de Novembro no que diz respeito à cidade sadina.
Os social-fascistas do quartel, entre os quais se destacam, o alferes médico Pinto (P«C»P), o sargento Laranjeira (P«C»P), sargento Raposo (P«C»P), soldado Carvalho (funcionário do P«C»P), furriel Quintela (P«RP»), soldado Luís (quadro do P«RP»), participam nas reuniões inter-ADU’s que se realizam pouco antes de 25 de Novembro e aí expressam a posição de que o RIS não era uma unidade de confiança: Foi-lhes dito pelo major Tomé e pelo capitão Dinis de Almeida que era indispensável que a unidade armasse, como estava previsto, os quadros que para isso haviam sido destacados. O grupo de social-fascistas disse que iria ver o que é que era possível fazer.
No dia 24 de Novembro, o social-fascista de serviço na sede do P«C»P recebe a informação que lhe é transmitida por Carlos Brito do C.C. do P«C»P dizendo que tudo devia estar a postos porque durante a noite as «coisas iam acontecer». Esta informação foi transmitida por esse cacique a um dos membros da Comissão de Luta quando estava presente um elemento militar que não era da total confiança dos social-fascistas.
Então, a partir da ocupação das bases aéreas pelos pára-quedistas a Comissão Administrativa social-fascista da Câmara Municipal de Setúbal coloca no seu terraço uma instalação sonora, a que o Relatório se refere, que passa a transmitir apelos insistentes para que a população de Setúbal se concentre junto das porias do RIS para exigir armas e marchar em apoio aos pára-quedistas, isto é, em apoio ao golpe social-fascista que se havia desencadeado.
Um carro também cedido pela C.A. social-fascista da Câmara transportando um elemento da Comissão de Luta percorreu a cidade fazendo o mesmo apelo.
No entanto, só na manhã do dia 25 de Novembro é que os social-fascistas do P«C»P-FU«R»-U«DP» conseguiram concentrar alguém junto aos portões do RIS. Exigiam armas para marchar sobre Lisboa e para defender a cidade de Setúbal.
Entretanto um emissor clandestino montado pelo P«RP» num dos torreões habitacionais junto à Praça de Touros começa a emitir comunicados em que se apelava para a solidariedade da população para com o golpe social-fascista e a necessidade de pegar em armas para derrotar a «direita». Este posto emissor era controlado pelo atrás citado soldado (de aviário) Luís que era quadro profissional do P«RP» embora este posto emissor tivesse sido montado com material fornecido pelo P«C»P.
OS SOLDADOS DO RIS TOMAM POSIÇÃO JUSTA FACE AO GOLPE
Confrontados com a situação no exterior onde os revisionistas apesar dos seus incessantes apelos tinham apenas conseguido juntar cerca de 1000 indivíduos, os soldados decidem realizar um plenário da unidade para tomar posição acerca dos acontecimentos que se estavam a desenrolar.
O plenário que então se realizou revelou que a posição da grande maioria dos soldados e de outros militares era a de que um golpe contra-revolucionário estava em curso e que a posição da unidade deveria ser a de não apoiar esse golpe e defender apenas o quartel e o povo de quaisquer ataques que contra eles fossem movidos. Essa foi a posição que ganhou a votação no plenário. Quanto à distribuição das armas e da situação no exterior foi proposto realizar uma reunião, aberta a todos os soldados, entre a Comissão Militar e a Comissão de Luta.
Tal reunião realizou-se cerca das 12 horas. Nessa reunião os social-fascistas do P«C»P-FU«R»-U«DP» apresentaram um plano que consistia em:
1 — Constituição de um comando político-militar cujas funções seriam assumidas pela Comissão de Luta e Comissão Militar do RIS.
2 — Formação de brigadas de civis armados e militares para marcharem para Lisboa no sentido de defender o RPM.
3 — Ocupação com barreiras de todos os acessos à cidade de Setúbal. Tais barreiras seriam guarnecidas por civis armados e militares. Ocupação dos depósitos de água, centrais eléctricas, fábricas, porto. Vigilância de grupos armados (civis e militares) sobre a GNR e a PSP.
4 — Ocupação do campo de aviação da Sapec.
Tal plano foi completamente rejeitado quer pelos soldados presentes em massa na reunião quer pela Comissão Militar do RIS que denunciou tais medidas como fazendo parte de um golpe social-fascista ao serviço do P«C»P. Tal afirmação feita por um militar revolucionário valeu-lhe os piores epítetos que podem sair da boca dos social-fascistas. Uma coisa é certa: os caciques do P«C»P-FU«R»-U«DP» não conseguiram demover os soldados da sua justa posição.
No entanto mal ouviram vários aviões picar sobre o quartel em formação cerrada, os «valentões» que queriam fazer o golpe fugiram cheios de medo, alguns com lágrimas de terror nos olhos o que causou a maior hilaridade entre os soldados que a tal cena assistiram.
Entretanto os social-fascistas do P«C»P que nesse dia de 25 de Novembro de 1975 fizeram sair contra a vontade dos trabalhadores um número especial do jornal «O Setubalense» que dizia em grandes parangonas «Armas aos Trabalhadores Já! A Situação é favorável à esquerda!», foram os que incessantemente telefonaram, em nome do próprio P«C»P, para o RIS a pedir que os militantes, simpatizantes e activistas, que vendiam o «Luta Popular» e denunciavam às massas o golpe social-fascista, fossem imediatamente presos porque a «sua actividade era ilegal».
A «Comuna de Setúbal» não passou de uma bazófia dos social-fascistas para encobrir o isolamento a que as massas os votaram e o ódio com que se ergueram contra o seu golpe que visava instaurar uma ditadura social-fascista na nossa pátria.
Acerca de tudo isto o que o relatório traz resume-se a 30 linhas. Esclarecedor, não é...

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