terça-feira, 30 de maio de 2017

1977-05-30 - SINDICATO DOS TRABALHADORES DAS TELECOMUNICAÇÕES - Sindicatos

SINDICATO DOS TRABALHADORES DAS TELECOMUNICAÇÕES

POR UM SINDICATO NAS MÃOS DOS TRABALHADORES

LUTA UNIDADE VITÓRIA

programa
LISTA A

INTRODUÇÃO
Os trabalhadores do Sindicato das Telecomunicações vão ser chamados a escolher um programa e uma direcção para o seu sindicato.
Varias vezes e em várias circunstâncias e para diversos fins têm sido os trabalhadores chamados a votar, nestes três últimos anos.
Ser chamado a escolher, a dar a sua opinião, a impor a sua vontade, é uma coisa boa. Nem em caso algum devem os trabalhadores prescindir desse direito.
Mas a experiência destes 3 anos de votação também já devem ter-nos feito compreender que muitas vezes os trabalhadores votaram e se enganaram. Enganaram-se porque esse voto se traduziu no encerramento das empresas onde trabalhavam, em despedimentos, no aumento do custo de vida e no congelamento dos salários e de toda a contratação colectiva; porque esse voto, no caso do sindicato, significou a entrega deste nas mãos de indivíduos que, sendo no essencial a mesma direcção antes e depois do 25 de Abril, não podiam actuar de modo diferente do que tem actuado: fechando o sindicato aos trabalhadores, caluniando os sócios, denunciando aos patrões os que não os servem, atacando as lutas e traindo os contratos sem «passarem cartão» aos trabalhadores (veja-se a greve da Marconi em 1975); indivíduos que no seu relatório de 1976 sintetizam muito bem o balanço da sua actividade antes e depois do 25 de Abril: «A forma como o sindicato é respeitado a nível das administrações das empresas onde representamos trabalhadores, é a melhor prova desse trabalho».
Este bom entendimento — que não nos surpreende — deve ser ligado com este outro ponto do balanço do mesmo relatório: «Nem sempre somos bem compreendidos pelas pessoas directamente interessadas na obtenção, por parte dos serviços, de determinado trabalho».
É natural que uma direcção que não tem problemas com as administrações das empresas dos trabalhadores que deveria representar, os tenha com a «incompreensão» desses trabalhadores.
Mas é evidente que toda a experiência deve servir nos para tirar as lições de como andar para diante e não andarmos para trás.
Não foi votar que foi mal. O que foi mal foi votar ou em quem não prometia nada, ou prometia aquilo por que não fazia a menor intenção de lutar. E estes nem sempre é fácil descobri-los à primeira vez. Por isso é que temos de olhar a experiência, tirar as lições e proceder de acordo com o que aprendemos.
Os trabalhadores têm um programa. É o programa da resolução dos seus problemas. Se alguém no-los promete resolver e só no-los agrava, isso quer dizer que nos enganou. Mas também deve querer dizer que, pelo menos esses, não nos devem voltar a enganar. Mas nós teremos de continuar a lutar por esse programa. E não podemos fazê-lo de forma isolada.
Todos os partidos que se desacreditaram com tudo o que não prometeram e fizeram e prometeram e não cumpriram, durante estes 3 anos, nos aparecem agora a pregar o apartidarismo, isto é, a desorganização. Eles organizam-se e dizem aos trabalhadores que não sabem nisso. Eles defendem os seus partidos — as suas formas de organização — com unhas e dentes e todos procuram arrastar-nos, à custa de falsas promessas, para apoiar e engrossar os seus partidos; mas na sua fraca imaginação, ou desorientação, não conseguem encontrar nenhuma forma de nos tentarem impedir de pensar pela própria cabeça, se não dizerem-nos que devemos pôr os partidos de parte, porque isso nos divide! Na medida em que esse é o juízo que fazem de si próprios e das suas promessas para não cumprir, estamos de acordo. E também é verdade que eles não apenas querem impedir os trabalhadores de ter outro partido que não seja o deles, de falar doutros partidos que não sejam o deles, como querem impedir que os trabalhadores tenham outros sindicatos que não sejam os sindicatos que eles nos querem impor para aplicar a política do «trabalhar mais, ganhar menos e sorrir mais».
Os trabalhadores do Sindicato dos Telecomunicações têm interesses comuns a todos os outros trabalhadores e têm interesses próprios.
Uns e outros devem ser tidos em conta pela direcção dó Sindicato, Os primeiras — os interesses comuns — devem ser o elo de ligação a todos os trabalhadores que, em diversas circunstâncias é sobretudo nas questões essenciais, se encontram empenhados na mesma luta contra os mesmos inimigos. Quando uma empresa fecha, não há dificuldade em compreender que fechou para todos e que, portanto, não há razão nenhuma para não lutar todos de uma só vez. Mas é necessário compreender que, quando uma empresa fecha para alguns, só há uma hipótese de não vir a fechar para os restantes: é não fechar para ninguém.
A solidariedade de classes é uma virtude que os patrões cultivam entre si contra os trabalhadores.
A solidariedade de classe e a firmeza na luta em torno dos seus interesses de classe próprios, é o único caminho que os trabalhadores têm para defenderem o que já conquistaram e conquistarem aquilo que lhes pertence.
Mas os trabalhadores deste sindicato também têm interessas próprios, como os dos outros sindicatos. Também a esses a direcção deve lutar por satisfazer. E não é isso que nos dividirá dos restantes trabalhadores.
O que divide os trabalhadores é o facto de os patrões e os agentes dos patrões tentarem fazer corresponder essas diferenças a uma estrutura de policiamento mútuo. Os trabalhadores não são capatazes uns dos outros. E os que o querem ser terão de se colocar claramente do outro lado.
É neste sentido que o sindicato deve trabalhar. Esse é o caminho do programa que apresentamos aos trabalhadores das telecomunicações: o programa da LUTA contra o que nos divide da UNIDADE com base era princípios justos e da VITÓRIA dos nossos interesses de classe próprios aliados aos restantes trabalhadores.

