sábado, 23 de julho de 2016

1976-07-23 - Luta Popular Nº 347 - MRPP

3º Anexo ao Relatório Preliminar do 25 de Novembro
DGMG: O PAIOL DO GOLPE SOCIAL-FASCISTA

No 3.° Anexo ao Relatório Preliminar do 25 de Novembro que hoje continuamos a analisar e onde se descreve o envolvimento de algumas unidades do exército no referido golpe, um dos quartéis que é mencionado é o Depósito Geral de Material de Guerra, mais conhecido por Beirolas.
Situado à entrada de Lisboa, mais precisamente em Moscavide, o DGMG é uma unidade pelo controlo da qual, desde o 25 de Abril, se disputaram acesamente todos os sectores da burguesia dentro das forças armadas com especial destaque para fascistas e social-fascistas. A razão desta disputa, que por vezes chegou a assumir aspectos violentos, está na grande importância militar que possui o referido Depósito. É aí, que o exército da burguesia armazena os «stocks» de toda a espécie de material de guerra que vai comprando, que os operários que vendem a sua força de trabalho nos estabelecimentos militares vão produzindo, bem como todas as «sobras» que vieram da guerra colonial depois de terem servido para reprimir a ferro e fogosas lutas de libertação dos povos irmãos das ex-colónias.
Milhares de armas ligeiras e pesadas, desde as pistolas às bazookas passando pelas G-3 e metralhadoras pesadas; carros de combate e todo o tipo de meios de transporte militar constituem o material de guerra ali armazenado em dezenas e dezenas de depósitos que se estendem por extensa área protegida por uma rede dupla de arame farpado, altos muros e numerosas torres de vigia. Por outro lado, do Depósito Geral de Material de Guerra dependem, e por ele são controlados, alguns dos maiores paióis que existem no nosso país como são os do Grafanil, da Amei­xoeira, de Sacavem, etc. Nesses imensos subterrâneos acumulam-se granadas de mão de todo o tipo, munições de lodo o calibre, quer para as armas de infantaria quer para as de cavalaria e de artilharia.
Como se vê, quem controlasse o DGMG teria possibilidade de armar e municiar um numeroso exército bem como poderia cortar o fornecimento de armas, munições, peças sobresselentes, etc., à força inimiga.
COM O 11 DE MARÇO OS SOCIAL-FASCISTAS PASSAM A CONTROLAR O DGMG
Com o contragolpe social-fascista das 11 horas da noite do dia 11 de Março de 1975, o sector das forças armadas lacaio e agente do social-imperialismo revisionista soviético apoderou-se completamente da cadeia de comandos do DGMG afastando dela todos os oficiais que até aí se tinham oposto à sua tentativa de tomarem em mãos o Depósito.
Para esta importante mudança de controlo sobre o DGMG muito contribuiu a acção do então capitão Dinis de Almeida que, na tarde do próprio dia 11 de Março, rompendo por entre a vedação do DGMG, dele levou todo o tipo de material de guerra. Desde 9 auto-obuses 8.8 montados em blindados com lagartas até dezenas de bazookas e metralhadoras G-3, tudo isso Dinis de Almeida de lá retirou para reforçar o poderio de intervenção militar do Ralis e assim poder dar cobertura ao contragolpe que nessa noite se viria a desencadear.
Para o afastamento dos oficiais que se opunham às intenções dos social-fascistas, estes, utilizaram o argumento de que eles teriam resistido a entregar o material exigido por Dinis de Almeida que, nessa altura, já tinha franqueado as portas do quartel para que elementos da LUA«R» e do P«RP» de lá retirassem centenas de espingardas-metralhadoras G-3, ba­zookas, granadas e metralhadoras. À frente dessa milícia social-fascista, que penetrou no Ralis, contra a vontade dos soldados, encontrava-se o alferes Salgueiro que ficou com a lista de nomes a quem eram entregues as armas.
A partir de então e de colaboração directa com o então Chefe de Estado-Maior do Exército, o general Fabião, foram colocados na unidade oficiais social-fascistas da total confiança do P«C»P e do seu lacaio Dinis de Almeida.
Os social-fascistas passaram então a controlar a DGMG e dedicaram-se a fortalecer as posições conquistadas. Contaram para tal com a colaboração dos oficiais social-fascistas do Ralis que sistematicamente se deslocavam ao DGMG policiando tudo o que por lá se passava. Tal acção é referida no 3.º Anexo quando acerca das «Causas Próximas» de carácter militar se diz no seu ponto 1 alínea a): «Influência do Ralis no DGMG, através de ligações entre militares». De que tipo de influência é que se tratava? Quais os oficiais que a exerciam? Nada se diz no Relatório.
