quinta-feira, 1 de junho de 2017

1977-06-01 - O Proletário Vermelho Nº 82

Editorial
SOARES ALEGRE, MANUEL TRISTE OU A TRAGÉDIA DE SER PS

PRISIONEIROS DA SITUAÇÃO
Aquando das eleições para a Assembleia Legislativa, dita “da República”, o pré-governo PS fez, ao país, e antes de ser governo a promessa de governar sozinho. No momento esta era, na contabilidade eleitoral dos seus técnicos de propaganda a promessa mais válida para ganhar eleitores: Os PCs viam no governo PS a única possibilidade de recuperação dos efeitos da derrota do 25 de Novembro; os PSD e CDS viam igualmente no governo PS a possibilidade de recuperar rapidamente dos desaires sofridos pela propaganda “Povo-MFA” ao longo do gonçalvismo. Em resultado, e ainda que “mesmo à recta”, o governo PS foi PODER, ainda que poder minoritário.

Depois disso inabilmente desta vez - Soares reiterou excessivamente a promessa, petrificando assim uma situação que o faria ficar prisioneiro das suas próprias palavras. Em resultado, sucederam pelo menos duas coisas, ambas graves para o governo, e tanto mais, governo do post-fascismo e da post-descolonização:
- O PC recuperou rapidamente e com a ajuda do governo das sequelas do 25 de Novembro, brandindo o látego da sua “maioria de esquerda".
- O PSD e o CDS, recuperaram do traumatismo eleitoral gonçalvista, conquistando as suas actuais posições de partidos democráticos parlamentares e a respectiva força política de oposição que daí decorre.
Ambas as coisas não podiam deixar de significar para o PS, perda de espaço eleitoral e reforço do poder da sua própria oposição. Assim foi e assim está a ser.
Em resultado, o PS vê-se forçado a ter de disputar uma aposta que ninguém lhe aceitou mas que teima em “ganhar”: ser governo “sozinho e contra todos”. Daqui, outra coisa lhe não pode suceder senão o agravamento veloz da sua própria situação, a queda no desprestígio fácil e descontínuo, o “desgaste eleitoral” e, como consequência, a natural perda de confiança do seu precioso “auxílio externo”.
A Europa começa a perder fé no seu Homem. Os próximos e trágicos “chumbos” nos empréstimos externos, a verificarem-se, trarão na bagagem as flores e os veludos negros do enterro do governo. E do PS, pelo menos.

A TRAGÉDIA DE SER PÉÉSSE
Ser PS neste país e hoje obriga pois a tão perigosos malabarismos que é altamente improvável que as acrobacias não degenerem em tragédia:
1 - É preciso cumprir a todo o custo a promessa de governar sozinho, sob pena de não “salvar a honra da palavra”.
2 - Importa fazê-lo dividindo a oposição.
3 - Dividir a oposição significa ter de tirar forças ao PC e ao PSD, aguentando o CDS, ainda eleitoralmente pouco perigoso.
4 - Ambos - PC e PSD - apostam no poder sem contemplações, disputando Mário Soares para a “direita” ou para a “esquerda”, à vez e até ao mesmo tempo
5 - O aliado potencial de Soares - o CDS - ao optar pela aliança realista perante a teimosia suicida do governo em dialogar com os restantes partidos democráticos, deixou-lhe o futuro ainda mais cinzento.
6 - Por seu turno, o governo, incapaz de pôr de pé a sua própria central sindical - a “Carta Aberta” é o “Buraco do Século"! - tem de manter manietado Cunhal na ilusão (?) esperançosa da “maioria de esquerda” ( ou “constitucional”, como se diz mais recentemente).
7 - Governar este país com esta economia e nestas condições não pode deixar de ser, para tais teimosos, pelo menos, trágico.
O PS não pode, com efeito, aliar-se com Cunhal — ou perde o poder como não pode aliar-se com Carneiro - ou perde o Partido! Entre um e outro e para o governo a escolha é impossível. E assim lá vai queimando no altar da esperança os últimos círio do “socialismo em liberdade”. Teimosamente só.
A sua desdita vai mais longe ainda. Passa pela semelhança que ele próprio tem com cada um dos seus rivais, a qual o impede de se demarcar convenientemente de cada um deles. Se pela ala “esquerda” (?) o PS se assemelha ao MDP-CDE, pela ala “direita” (?), é igualzinho ao PSD! E o drama está pois em que, ser PS e ser Governo passa também por ser diferente de cada um daqueles. A tragédia assume aqui o seu ponto mais alto e mais dramático: voltam-se contra si as próprias condições que lhe permitiriam ser governo com 30 e poucos por cento de votos.

