domingo, 24 de julho de 2016

1976-07-24 - 25 de Abril do Povo Nº 04


De pé atrás

A actividade política da semana esteve centrada em torno da formação do Governo.
Contactos com partidos, com sindicatos, com a CIP e Associações de Comerciantes, com retornados, com estudantes e com associações de pais, com o bispo do Porto e o cardeal patriarca — toda esta febril actividade de Mário Soares foi atentamente seguida.
Mário Soares teve o condão de deixar confiantes quer dirigentes sindicais do Porto quer os empresários da CIP. E evidente que, por enquanto, houve apenas declarações: muito gerais da parte do Governo. Sabendo-se que a tese de Eanes sobre a convergência de interesses entre trabalhadores e "empreendedores" é negada pela realidade dos factos da prática quotidiana e pela ciência social que os analisa e sistematiza, mais tarde ou mais cedo, a confiança de uma das partes desvanecer-se-á.
Para já há razões para os trabalhadores estarem alerta.
Por um lado, porque os dirigentes do PS têm revelado tendências conciliatórias para com o fascismo. A preocupação de que o Governo faça cedências ao fascismo cresce depois de se saber da intenção de Mário Soares de colocar spinolistas no Governo, preocupação acrescida após as declarações do primeiro-ministro favoráveis ao regresso de Spínola, Cedências do PS à direita militar? Irá ainda o Governo de Mário Soares ceder às pressões das bombas da direita interessada ainda em fazer da descolonização o seu cavalo de batalha?
Por outro lado, os trabalhadores têm razão para estar alerta, face às últimas medidas antipopulares do VI Governo, Governo recheado de ministros "socialistas" que procuraram tardiamente debelar a crise atirando-o para cima das costas dos trabalhadores.
Dos contactos com os partidos, fica a ideia de uma oposição colaborante da parte do PPD e CDS e de uma oposição mendigante da parte do PCP.
PPD e CDS adiaram as suas pretensões de um Governo de coligação ou de "Salvação Nacional". Por enquanto, pelo menos. O CDS já afirmou que espera vir a fazer parte do Governo antes de terminados os quatro anos do mandato.
As apreensões que o PPD manifestou sobre o Governo só PS, manifestou-as também o PCP, embora por razões não necessariamente coincidentes. O PCP não desaproveita cada oportunidade para insistir na formação da "maioria de esquerda”. Para forçar o PS a aceitar essa ideia tem oscilado entre a dureza de declarações sobre o seu não apoio a um governo exclusivo do PS e uma atitude mendigante de pedir a sua participação no Governo.
A UDP, por seu turno, não manifestou oposição a que o Governo fosse só do PS, o que não quer dizer que apoie o Governo do PS. A sua atitude é de expectativa e desconfiança, perante a alternativa em que se encontra o PS: ou governar contando com a força e iniciativa do povo ou atacar o movimento popular.
E no teste popular? Passará também o Governo PS esse teste?
A resposta não pode ser dada antecipadamente. O Governo sabe bem que não tem nenhum cheque em branco da parte do movimento popular. Mesmo que consiga um pacto social com os sindicatos, não conseguirá firmar um pacto com as massas trabalhadoras. Estas agirão em função das atitudes que o Governo venha a tomar.
Mas o povo trabalhador sabe que os grandes capitalistas são inimigos e vê com desconfiança que a organização deles, a CIP, tenha esperanças no Governo. É claro que se o Governo fizer o que a CIP mandar," em pouco tempo os governantes PS serão vistos como inimigos.
É essa a prova dos nove pela qual o Governo PS terá que passar. Mais uma, aliás. A juntar às que já deu enquanto fez parte dos Governos Provisórios.

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