domingo, 31 de julho de 2016

1971-07-31 - Semana Portuguesa Nº 13

EDITORIAL
UNIDADE

Já se consumiram rios de tinta e resmas de papel escrevendo sobre a unidade. Já se passaram horas e horas em intermináveis reuniões, despendendo energias preciosíssimas e até as partes já tiveram graves desentendimentos.
Tudo isto por quê? Porque cada pessoa, cada grupo, cada partido da oposição, se julga no direito de impor e ser aceita pelas outras pessoas, grupos ou partidos, a sua unidade.
Esta verdade tem sido disfarçada, tem sido camuflada, mas mesmo assim ela transparece e não deixa de ser clarís­sima, provando que a oposição portuguesa, apesar de tantos anos dos mais atrozes sofrimentos, dos reveses, da marginalização, mas também das muitas oportunidades, só não conseguiu derrubar o fascismo, porque ainda não se uniu.
O importante, o que é muito grave, é que ninguém pessoalmente, nenhum grupo ou partido mesmo coletivamen­te, teve ou tem condições de fazer a Revolução. Isto está realmente demonstrado nos vários insucessos e até no desastre irreparável do assassínio do General Delgado na marginalização do Capitão Galvão.
Depois de todas estas experiências, chega-se à conclusão de que todos que perderem tempo falando de unidades, pretendendo impor certo tipo de unidade, o fazem por falta de experiência ou por má-fé.
A unidade é fácil de ser atingida, desde que as partes em causa renunciem a seus interesses pessoais ou colectivos, para, unindo-se simplesmente, objectivando a mesma finalidade, derrubar a Ditadura imposta há 45 anos, que ao contrário do que muitos julgam, não é tanto vergonha dos ditadores, mas muito mais da oposição, porque a opinião pública pode afirmar que não merecemos conduzir Portugal, porque se temos na unidade a única arma para derrubar o fascismo, só o não fazemos porque muito antes de sermos vitoriosos, falando cada um em nome de Povo, já pretendemos impor esta ou aquela ideologia, esta ou aquela forma de governo.
Se quisermos vencer o fascismo português, só temos este caminho; unirmo-nos indiferentes aos interesses pessoais, de grupo ou de partido, e deixar que o Povo Português escolha livremente a forma de governo que for de seu agrado. Deixá-lo escolher e respeitar sua escolha.
Nada do que aqui foi dito é novo e o que mais aborrece é que todos estão cansados de o saber.

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