Pretende-se assim escamotear as reuniões que se realizaram no Ralis com a participação dos oficiais do DGMG, onde de acordo com directivas vindas do P«C»P, trazidas quer pela mão de Varela Gomes quer pela mão de outros oficiais como Sobral da Costa (antigo chefe do gabinete governamental do «companheiro» Vasco), se estudava de uma forma exaustiva a distribuição de armas por quartéis da confiança dos social-fascistas e pelas milícias do P«C»P e seus cães de trela. Foram as conclusões destas reuniões em que participaram oficiais do COPCON (capitão Lourenço Marques, ex-capitão Fernandes, etc.) e outros oficiais social-fascistas já abundantemente citados noutros artigos (Tomé, Duran Clemente, Azevedo Borrega, etc.) que saiu a lista de quartéis que receberiam as espingardas metralhadoras G-3 do DGMG. Nada disto revela no entanto, o Relatório.
DEPOIS DA ASSEMBLEIA DE TANCOS OS SOCIAL-FASCISTAS «TRANCAM» AS PORTAS DO DGMG
A desactivação do aparelho militar social-fascista, iniciada pelas forças democráticas e patrióticas a partir da derrota que infligiram aos planos e intentos do P«C»P e dos seus lacaios e agentes nas F.As, na Assembleia do MFA realizada em Tancos, ameaçava seriamente as posições de controlo que os social-fascistas exerciam sobre o D.G.M.G.
Foi prevendo a sua tomada pelas forças que se lhe opunham, que os social-fascistas do P«C»P, encobrindo-se com o COPCON e com o incentivo dado às suas actividades por Saraiva de Carvalho, resolveram distribuir grande parte das espingarda G-3 ali armazenadas pelas unidades de sua confiança e de acordo com a lista elaborada no Ralis e levada à aprovação de Saraiva de Carvalho para que fosse o COPCON a ordenar tal operação.
Destinavam-se tais armas a serem distribuídas pelos oficiais social-fascistas aos militantes do P«C»P logo que o golpe fosse desencadeado.
No entanto, os oficiais do Ralis e do DGMG «opuseram-se» à adenda acrescentada pelos oficiais do COPCON que, depois de ter sido redigida a lista, resolveram contemplar algumas unidades que por eles não eram controladas com um pequeno número dessas armas de modo a com essa cortina de fumo esconder os reais objectivos de tal operação.
Tratava-se, como é evidente, de uma manobra. Pela frente diziam que forneciam as armas a essas unidades e por trás davam ordens a Dinis de Almeida para evitar que tal se concretizasse.
Diz o Relatório acerca deste assunto nos actos que considera preparatórios do golpe ponto 2, n.º 1 alínea a):
«Dificuldades oferecidas pela Unidade, em conjugação com a actuação do major Dinis de Almeida, do Ralis, ao fornecimento de armas a Unidades consideradas não afectas como foi o notório caso da distribuição, recusada, de 1000 G-3 ao CIAAC.»
De salientar, que esta manobra foi tão clara que o oficial encarregado de distribuir as armas, o major Vargas do COPCON, pediu o seu afastamento de tal cargo e das suas funções no Forte do Alto do Duque onde funcionava a nova-pide encabeçada por Saraiva de Carvalho.
Não se sentindo, no entanto, seguros nas posições que detinham e que lhes permitiam controlar o DGMG, os social-fascistas argumentando falta de segurança na unidade entram de prevenção rigorosa por iniciativa de uma auto-eleita Comissão de Luta à frente da qual se encontrava o capitão social-fascista Belo, educado no revisionismo pelo capitão Duran Clemente seu «companheiro de armas» na Guiné onde ambos participaram na guerra colonial contra a justa luta de libertação do povo guinense.
Esta manobra vem referida no Relatório nas causas por ele consideradas próximas no ponto 1, n° 1, alínea b):
«Existência de uma Comissão de Luta, que exorbitando nos seus propósitos veio a determinar o fecho temporário do DGMG e a entrada de Prevenção Rigorosa sem ordem do escalão superior.»
Por que é que isso se deu? Quem deu ordens para que tal medida fosse tomada? Nada disso diz o Relatório escamoteando as responsabilidades dos social-fascistas do P«C»P e dos próprios militares que executaram as operações inerentes ao golpe.
O Relatório não diz, mas nós sabemos. Sabemos não porque tenhamos mais informações do que os que redigiram o Relatório, mas porque o proletariado revolucionário não concilia com os social-fascistas nem com os seus golpes contra-revolucionários.
DA PORTA «FECHADA» AO ARMAMENTO DOS PÁRA-QUEDISTAS
A entrada de prevenção tinha um objectivo preciso: manter o quartel fechado e os soldados mobilizados para o defenderem para que assim, os social-fascistas não fossem surpreendidos por qualquer tentativa de assalto ao DGMG por forças que lhes eram adversas. É também durante este período que o Ralis destaca todas as noites patrulhas que rondam continuamente o perímetro exterior do DGMG para evitar «surpresas». A juntar a todo este aparato militar em defesa e protecção do paiol do golpe social-fascista, a segurança ao exterior era ainda montada por carros particulares de elementos das milícias do P«C»P de Moscavide e Sacavém que, com rádios fornecidos pela oficialagem social-fascista, se mantinham em contacto com o interior da unidade. Todas as forças eram então mobilizadas pelo P«C»P para defender essa peça importante e fundamental para o golpe de 25 de Novembro.