PROGRAMA DE LUTA
1 - A BATALHA DA SINDICALIZAÇÃO
Dois homens (ou mulheres) juntos têm mais força do que um homem só. Uma força organizada é uma força maior do que muitas forças dispersas.
Todos aqueles que temem ver os trabalhadores organizados tentam impedir-nos de juntar as nossas forças de trabalhadores, isto é, de nos organizarmos; ou pretendera fazer-nos ver que todas as forças servem para juntarmos às nossas.
Devemos rejeitar qualquer destas soluções. Os sindicatos são órgãos de organização de uma classe contra outra classe. E, neste sentido, eles devem ser órgãos fortes. Essa fortaleza só pode existir se soubermos porque devemos lutar a cada momento.
É por isso que a vida sindical é uma necessidade e um dever de todos os trabalhadores. Sem força, não poderemos obter vitórias.
É por isso que se formos eleitos, nos empenharemos seriamente numa grande campanha, de sindicalização da todos os trabalhadores das telecomunicações que devem estar neste sindicato, de forma a levantarmos um sindicato para a unidade entre os trabalhadores para a defesa dos nossos direitos e não para as fraternas relações com os patrões.
 
2 - LUTAR PELA CONTRATAÇÃO COLECTIVA
Onde nós queremos e defendemos os contratos, querem os patrões e governo — em sua companheira de pactos, a Intersindical — portarias.
Quando nós defendemos a fixação doa preços e a melhoria dos salários, defendem os patrões e o governo a subida dos preços e afixarão dos salários.
Se nós lutamos pela redução de horário ou pela defesa dos existentes, os patrões e o governo estão já a elaborar o seu plano pelo aumento dos horários.
Se nós fazemos um contrato para ser negociado rapidamente, os patrões e o governo ajudados por aqueles que querem ir para o sindicato para defender o mesmo que o governo — inventam mil processos para tentarem demorar meses e anos a dar o golpe de misericórdia no contrato que tudo fizeram para impedir (o ACT da Marconí já anda às voltas há 11 meses!). Quer dizer andamos sempre ao contrário.
No entanto, está ao alcance dos trabalhadores imporem aquilo por que lutam. Está ao seu alcance, porque é junto.
Estamos convencidos que os piores obstáculos têm vindo de dentro, já que os de fora — os patrões — aqueles que querem e quererão sempre o contrário do que nos serve a nós, não nos surpreendem e por isso é mais difícil criarem-nos ilusões.
Lutaremos pela imediata e rápida revisão dos acordos e contratos colectivos que se encontram paralisados (Marconi) ou em fase de revisão.
Reveremos todos os contratos que tenham sido assinados sem o acordo dos trabalhadores (CCT do material eléctrico) ou não sirvam os trabalhadores (ACT da RTP).

  3  - MELHORIA DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO
Uma grande parte dos trabalhadores associados deste sindicato trabalham sob condições que exigem cuidados especiais.
Mas é evidente que para os patrões, administradores e directores trata-se é de cuidar especialmente do aumento da produtividade.
Por isso renovam e ensaiam todos os sistemas, máquinas, métodos de trabalho, etc., que lhes dêem essa garantia. E em nada os preocupa que numa sala, trabalhem amontoadas e ao meio de ruídos enlouquecedores dos circuitos (ainda por cima em péssimo estado) uma série de operadoras.
Em nada os preocupa que o ar condicionado — que eles adquiriram por necessidade de protecção do equipamento e não para criar melhores condições para os trabalhadores — este é de tal maneira que só provoca pneumonias, desmaios e outras perturbações aos trabalhadores. Desde que os equipamentos se não constipem, trabalhadores há muitos — é assim que pensa um patrão. E estes são só alguns exemplos.
É contra isto que o sindicato deve lutar e só lutará se tiver à sua frente uma direcção que não esteja amarrada ao programa do governo nem a pactos com o governo. Esse programa é só o programa de LUTA, UNIDADE e VITÓRIA. Não passaria pela cabeça de nenhum trabalhador dizer que a manutenção de tais condições de trabalho são necessárias e para bem dos trabalhadores!

  4  - DIREITOS DA MULHER TRABALHADORA
Constituindo a mulher trabalhadora uma força decisiva nos sectores e empresas abrangidas por este sindicato, o sindicato não poderá ignorar ou adiar a resolução dos graves problemas com que ela se defronta.
A criação de creches é uma necessidade fundamental. Se formos eleitos, esse seria um dos objectivos imediatos por que chamaremos as mulheres trabalhadoras deste sindicato a Lutar.
É necessário que a força da mulher seja libertada para outras tarefas, que seja estimulada a sua participação activa em toda a vida social. E isso não se fará se se der cobertura às concepções erradas de que, fora da família ou do local de trabalho, o lugar da mulher é em casa. Nas situações mais difíceis, a mulher trabalhadora provou já que se coloca à frente da luta, puxa a luta para diante e vai até ao fim.

5 - HORÁRIO DE TRABALHO
Combateremos qualquer medida que vise aumentar o horário de trabalho actualmente inferiores a 40 horas e quanto aos horários superiores a 40 horas, lutaremos pela imposição da semana das 40 horas.

6 - A LUTA CONTRA O BREGIME DE TRABALHO EVENTUAL
Em algumas empresas, como na RTP, o recurso ao trabalho eventual tornou-se um processo habitual.
Muitas dezenas de trabalhadores, contratados através de empresas do género da «Man Power» (verdadeiros centros de escravatura legalizada, tanto mais que é o próprio governo que a ela recorre), prestam serviço nalgumas empresas abrangidas por este sindicato.
Combateremos firmemente esse sistema indirecto e lucrativo de sub-aluguer de mão-de-obra.
Defenderemos a criarão de quadros fixos nessas empresas, incluindo os trabalhadores que trabalham em regime eventual.

  7  - A PROTECÇÃO À TERCEIRA IDADE
Lutaremos pela atribuição de uma reforma a 100% e aos 55 anos de idade para os que trabalham por turnos.
Promoveremos a organização, dentro do sindicato, dos trabalhadores reformados como primeiro passo para a resolução dos seus problemas.

  8  - CARTEIRA PROFISSIONAL
Acelerar o processo de regulamento da carteira profissional para a Radiodifusão e restantes actividades profissionais.

  9  - A QUESTÃO DAS RECLASSIFICAÇÕES
A correcta resolução deste problema, que nalgumas empresas como a ITT/Standard e a RTP se tem colocado com certa insistência e urgência, de formas diferentes, só poderá ser conseguida com uma direcção disposta a assumir uma atitude firme, ao lado das posições defendidas pelos trabalhadores em cada caso.
Se os patrões lutam pelas reclassificações que lhes convém — que são aquelas que visam mudar os trabalhadores de categoria, baixar os ordenados, fechar-lhes uma carreira de promoção ou despedi-los (e a essas nos operemos porque não interessam aos trabalhadores); por outro lado os trabalhadores devem impor, de acordo com princípios justos, as reclassificações que consideram vantajosas e correctas, com vista a garantir a sua valorização profissional e estabilidade do emprego.

10 - AUTONOMIA TÉCNICA
Propomo-nos levar por diante um amplo movimento no sentido de lutar para que aos nossos técnicos sejam abertos conhecimentos que até agora lhes têm sido vedados. Os cursos de reciclagem, sem critérios selectivos, devem servir para dar a todos os trabalhadores os conhecimentos necessários.
Cremos que a autonomia de quadros técnicos é um importante passo; e, por seu lado, a dependência em relação à mão mão-de-obra especializada estrangeira constitui uma ameaça constante à segurança no emprego, ao desenvolvimento do país e à Independência Nacional.

  11 — CONGRESSO DAS TELECOMUNICAÇÕES
Considerando a importância de que se reveste, apoiaremos todas as iniciativas visando a realizarão de um Congresso dos trabalhadores das Telecomunicações.

ORGANIZAÇÃO INTERNA DO SINDICATO
1 - PRESTAR CONTAS AOS TRABALHADORES
O sindicato é um órgão de luta e defesa dos trabalhadores. A burocracia deve estar ao serviço dessa Função fundamental e não deve servir para a impedir ou dificultar.
Hoje, tudo no sindicato está preparado para afastar os trabalhadores da vida sindical, para criar obstáculos, dificuldades e argumentos contra a participação dos trabalhadores na vida sindical.
O sindicato recebe regularmente as quotas. Mas os actuais «patrões» do sindicato recusam os direitos de sócios a uma grande parte dos trabalhadores que para lá descontam, só porque os trabalhadores não estão para lhes fazer um requerimento a pedir cartão! Aquilo que parece uma questão burocrática e poderia ser facilmente resolvido pela direcção — e nós comprometemo-nos a resolvê-la — a direcção fez disso uma forma de criar divisões entre os sócios: os que pagam e lhes pedem um cartão; aqueles a quem ela reconhece todos os direitos e aqueles a quem ela só reconhece alguns e os que lhe apetece.
Os «Relatórios e Contas» em nada se distinguem dos «Relatórios e Contas» de qualquer empresa capitalista; isto é, são feitos para não serem compreendidos; são feitos para esconder em muito palavreado inútil e balofo aquilo que deveria ser claramente mostrado aos sócios de forma simples e directa; são relatórios de auto-promoção e auto-elogio da direcção, servindo-lhes para se queixarem de «não ser bem compreendidos» pelos sócios — o que constitui uma descarada provocação e insulto aos trabalhadores e uma atitude de perfeitos patrões; dizem-nos que fizeram milhares de ofícios — como se isso dissesse alguma coisa — mas não dizem em que é que esses ofícios serviram os trabalhadores, de que é que eles tratavam, em que é que resultaram; dizem que renovaram as fichas e os cartões (isto é, trocaram uns papéis por outros papéis) e que gastaram muito dinheiro nisso, mas não explicaram porque é que não se preocuparam antes em sindicalizar todos os trabalhadores ou em resolver os muitos casos de trabalhadores eventuais e outros a que nem eles nem os patrões reconhecem qualquer direito; enviam 118.328$80 para a Intersindical a não são capazes de nos explicar o que beneficiámos com isso; representem em despesas «diversas» (isto é, coisas que não convém dizer) uma das maiores rubricas: 131.782$00, etc., etc.
Nesses relatórios falam deles, falam dos amigos deles, louvam-se a eles, aos amigos deles, mas acerca das lutas e das vitórias ou derrotas dos trabalhadores nada têm a contar. Os trabalhadores são para eles uma fonte de receita e um empecilho que os incomodam e nada mais.
Isto não é prestar contas. É próprio de quem os trabalhadores não acreditam neles e no que eles dizem. É por isso eles se louvam e atacam os trabalhadores, pensando iludir-nos e iludir-se.
Se formos eleitos, não só procuraremos que os nossos relatórios sejam um balanço sério e claro que reflicta as lutas, as vitórias e as derrotas dos trabalhadores e as suas causas, mas em que é que o sindicato e a administração dos bens do sindicato serviu essas lutas; como faremos o verdadeiro relatório daquilo que esta direcção tem feito e tem procurado escondei.

