sexta-feira, 22 de julho de 2016

1976-07-22 - Bandeira Vermelha Nº 027 - PCP(R)

Editorial
A verdadeira maioria de esquerda

O resultado vitorioso da candidatura de Otelo, fez das forças populares que aderiram ao seu programa a verdadeira maioria de esquerda do nosso país. Apesar da candidatura divisionista de Pato obtivemos a maior vitória eleitoral das forças populares; não só porque os 16,5% obtidos são um valor que nunca tinha sido alcançado, como pelo facto de o agrupamento das forças antifascistas e revolucionárias ter sido conseguido numa altura em que se agrava a crise económica e política em Portugal.
O enorme sucesso da UDP nas eleições regionais na Madeira confirma, de forma ainda mais exuberante, o enorme salto que demos no sentido de juntar as diversas camadas do povo em volta de um programa revolucionário coerente e único. O aumento de 400% dos votos da UDP em relação às eleições legislativas, apenas dois meses antes, é um acontecimento sem precedentes na história do movimento revolucionário.
Que factores contribuíram para estes resultados?
Um deles é a forte disposição dos trabalhadores e do povo a não se deixarem enganar com promessas, de lutarem contra uma vida que ameaça tornar-se mais difícil com a subida dos preços, o desemprego, a falta de casas. Estes factores objectivos empurram o povo para a luta e, enquanto não desaparecerem, não poderá ser estancado o movimento popular de luta por uma vida melhor.
Mas o outro factor, o decisivo, foi o aparecimento de um programa político que responde àquelas necessidades sentidas pelos trabalhadores e pelo povo, e que aponta a saída revolucionária que as grandes massas anseiam. Foi o programa da candidatura do 25 de Abril do povo.
A vitória eleitoral não foi, portanto, um resultado casual. Não foi o efeito da simpatia pessoal de Otelo, como pretendem Soares, Carneiro ou Eanes, nem foi o fruto de um «engano» dos trabalhadores, como diz Cunhal. Foi o resultado da conjugação de um movimento popular vigoroso com uma acertada linha política, séria e revolucionária.
Hoje somos a mais poderosa força política de esquerda e a nossa linha táctica comprovou a sua justeza ao conseguirmos, duma assentada, lançar as bases da Frente Popular e iniciar a desagregação dos partidos burgueses. Tal êxito é, no fim de contas, o resultado prático da política de revolucionarização e proletarização das fileiras do nosso Partido, da renovação e reforço do Comité Central e da adopção de uma táctica adaptada aos objectivos revolucionários e à situação política que vivemos. Nada em política se obtém por acaso; e se quisermos descobrir as raízes do sucesso eleitoral recentemente obtido, teremos de ir descobri-las, precisamente, naquelas transformações decisivas sofridas pelo nosso Partido.
A vitória das forças populares teve outras duas consequências, que marcam a viragem de uma página decisiva na história do movimento revolucionário português e europeu: é a desagregação do partido revisionista como força hegemónica do movimento popular em Portugal e o consequente reencontro da vanguarda da classe operária portuguesa com o seu partido, o PCP(R). Iniciou-se, na verdade, o isolamento do pequeno grupo dirigente cunhalista que durante muitos anos conseguiu exercer considerável influência sobre o movimento revolucionário português.
As vitórias eleitorais retumbantes nas regiões onde se concentra a vanguarda proletária do nosso país, Lisboa, Setúbal, Beja e Évora, são muito mais significativas do que a média nacional de todos os distritos eleitorais. Aqueles resultados mostram que a política e o prestígio do grupo de Cunhal sofreu um golpe de morte, irreversível, que teremos de traduzir num reforço do nosso Partido e da Frente Popular.
Os que ainda duvidam do êxito efectivo que foi a campanha de Otelo, e da importância que tal facto tem para o futuro revolucionário de Portugal, da Península Ibérica e de toda a Europa, estarão incapacitados, se não corrigirem a sua visão deformada, de colher os frutos do trabalho feito e de fazer avançar o movimento revolucionário. Reconhecer os êxitos não é, em si mesmo, triunfalismo — sê-lo-á se nos ficarmos pelos elogios e pensarmos que daqui para diante não há mais para fazer.
As vitórias que alcançámos aumentaram enormemente as responsabilidades do Partido, pois as massas, quando confiam, exigem provas. Reconhecer a enorme vitória obtida, deverá ser o ponto de referência para o trabalho feito e o ponto de partida para o trabalho a fazer.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo