sábado, 23 de julho de 2016

1976-07-00 - Seara Nova Nº 1569

EDITORIAL

Escrevendo no momento em que se tornam conhecidos os resultados eleitorais para a Presidência da República, ressaltam alguns aspectos cujas repercussões na evolução da situação política portuguesa ainda não são claramente previsíveis.
Antes de mais, sobressai a votação obtida por Otelo Saraiva de Carvalho, que excede as previsões mais optimistas e, naturalmente, ultrapassa largamente o número de votos que os grupos políticos proponentes da sua candidatura tiveram nas eleições para a Assembleia da República. Com uma inteligente campanha centrada no mito do «herói do 25 de Abril», Otelo conseguiu algum apoio de homens sem partido, militantes do PS e de cerca de metade do eleitorado do PCP, se tivermos em conta os votos que este partido obtivera nas eleições de Abril de 1976.
As massa populares, sobretudo no Sul, isto é, os camponeses alentejanos e os operários da cintura industrial de Lisboa, foram sensíveis à imagem do estratega do 25 de Abril promovido sistematicamente como possível vencedor de umas eleições onde surgia um outro candidato — Ramalho Eanes — em torno do qual se formara uma inquietante coligação partidária capaz de lhe garantir uma vitória fácil e de poder ser interpretada como uma futura coligação governamental. Face a essa coligação, camponeses e operários sentiam ameaçadas as suas conquistas dificilmente alcançadas ao longo do processo político e procuraram, desesperadamente, eleger o major Otelo, num conceito imediatista de voto «útil» como tudo se ganhasse ou perdesse com o resultado destas eleições.
O equívoco da candidatura de Otelo — candidato contra os partidos, apoiado por pequenos partidos, à sombra do qual se pretende dar corpo a outro (GDUP) que procura dividir as bases de apoio do PC e PS, partidos cuja colaboração lhe era essencial se fosse eleito Presidente da República — encontrou terreno fértil na tensão emocional que decorria da ameaça duma coligação PS-PPD-CDS e tem outro factor decisivo no reviver — nas imagens, na música, na figura carismática de Otelo — toda uma ilusão «revolucionária» que nada tem a ver com a actual correlação de forças político-militares.
O Partido Comunista fez a sua campanha em torno de objectivos — nomeadamente o de um governo de esquerda — que, face aos resultados obtidos, podem estar prejudicados a curto prazo.
Mário Soares declarou na própria noite das eleições que a votação obtida pelo PC reflectia o repúdio das massas populares por essa estratégia que, em última análise, não é a que mais interessa neste momento aos responsáveis do PS, que foram aí colher argumentos para a sua intransigência conjuntural.
A candidatura de Octávio Pato consistiu num esforço pedagógico que visava inseri-la num projecto político a médio prazo, independente dos resultados desta eleição, «esquecendo» propositadamente os factores típicos que tornam possível uma votação expressiva — tirar partido da personalidade do candidato, criar um clima emocional ou populista em torno da candidatura, etc. — em benefício de uma clarificação de objectivos e da elevação da consciência política das massas atraídas por candidatos «supra-partidários» ou mesmo anti-partidários que procuravam, mais ou menos conscientemente, a dissolução das estruturas organizativas dos trabalhadores, nomeadamente a dos partidos que representam os seus interesses.
A fraca rentabilidade numérica da actuação do PC parece pôr em risco, para já, a viabilidade da estratégia que este partido continua a propor e que será realizável não tanto pela condescendência da direcção do PS mas pela possibilidade das massas populares organizadas lutarem pela sua concretização.
Nos votos obtidos por Ramalho Eanes, suficientes para a sua eleição na primeira volta, faltam, no entanto, cerca de um milhão de votos se os compararmos com a totalidade dos votos possíveis face aos obtidos nas eleições de 25 de Abril deste ano pelos partidos que declararam publicamente o seu apoio ao general.
Não será demasiado especulativo considerar que a direita, coesa em torno do candidato que fora constrangida a apoiar, não deverá ter desperdiçado os seus votos. Mas quantos votos do PS não se ficaram no aumento de abstenções, em Pinheiro de Azevedo ou em Otelo de Carvalho?
O Partido Socialista, reagindo com intransigência, contrastante com o auto-propagandeado direito de tendência, fez saber ao longo da campanha eleitoral que expulsaria do seu partido os militantes que apoiassem outra candidatura que não fosse a do general Eanes. A advertência rigorosa pode ter tido efeito na maior tendência para a abstenção, mas terá sido insuficiente para impedir uma dispersão de votos que uma análise minuciosa dos resultados eleitorais poderá testemunhar.
Reforça-se assim a necessidade que o PS tem em formar um governo só PS, agora também com o objectivo de ultrapassar a perturbação interna desse partido onde muitos militantes tiveram natural dificuldade em ver no general Eanes o homem de esquerda em torno do qual se poderia ter criado um consenso amplo da esquerda, conforme a correlação de forças do momento possibilitava.
Ramalho Eanes será, portanto, o novo Presidente da República. Deu-nos de si uma imagem demasiado contrastante, oscilando entre declarações de intenção de carácter progressista e o tom ameaçador ou mesmo descontrolado de outras intervenções (como na parte final da mesa-redonda dos candidatos na TV ou na forma como se dirigiu, durante a campanha eleitoral, aos trabalhadores e aos partidos que os representam). O seu conceito de pluripartidarismo reduz-se a considerar os partidos como emanações acidentais de um partido único, ideal, como se numa sociedade capitalista não houvesse lutas de classe e os partidos não representassem interesses antagónicos. São concepções pouco tranquilizantes para o futuro próximo de um processo político que se deseja a caminho do socialismo e caberá às massas trabalhadoras, pela sua unidade, coesão, organização, clara consciência dos seus interesses, impedir que o Governo PS e o general Eanes possam optar abertamente por uma prática de concessões à direita, tal como esta vem tentando impor de forma mais (PPD) ou menos (CDS) impaciente. Convirá no entanto não esquecer que as eleições, não sendo o fim de um processo, são uma fase importante de uma luta onde a classe operária, no seu conjunto, não sai vitoriosa.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Arquivo