2 - OS DELEGADO SINDICAIS
Os delegados sindicais são sempre um factor decisivo na mobilizarão dos trabalhadores em torno do seu sindicato, na aplicação ou no boicote das decisões tomadas.
Consideramos que a primeira medida que deve ser adoptada é garantir a eleição democrática dos delegados sindicais pelos trabalhadores que elevem representar.
A segunda medida, passa pela intransigente defesa da democracia, sindical. Pelo combate ao golpismos ao oportunismo a firma defesa do presente programa.
Os delegados sindicais devem ser ouvidos sobre todos os problemas importantes e deve ser-lhes exigido que procedam à discussão, consulta regular e democrática dos trabalhadores que representam acerca de todas as questões. É assim que procederemos. No entanto, a responsabilidade da direcção do sindicato cabe à direcção e, em último caso, só aos sócios, em Assembleia Geral, com condições de democracia, caberá julgar se a política traçada está ou não a ser respeitada.
As Assembleias Gerais têm de ser defendidas como o órgão máximo da decisão dos trabalhadores; têm de constituir o centro de atenção doa trabalhadores; e nelas tem de ser assegurada a democracia que permita a discussão correcta de todos os pontos de vista e respectivas razões.

3 - OS ESTATUTOS
Os Estatutos actuais não servem, em muitas das suas disposições, os trabalhadores. É fácil de compreender que o que servia para oprimir os trabalhadores e instaurar o reino da arbitrariedade, do golpismo e do oportunismo, da fuga ao controle dos trabalhadores, não poderá servir igualmente para defender a democracia sindical e transformar o sindicato num órgão de massas, reconhecido e defendido pelos trabalhadores.
Apenas 3 exemplos: permitem que a direcção nomeie e destitua os delegados sindicais como e quando entenda; admitem que um sócio de 18 anos serve para descontar mas só lhes reconhecem todos os direitos aos 21 anos; definem que o sindicato é «independente» mas não dizem de quê nem de quem. E a, experiência que os trabalhadores têm tido é de que ele apenas tem sido independente dos trabalhadores.
Se formos eleitos promoveremos de imediato uma ampla campanha junto dos sócios em torno dos Estatutos, afim de dotar o nosso sindicato duns Estatutos democrático, e que definam claramente o que deve ser o sindicato, para que ele seja um órgão de mobilização, de lutas de defesa dos trabalhadores e não uma estrutura burocrática onde os problemas dos trabalhadores são enterrados, esquecidos e atraiçoados.