A ESTRATÉGIA DE MANUEL TRISTE NA LINHA DE UM SOARES ALEGRE
Manuel Alegre afirmaria recentemente que “não permitiria a marginalização do PC”. E com isto, reeditou tristemente a estratégia de Melo Antunes a seguir ao 25 de Novembro. Com os resultados que estão à vista.
Pode o sr. Alegre ter necessidade absoluta do PC para não ser “encostado à parede” e marcar as distâncias do PSD. Não pode todavia impor a um povo a presença do seu algoz. Pior ainda, impor-lhe o pagamento das “despesas partidárias” do seu algoz, como vai suceder com a subvenção dos Partidos. Se o povo deste país não quiser o senhor Cunhal, o senhor Manuel Alegre não tem portanto que se opor ou não opor mas que cumprir a vontade popular.
O senhor Manuel Alegre, no recente comício da Amadora — que, e não só por isso, teve muito de semelhante ao comício de Almada do já então mori­bundo governo Vasco Gonçalves — ou­tra coisa não teve para dizer do PSD que falar na altura e no nariz de Sá Carneiro! O que é grave. Especialmente para Mi­nistro de um Partido que governa um país por educar na política
Pois que se só o nariz e a altura do 1.° homem do PSD divide deste o PS, tudo vai bem; mas se o PS não consente a marginalização do PC... então tudo vai mal. E porque o senhor Alegre é governo e “os homens não se medem aos palmos”; porque nem pelo nariz Cirano de Bergerac era pior esgrimista; o senhor Alegre acaba a dizer-nos que prefere as cãs de Cunhal às medidas do nariz de Sá Carneiro e, com isto, ofende os direitos do seu povo. Mesmo que fosse maior a altura e mais perfeito o apêndice nasal de Sá Carneiro.
É mau - é muito mau — quando um governo social-democrata que constitui com outro partido (igualmente social-democrata) uma maioria — democrática, eleitoral, presidencial e constitucional! — não tem melhores argumentos do que “questões de narizes” para marcar daquele as suas distâncias, para demarcar as suas diferenças. Se Alegre se esqueceu, nós e outros lembramo-nos ainda de Dinis de Almeida quando falava das “nádegas potentes” do senhor Mário Soares!

A GRAVIDADE DO FUTURO
É claro e lógico que o objectivo de cada um dos partidos existentes é a tomada do poder para uma melhor aplicação do seu programa. É pois igualmente claro e lógico que cada um deles ponha nos ataques ao governo os seus esforços, nas críticas ao governo toda a sua capacidade, sem que possam, por tal facto, ser apodados de “anti-patriotas”. O governo PS não pode pretender forçar-nos a um certo tipo de neo-salazarismo ao querer governar sozinho e classificar de “subversivos” todos quantos lhe põem o poder em causa! A tentação é grande, tão grande quanto a negra ameaça que impende sobre um futuro que não é só do governo PS mas também, dramaticamente NOSSO. De todo o povo.
Pode ser ou não empolada uma questão de bandeiras numa ilha dos Açores como pode ser cumprida ou não a Lei da Reforma Agrária no Alentejo. O país é que não pode ser posto em questão pelas embirrações partidárias dos ministros do seu governo. E o Partido Socialista tem de ter disso a exacta responsabilização. Tem de deixar de exigir aos restantes partidos que olhem ao patriotismo quando se lhe opõem pois que deveria ser ele a dar o exemplo. E para isso tem de mostrar que é capaz de governar este país. Democraticamente.


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