quinta-feira, 20 de agosto de 2015

1975-08-00 - CARTA DE OTELO A VASCO GONÇALVES

Para que os trabalhadores e o povo não esqueçam

CARTA DE OTELO A VASCO GONÇALVES (em Agosto de 1975)

Meu General
Recebi hoje cerca das 12 horas, um telegrama do Fabião informando-me que o Primeiro Ministro se deslocava amanhã em visita ao RIOQ e que, na 6ª feira, 22, assistia ao Juramento de Bandeira no RPM.
Nesta nota pessoal — utilizando o tal processo que nos propusemos de nos dizermos as coisas cara a cara — quero dizer-lhe que, na minha qualidade de Comandante Operacional do Continente e Governador Militar de Lisboa, funções de que pelo M.F.A. fui encarregado, e, mal ou bem, vou desempenhando, não autorizo as suas visitas a unidades militares sob a minha jurisdição. O teor do comunicado que no dia 16 leu perante a Nação e o discurso — triste discurso — que fez perante o «seu» público anteontem em Almada aliado à posição que perante si, frontalmente, tenho tomado, levam-me a esta atitude.
Sei que ficará chocado e adivinho como reagirá. Já o conheço o suficiente para o saber. E quero, antes que pense o contrário, afirmar-lhe que neste momento estou serenamente em casa, aguardando que minha mulher me chame para o almoço, totalmente livre de quaisquer «perniciosas» influências que sobre mim pudessem pesar.

É portanto uma atitude pessoal. Compreende-a decerto, em consequência do que lhe tenho afirmado em reuniões do Directório ou alargadas aos Chefes de Estado-Maior. Embora S. Ex. o Senhor Presidente da República não o faça, eu afirmo-lhe em nome do M.F.A. (julgo-me com o direito de em nome dele poder falar ou, pelo menos, em nome do Movimento que considero mais puro o que, regressando às origens apelidaria do Movimento 25 Abril) que o Companheiro Vasco tem de ser dispensado. Concordo consigo É o M.F.A. que tem que assumir as suas responsabilidades e demiti-lo. Eu anteontem disse-lhe que sim, que o demitia em nome do M.F.A.. No entanto, depois disso e querendo desesperadamente ganhar o tempo que a amizade, a indecisão, perante tão grave resolução do General Costa Gomes lhe concede, o Companheiro Vasco resolve começar a visitar unidade militares!
Lembrei-me de que, em curto espaço de tempo, o comparei já a Spínola e a Salazar, por motivos diferentes e opostos. E confirmo essa semelhança real, embora criada com antagonismos. O seu patético recurso de anteontem e esta súbita intempestiva necessidade de visitar Unidades Militares recordam-me dolorosamente os procedimentos suspeitos de António Spínola antes do 28 de Setembro.
As Unidades Militares não devem nem podem servir, sobretudo nesta grave crise, quando os homens do 25 de Abril, repensam a Revolução, de local propício à realização de comícios «tipo Almada». Tenha paciência, meu caro amigo, mas a minha recusa é total.
Percorremos juntos e com muita amizade um curto-longo caminho da nossa história. Agora Companheiro, separamo-nos Julga estar dentro da realidade correcta deste País ao assim proceder. Como dizia Mao — citando os clássicos — um revolucionário deve estar com as maiorias populares. Só com elas poderemos caminhar em frente na Revolução que é e se quer Nacional.
Não me faça sorrir com essa da aliança histórica da direita com a extrema-esquerda! Ainda um dia havemos de conversar sobre isso.
Cá continuarei em frente, pois, com o meu sentido intuitivo e não científico da Revolução, no que ela exige de sacrifício, de avanços e recuos, com a minha tão proclamada por si, «falta de visão política». Penso que a orientação que devemos dar à Revolução a pode encaminhar no melhor sentido, em benefício do Povo que é o nosso País real em que habitamos.
Peço-lhe que descanse, serene, medite e leia.
Bem necessita de um repouso muito prolongado e bem merecido pelo que esta maratona da Revolução de si exigiu até hoje. Pelo seu patriotismo, a sua abnegação, o seu espírito de sacrifício e de revolucionário
Com mágoa e com muita amizade, um abraço companheiro do

OTELO SARAIVA DE CARVALHO


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