A QUESTÃO DO MOVIMENTO SINDICAL E DA CENTRAL SINDICAL
A linha sindical LUTA! UNIDADE! VITÓRIA! participou no recente congresso da Intersindical com a consciência plena de que esse não seria nem um congresso democrático, nem um congresso de todos os sindicatos e muito menos o congresso de todos os trabalhadores portugueses. Desse congresso não poderia sair o programa de que o movimento sindicai necessita para vencer a situação para que os oportunistas e conciliadores e conduziram, ao longo destes 3 anos de luta.
No entanto, a luta que travamos pela unidade no Movimento Sindical exigia que nesse congresso, para onde foram arrastadas um grande número de direcções sindicais, fosse apresentado, de uma forma clara e firma, o único programa que constitui a alternativa capaz de conduzir os trabalhadores à unidade e à vitória contra a sociedade de exploração.
Somos contra a Intersindical porque a sua política é contrária aos interesses dos trabalhadores, é contrária á democracia no seio dos trabalhadores; é a política que presidiu a realização de dois congressos: um em 1975, sob a protecção do governo de então e dos oficiais da MFA e escondido dos trabalhadores; e outro em Janeiro último e que aprovou o programa de apoio a todas as medidas e leis do governo que têm vindo a sair contra os trabalhadores, o que consolidou a cisão no movimento sindical. Não podíamos defender nem apoiar uma organização que não resiste à prática da democracia entre os trabalhadores; um organização que fez, aprovou, apoiou e apoia as piores leis que têm sido feitas contra os trabalhadores.
Somos contra a «Carta Aberta», ou qualquer outro movimento do género e com a mesma política desta, na medida em que os seus objectivos — agora claramente expressos — não são de trabalhar para a unidade contra a política da Intersindical, mas sim aproveitar-se da cisão existente para aprofundar a cisão através da criação de uma estrutura sindical tão má como a que e ris te, para servir de apoio às medidas governamentais e ao outro sector do grande capital. Qualquer deles é um ataque à autonomia do Movimento Sindical face ao governo e ao patronato.
Defendemos a necessidade de reestruturação do movimento sindical de forma a unir os trabalhadores em fortes sindicatos de classe por ramo de actividade.
Defenderemos a constituição de uma CENTRAL SINDICAL ÚNICA — a Central Sindical dos Trabalhadores Portugueses (CSTP) — Central que, a nosso ver, só se constituirá e só se edificará se e quando os trabalhadores portugueses, tomando o seu destino nas suas próprias mãos, desmascararem o oportunismo dos agentes do capital infiltrado no movimento sindical e fixarem por objectivo final da luta sindical a abolirão do regime de explorarão do homem pelo homem.

A NOSSA POSIÇÃO FACE AO GOVERNO
Os trabalhadores conhecem já a política de vários governos: uns que se dizem provisórios e outros que não se dizendo, são-no tanto como os primeiros.
Mas aquilo que nenhum trabalhador pode deixar dever é que nenhum desses governos foi capaz de tomar uma só medida que servisse à maioria, dos trabalhadores e ao povo.
Os trabalhadores precisam de ter e querem ter, a cada momento, um a ideia clara e uma atitude clara em relação ao governo que os governa ou desgoverna.
Mas é significativo que o programa e o caderno reivindicativo aprovado no II congresso da Intersindical em Janeiro passado, e que agora está a servir para negociar todas as traições aos trabalhadores, não toquem no problema da atitude dos trabalhadores fase ao governo. E quando falam dele, é apenas para lamentarem de que o governo faça leis anti-operárias e anti-populares, sem consultar as estruturas representativas dos trabalhadores. Quer dizer essas medidas só são más porque não são eles — a Intersindical — a faze-las.
E claro que, quando eles fingem atacar essas medidas é ainda para tentarem esconder e fazer esquecer que leis e medidas como essas e piores já eles fizeram, e voltarão a fazer — e oferecem-se descaradamente para isso — se lhes derem oportunidade.
Quanto àqueles que nos vêm dizer que seria bom fazermos uma lista única com eles, mas que não aceitam discutir o programa que essa lista se deve comprometer a defender, porque dizem ter de estar de acordo com o programa e as leis do governo porque é o governo do seu partido, a esses respondemos: Quem tem medo de que um programa feito a partir das necessidades e dos interesses dos trabalhadores vá entrar em choque com o programa do governo e por isso dizem claramente que se forem para o sindicato irão defender o programa desse governo, é evidente que esses senhores podem ser bons e zelosos funcionários do governo (as Comissões Administrativas também o eram dos Silvas Pintos e a Intersindical também o foi de Vasco Gonçalves); mas não têm nada a ver com os trabalhadores, com a defesa dos trabalhadores, e o seu lugar pode ser como técnicos ou polícias ao serviço de qualquer ministro, mas nunca poderá ser à frente dum sindicato.
Um governo do povo faz leis para o povo, leis que aumentam o bem estar, a segurança e a liberdade do povo, e nunca precisa de fazer leis para agravar a vida do povo e para o reprimir.
Por isso não teremos dúvidas de chamar os trabalhadores a lutar contra todas as leis e todas as medidas que atacam os direitos de quem trabalha. Ninguém nos conseguirá meter na cabeça que o caminho do socialismo é o caminho da miséria para quem já é pobre; o caminho do empobrecimento para quem ia vivendo; e o caminho do enriquecimento cada vez maior de um número cada vez menor. Ninguém nos conseguirá convencer de que as «reestruturações» e «reclassificações» que têm como objectivo dispor das pessoas como os patrões entenderem, que isso tem alguma coisa a ver com os interesses dos trabalhadores.
O nosso programa consistirá em provar que é possível encontrar uma lei popular para todas as situações; e que só toma medidas e recorre a leis contra o povo e contra os trabalhadores quem está contra o povo e contra os trabalhadores.

