sábado, 17 de junho de 2017

1977-06-00 - AFINAL QUEM SÃO OS CRIMINOSOS? - Anarquistas

AFINAL QUEM SÃO OS CRIMINOSOS?

Perante o aumento considerável da “criminalidade” e a proliferação das chamadas associações malfeitoras, largos sectores da população portuguesa, não só da classe dos proprietários, mas também da classe dos escravos assalariados, têm reagido duma maneira irracional, assumindo atitudes histéricas contra os fautores dos chamados delitos comuns. Com efeito, além dos privilegiados, muitos operários e outros trabalhadores, resignados com a sua condição de deserdados e de explorados pelo patronato e o Estado, chegando alguns deles, por influência da propaganda dos partidos de esquerda, ao ponto de se sentirem orgulhosos do seu papel de produtores da produção capitalista, e não compreendendo, ou não querendo ver, que a causa mais profunda da “criminalidade” é a mesma que determina a sua condição social, têm colaborado com a polícia nas perseguições de assaltantes a bancos, apoiaram os assassinatos de jovens “delinquentes” perpetrados pela polícia em Benfica e em S. Bento e mostram-se indiferentes perante o sofrimento atroz de milhares de presos, na sua grande maioria jovens das camadas sociais mais miseráveis, que enchem, hoje, as cadeias em Portugal. Este estado de espírito face à chamada delinquência leva largos sectores da população portuguesa a justificarem a existência da autoridade, a atribuírem a culpa do aumento da “criminalidade” às liberdades relativas que o povo português conquistou após o 25 de Abril e, por conseguinte, a apoiarem o aumento da repressão e o fortalecimento do aparelho policial, permitindo, assim, à polícia cometer actos criminosos do género do assassínio do advogado do sindicato da função pública, em Monsanto.

Nós, anarquistas, a quem não se pode aplicar a designação de presos políticos, pois lutamos pela destruição de todos os Estados, não podemos deixar de denunciar a origem social da “criminalidade”, de combater as hipócritas condenações morais dos “delitos comuns” e a repressão sobre os “delinquentes” feita pela actual sociedade, de combater a autoridade, a polícia, os tribunais e as prisões, criticando as teorias que afirmam ser impossível a vida social sem a existência destas instituições estatais, e de solidarizarmo-nos activamente com todos os presos comuns.
Em nossa opinião, a raiz da “criminalidade” não está na personalidade nem nas características biológicas dos chamados criminosos, mas, sim, na própria natureza opressiva da actual organização social. Numa sociedade de privilégios, numa sociedade dividida em governantes e governados, exploradores e explorados, proprietários e expropriados, numa sociedade geradora de situações de miséria extrema e numa sociedade em que o desenvolvimento económico vai destruindo todos os laços de solidariedade e de cooperação entre os homens, fazendo imperar nas relações sociais a lei da selva, a chamada criminalidade é inevitável e não pode deixar de alastrar. São as condições sociais em que vivem os indivíduos que fazem deles “criminosos”. É a sociedade no seu conjunto que é criminosa. Aliás, os actos que os códigos consideram crime não são nada comparados com o crime legalizado que a todo o momento se pratica na sociedade: o roubo do produto do trabalho dos proletários feito pelos capitalistas e pelo Estado, as guerras exterminadoras que os Estados levam a cabo, os impostos que os camponeses, operários e outros trabalhadores pagam para alimentar os parasitas que constituem a burocracia Estatal, as condições criminosas em que labutam os mineiros e outros trabalhadores, a acção destruidora da indústria moderna, a repressão que a hierarquia militar exerce nos quartéis sobre os soldados, etc. Também é importante frisar que os actos ilegais que são efectivamente puníveis representam uma ínfima parte dos actos ilegais que não são reprimíveis: as falcatruas feitas por pessoas cuja posição social as toma intocáveis e as acções ilegais em que a própria polícia, directa ou indirectamente, está envolvida. Referimo-nos, por exemplo, à fuga ilegal de capitais para o estrangeiro, incomparavelmente superior ao montante do dinheiro sacado aos bancos por assaltantes, aos negócios ligados com a prostituição e a droga e às actividades dos receptadores de objectos roubados que dividem o bolo com a polícia.
Para além da dificuldade crescente que a juventude tem de se adaptar a uma actividade “produtiva” cada vez mais alienante - fenómeno de todas as sociedades industrializadas no caso concreto de Portugal, há a salientar que uma das razões fundamentais do aumento considerável da “criminalidade”, verificado nos últimos tempos, reside num dos efeitos da grave crise económico-social que o país atravessa: o desemprego. Efectivamente, muitos jovens oriundos das camadas sociais mais pobres, das que vivem, por exemplo, nos bairros da lata, não encontrando emprego, são obrigados, para subsistirem, a praticar os tais “delitos comuns”.
Para nós, é uma atitude contra-revolucionária a dos trabalhadores portugueses que, dizendo que os jovens “delinquentes” não querem trabalhar, isto é, elogiando a escravidão do trabalho assalariado, defendendo a finalidade criminosa de grande parte das actividades ditas produtivas (por exemplo a produção de material de guerra) e esquecendo o problema do desemprego, se revoltam contra os fautores dos “delitos comuns”, em vez de se revoltarem contra a causa que gera todos os crimes: o sistema social na sua totalidade.
Contra todos aqueles que utilizam o facto da “criminalidade” como argumento justificativo da existência da polícia, dos tribunais, das prisões, em suma do Estado, e que pedem o reforço da autoridade e o aumento da repressão, temos a dizer o seguinte: seria espantoso que o Estado, o gerador e o defensor do privilégio social, portanto, a causa de todos os crimes, fosse, simultaneamente, o remédio para eles. Quanto a nós, os factos são elucidativos: a “criminalidade” cresce a par do aumento e do fortalecimento dos aparelhos repressivos. Nas grandes cidades, como Nova Iorque, onde existe um forte dispositivo policial, onde a polícia dispõe de grandes meios e de avultadas somas, a “criminalidade” atinge grandes proporções, não se podendo andar na rua, a qualquer hora, em vastas zonas. O crescimento e o fortalecimento do aparelho policial originaram um novo fenómeno: surgiram no “mundo do crime” as organizações poderosas, altamente centralizadas e controladas, ou pelo menos protegidas, pela polícia. Como não há deuses nem santos, os polícias, sendo homens como os outros e dispondo de poder, ainda são mais criminosos que os chamados criminosos.
Trabalhadores, explorados e oprimidos:
É uma hipocrisia condenar os presos de delito comum, pois eles são vítimas duma sociedade que é ela verdadeiramente criminosa. Verdadeiros criminosos, em primeiro lugar contra si próprios, são todos os resignados, todos aqueles que se submetem à “ordem” social vigente.
Só a destruição do Estado, só o estabelecimento de relações directas entre os indivíduos, poderá criar as condições para o desenvolvimento da sociabilidade que é natural nos homens e, por conseguinte, criar uma sociedade harmoniosa. É a autoridade que cria o privilégio social, destrói a sociabilidade inerente aos homens e gera a desordem geral a que assistimos.

SOLIDARIEDADE ACTIVA COM OS PRESOS COMUNS!
VIVA A REVOLUÇÃO SOCIAL!
VIVA A ANARQUIA - A EXPRESSÃO SUPREMA DA ORDEM!

Um grupo de ex-presos sociais, grupos anarquistas “os Solidários”,
“os Revoltados”, “Lanterna Negra” e Núcleo de Intervenção Anarquista.


Junho/77

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