O facto por nós acima referido vem aflorado no Relatório escanteando como seria de esperar quem eram os responsáveis. Afirma o 3.° Anexo ao Relatório a dado passo:
«Era habitual sempre que havia condições de crise e de acordo com planos do conhecimento do cap. Belo a «vigilância popular» era também executada por meio de viaturas civis identificáveis que patrulhavam o exterior do perímetro do DGMG».
Sem dizer quem tinha feito os planos, quem executava tais acções o que o Relatório condena é a possibilidade do povo vir a ajudar os seus filhos na tropa a resistirem contra os ataques dos militaristas e das suas forças repressivas, numa altura em que os soldados e marinheiros se revoltem para apoiar a luta das massas contra a ditadura do capital e pela tomada do poder político.
Com todas as medidas que tomaram os social-fascistas do P«C»P conseguiram levar a cabo as missões de armamento das suas forças pelo DGMG.
Milhares de espingardas metralhadoras G-3 foram entregues nas unidades militares que controladas por aquele Partido, tinham missões cumprir no plano das acções militares do golpe de 25 de Novembro.
Foi o DGMG que armou e municiou os pára-que­distas com tudo o que foi necessário para eles tomarem de assalto as bases da Força Aérea e acerca dessa importante peça no desencadear das operações militares do golpe diz-nos o Relatório:
«Em 21 de Novembro de 75 é fornecido o material de guerra aos Páras. Este fornecimento faz-se com a requisição de 20 de Novembro de 75 do DFAD, com a indicação que o material se destinava ao COPCON».
No entanto 0 que o relatório não diz é que nessa altura o DGMG estava de prevenção rigorosa e não satisfazia quaisquer requisições de material por falta de condições de segurança. Porque satisfizeram então a dos Pára-quedistas? Muito simples, estavam a par do plano e sabiam que era para essa tarefa que vinham desenvolvendo todas as manobras atrás citadas. O que é facto é que o Relatório tudo isso escamoteia.
É evidente que acções desenvolvidas por uma unidade do tipo do DGMG, sem qualquer tipo de operacionalidade e com efectivos reduzidos, se caracterizaram por acções defensivas que vêm relatadas no Relatório: blindados na rua, reforço dos postos de guarda, patrulhas em redor do Depósito. No entanto uma coisa é certa: tais acções desencadearam-se não como atitude defensiva, como quer provar o contra-relatório social-fascista, mas como uma acção que, ao mesmo tempo que os pára-quedistas iniciam a tornada das bases da Força Aérea, visava impedir que o povo penetre no paiol do golpe social-fascista para se armar e contra ele lutar.
O RELATÓRIO ESCONDE E ENCOBRE OS SOCIAL-FASCISTAS
A quem é que atribui o Relatório as responsabilidades de todos estes acontecimentos? Ao P«C»P não é, porque não menciona a sigla de tal partido uma única vez nos dados que relata sobre o DGMG. A FU«R» é uma única vez citada lá para o fim da parte respeitante a esta unidade sem que seja sequer uma acção que tenha tido qualquer envergadura.
No fundo, o relatório atribui as culpas e as responsabilidades dos plenários que «proliferavam na unidade», à discussão política que lá se travava, aos contactos com as Comissões de Moradores e de Trabalhadores da zona.
Sem especificar quem fazia os contactos com esses órgãos, sem revelar quem os controlava e a natureza da política que prosseguia, sem denunciar com que fins esses contactos eram estabelecidos, o Relatório ataca abertamente a política que o proletariado aponta aos filhos do povo na tropa como sendo necessária para o avanço da Revolução. Ataca ainda as liberdades democráticas conquistadas e exigidas pelos soldados. O que o Relatório esconde é que os plenários que se realizavam no DGMG eram pelos oficiais social-fascistas demagogicamente conduzidos, ameaçando de prisão e de sanções todos os soldados que às suas manobras se opusessem.
O que o Relatório não revela é que os contactos do quartel com o exterior não eram feitos pelos soldados mas sim pelos oficiais social-fascistas do P«C»P que apenas contactavam os órgãos por eles controlados e da sua inteira confiança. Escamoteando tudo isto o Relatório acaba por conciliar e ilibar de todos os actos contra-revolucionários o P«C»P atacando desbragadamente o povo é os seus filhos na tropa. Esta posição é a que permite que os oficiais golpistas continuem em liberdade, sem julgamento e se dediquem de novo às suas actividades golpistas.

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