A NOSSA POSIÇÃO FACE AOS PARTIDOS POLÍTICOS
Os trabalhadores estão fartos de meias palavras e de ser iludidos com uma linguagem de rodeios. Qualquer trabalhador faz esta pergunta: - Que partido político está por detrás dessa lista?». Isto prova que os trabalhadores, se têm medo de alguém, é dos «apartidários» encapotados e não se iludem facilmente com esse palavreado «unitário» dos que temem apresentar-se claramente aos trabalhadores.
Os sindicatos não são nem podem ser contra os partidos políticos. Os trabalhadores sabem que os partidos existem e é necessário que existam.
Mas o sindicato não pode ser propriedade de um qualquer partido porque é uma associação de massas aberta a todos os trabalhadores, independentemente do seu partido. E sabemos que os trabalhadores tem, não um, mas diversos partidos — problema que os sindicatos devem saber tratar e resolver correctamente, promovendo a discussão aberta e leal de todos os pontos de vista existentes entre os trabalhadores, sem ser necessário esconder se esses pontos de vista são defendidos por este ou aquele partido.
Aos trabalhadores não assusta saber que alguém defende as posições e opiniões de um qualquer partido, conquanto que não no-las queiram impingir com gritaria ou à força, mas aceita discuti-las honesta, aberta e democraticamente com todos os trabalhadores.
Consideramos, isso sim, contra a defesa dos trabalhadores, que alguém pretenda esconder-se e fazer passar gato por lebre, seja sob a capa da «democracia», recorrendo à mais feroz ditadura sobre os trabalhadores; seja sob a capa do «apartidarismo», para fazer passar o mais cego servilismo e sectarismo em relação às posições de um qualquer partido; seja sob a capa de um falso socialismo que os velhos e os novos capitalistas, todos inimigos dos trabalhadores, apoiam e também dizem defender.
O que divide os trabalhadores não são os partidos, mas as ideias erradas e a falta de as exprimir e discutir democraticamente. O que os divide é a existência de classes, cuja organização em partidos, enquanto elas existirem, é inevitável.
Consideramos necessária e por isso a apoiaremos e promoveremos, a mais ampla discussão de todos os pontos de vista que existam entre os trabalhadores. É este, na nossa maneira de ver, o único caminho da unidade de que os trabalhadores precisam para superar as suas divergências e vencer as lutas que são obrigados a travar contra os seus inimigos de classe.
A constituição desta lista é, nesta matéria, um exemplo claro de unidade das forças democráticas que nenhuma outra lista conseguirá negar nem conseguirá, honestamente, reivindicar.

CONCLUSÃO
Este é o programa que os trabalhadores das telecomunicações terão oportunidade de apreciar e escolher, juntamente com outros programas que por certo lhes irão ser propostos.
Os trabalhadores portugueses, entre os quais também os trabalhadores das telecomunicações, têm uma rica experiência e uma grande tradição de luta adquirida em dezenas de anos de combates, uma rica experiência das coisas boas que fizeram, das vitórias que obtiveram, mas também uma rica experiência das coisas más em que os oportunistas os fizeram embarcar e das traições que sofreram. O alheamento em que os trabalhadores das telecomunicações se encontram em relação ao seu sindicato é, na nossa opinião, a consequência dessas desilusões, desentendimentos e traições. Teremos que lutar para vencer este estado de coisas.
É com a confiança de que este programa, sendo em tudo distinto dos restantes, represente o caminho justo em defesa dos interesses dos trabalhadores das telecomunicações e da unidade do movimento sindical, que o apresentamos à discussão e votação de todos os trabalhadores.

