sábado, 23 de julho de 2016

1976-07-23 - Revolução Nº 080 - PRP-BR

EDITORIAL

Enquanto a burguesia se prepara para ir remediando a situação, à espera de aparelhar um exército bom servidor os revolucionários encontram-se em situação de também medir forças, e de se organizarem para uma fase que mais tarde será de confronto.
Eanes investe Rocha Vieira como chefe do Estado-Maior do Exército, fazendo assim uma concessão aos moderados e pronuncia-se claramente sobre o que pensa da hierarquia e disciplina do exército, que, quanto a ele, ainda não estão restabelecidas.
Este restabelecer da hierarquia e da disciplina é efectivamente o grande quebra cabeças da burguesia, da direita e daqueles que necessitam dum suporte armado para defender um poder autoritário. E a sua confessada insuficiência neste aspecto, tem sido a nossa possibilidade de ter espaço de manobra e de ganhar tempo para nos organizarmos para o confronto com aqueles que quererão instalar um poder violento. O mesmo não sucedeu aos chilenos, cuja burguesia pôde fazer o golpe fascista num só tempo, uma vez que dispunha de um exército profissional intacto e de uma polícia intacta.
É neste compasso de espera que o PS vai reinar, num governo condenado a cair pela falência, não por fatalismos ou destino, não por ser PS, mas porque se vai enquadrar no Imperialismo, vai endividar à «Europa connosco», vai aprofundar as causas da nossa crise económica, que têm que se encontrar na nossa profunda dependência. Este é o governo de ligação a uma Europa que só estará connosco enquanto daí tirar dividendos, não já provisoriamente económicos, mas de dominação política.
Este é o governo que procurará formas mais ou menos subtis de exercer a repressão sobre os trabalhadores, necessária para aumentar a exploração.
Isto aqui não é a Holanda nem a Suécia, aqui as migalhas que sobram para o proletariado não dão para nada e um governo social-democrata não vai coincidir com os risonhos governos sociais-democratas dos Países Nórdicos.
Este é no entanto o governo dum compasso de espera, que existirá com o CDS dum lado, a dizer que dentro em breve será a força política mais importante em Portugal e com os revolucionários e os trabalhadores do outro a medirem as forças para o confronto.
Enquanto Mário Soares «perdoará» a Spínola e o vai instalar em Portugal a aconselhar e a organizar a direita, esta prepara-se para aquela situação de que fala a anedota: «ELP no poder, MDLP no Governo, CDS na oposição esquerda e PPD na clandestinidade»...
E perante isto os trabalhadores e os revolucionários com a responsabilidade nos braços de encontrar respostas orgânicas e tácticas para a situação.
A resposta orgânica tem de passar pela unidade revolucionária e foi encontrada no Movimento de Unidade que engloba os GDUPs, os partidos, os militares progressistas e as organizações populares de base que aderirem ao seu programa. Esta larga unidade tem de ser praticada sem sectarismos, permitindo a muitos militantes do PS e do PC (cujo voto exprimiu a sua discordância da direcção) a muita gente sem partido, que se enquadram numa organização simultaneamente de base e coordenada, simultaneamente com características de frente de massas, mas com programa. Em relação a este Movimento de Unidade, os partidos revolucionários têm de ser capazes de abdicar da sua autopropaganda como partidos, do seu sectarismo, do seu jogo de capelinhas, para assim concorrerem para a posterior criação dum grande partido revolucionário, que se forjará na luta, na unidade e na convergência de vários partidos. Mas nem tudo são rosas, porque alguns haverá que não pensam assim e mais uma vez procurarão tirar do Movimento dividendos para o seu partido, como o tentaram tantas vezes fazer com as Comissões de Moradores e de Trabalhadores, liquidando muitas vezes movimentações que de início se mostravam cheias de boas perspectivas. Em relação a isto há que manter um debate ideológico que permita salvaguardar o Movimento e separar o trigo do joio. Por outro lado há que encontrar tarefas para o Movimento que não sejam simples actividades de política abstracta, mas que se reportem a problemas concretos das massas. Porque é à volta dos problemas concretos que a organização cresce e se fortalece.
As eleições para as autarquias podem ser uma boa oportunidade para tratar exactamente desses problemas concretos.

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