POR UM SINDICATO NAS MÃOS DOS TRABALHADORES!
CONTRA O GOLPISMO E O OPORTUNISMO!
PELA UNIDADE DOS TRABALHADORES!
LUTA! UNIDADE! VITÓRIA!

Lisboa, 30 de Maio de 1977
LISTA A

COMPOSIÇÃO DA LISTA
Direcção
MARIA UMBELINA MIRANDA DAS NEVES MARCELINO ALVES DE SOUSA - Sócio n.º 830
25  anos - Operadora de Telex a Telefone - C.P.R. Marconi Delegada Sindical
JOSÉ AUGUSTO DA SILVA MARQUES - Sócio n.º 1255
49 anos — Técnico de Telecomunicações – Standard Eléctrica Delegado Sindical
ANTÓNIO DA COSTA CARVALHO - Sócio nº 1608
 48 anos — Técnico de Electrónica - R.T.P/Porto
JOAQUIM- RODRIGUES CORDEIRO DE SOUSA PRATA - Sócio n.º 133 54 ANOS — Operador Radiotelegrafista - C.P.R. Marconi
MARIA FERNANDA MACIEL TEIXEIRA - Sócia n.º 675
32  anos - Anotadora – R.T.P./Lisboa
    JORGE BARROSO ALVES DE SOUSA – Sócio n.° 2488
36 anos - empregado de Escritório - C.P.R. Marconi
Delegado Sindical
JOAQUIM COSTA CORDEIRO DE OLIVEIRA - Sócio n.º 1457
31 anos - Técnico de Telecomunicações - A.E.P. /Plessey
ALBERTO DA SILVA CORREIA LACERDA – Sócio nº 1419
29  anos - Continuo - C.P.R. Marconi
Delegado Sindical
ANTÓNIO JOSÉ CORREIA LOPES - Sócio n.º 436
30  anos — Assistente Técnico — C.P.R. Marconi
CARLOS ALBERTO SARAIVA COELHO - Sócio n° 1325
41 anos - Técnico de Telecomunicações - Standard Eléctrica
ANTÓNIO MARIA DA S. CARDADEIRO - Sócio n.º 1403
33  anos - Assistente Técnico - C.P.R. Marconi
    MARIA MANUELA MONTEIRO BARBOSA FERREIRA DA SILVA - Sócia n.° 1992
26 anos Operadora de Telex a Telefone — C.P.R. Marconi
LUÍS HENRIQUES MARQUES SALGUEIRO Sócio n.° 2298
36 anos Técnico de Electrónica — R.T.P/Porto
Director da Delegação do Norte do Sindicato
ARMANDO AGOSTINHO BAPTISTA RODRIGUES - Sócio n.° 1990
34  anos - Técnico de Telecomunicações - A.E. P./Plessey
AUGUSTO FERNANDO LOBATO ROCHA - Sócio n.º 1510
31 anos - Operador Radiotelegrafista - C.P.R. Marconi

MESA DA ASSEMBLEIA GERAL
AMARO GUILHERME MOREIRA MARTINS - Sócio n.º 1453
30  anos — Técnico de Telecomunicações - Standard Eléctrica Delegado Sindical Suplente
ANTÓNIO DA SILVA MONTEIRO - Sócio n.° 1866
47 anos — Técnico de Electrónica — R.T.P./Porto
ANA MARIA GASPAR SANTIAGO - Sócio n.° 2512
24 anos — Operadora de Telex e Telefone — C.P.R. Marconi
JOAQUIM JOÃO - Sócio n.º 1423
33 anos — Mecânico de Aparelhagem Telegráfica — C.P.R. Marconi

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