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quinta-feira, 18 de maio de 2017

1977-05-18 - Povo Livre Nº 148 - PPD/PSD

EDITORIAL
Ambiguidades, de quem?

1. Os incidentes verificados este fim de semana nos Açores assumiram no Continente uma dimensão cujas proporções nada têm a ver com a realidade dos factos.
A verdade é que nem as coisas se passaram como, em primeira mão, se divulgou no Continente, nem os acontecimentos são, de modo algum, motivo para tal alarde.
Tudo começou com o hastear de uma bandeira com tradições regionais nos Açores, frente à Câmara de Ponta Delgada, em vésperas da procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres.
O facto determinou uma intervenção militar de que todos tivemos conhecimento, sem que no entanto se procurasse informar a opinião pública de que: a proposta de hastear a bandeira regional partira de um vereador socialista de Ponta Delgada; a intervenção militar que arreou a bandeira regional arreou também a bandeira nacional; a operação decorreu com os intervenientes protegidos por máscaras anti-gás, embora não houvesse indício da presença de qual quer fluido tóxico.
2. Posto isto, é caso para perguntar:
— a quem interessou transforma- o pequeno incidente ocorrido nos Açores em pretexto para provocar uma crise regional ou até nacional?
— porque razão se calou o Governo Socialista neste questão, procurando que todas as atitudes viessem a ter o carimbo da Presidência da República?
É evidente que não ignoramos que, actualmente, submarinos do PC procuram infiltrar-se, ou estão já infiltrados, nos movimentos separatistas das ilhas, tentando, como é seu hábito, criar situações de instabilidade e provocação. Não nos admiraria, pois, que forças afectas àquele partido estivessem, directa ou indirectamente, ligadas ao desencadear desta manobra.
O que estranhámos é que personalidades ligadas ao PS — desde Jaime Gama ao Secretariado Nacional, passando pelas primeiras páginas do jornal oficioso do Governo — tenham procurado agravar as consequências políticas deste facto.
3. Insistindo na «ambiguidade» do Governo Regional e até de Sá Carneiro perante o separatismo, o PS ignora duas coisas: que o Governo Regional, Sá Carneiro e todo o PSD estão empenhados — e estão-no desde o início —  na construção de uma autêntica autonomia regional, nos termos do seu programa e da Constituição; e que tal autonomia, conquista legítima do 25 de Abril, ficou a dever-se ao nosso esforço ao longo dos trabalhos da Constituinte, onde tivemos que arrostar com a hostilidade de muitos socialistas para conseguir a consagração de tal preceito.
Mas a política tem destas surpresas; leva-nos por vezes a descortinar a hipocrisia naqueles de quem menos tal se podia esperar.
Pois não são os socialistas que agitam, a propósito e a despropósito, o espantalho do separatismo, sempre que se fala dos governos regionais sociais-democratas, os mesmos que acabam por dar o seu apoio a movimentos separatistas de outros pontos do globo, como há bem pouco se verificou com o caso das Canárias, só porque aí o separatismo tem roupagens de esquerda?
Ignoram os socialistas que em muitos ou­tros Estados onde há regiões — para não falar já nos Estados federais — existem bandeiras regionais? Não foi a imprensa oficiosa do Governo que recentemente relatou, sem espanto nem escândalo, que na Catalunha e no país basco se voltara a hastear as bandeiras regionais, ainda que tais entidades não tenham, por ora, existência constitucional própria?
A inexistência de uma aprovação legal da bandeira regional. Já invocada contra o Governo Regional dos Açores, não nos perece argumento de peso. Do que não há dúvida nenhuma é que a tradição popular açoriana, desde o tempo da monarquia liberal e durante a I República, reconhece com facilidade a antiga bandeira dos Açores, para lá das variações de pormenor que existem nas versões de 1822 e de 1895 do seu desenho.
De resto, poderíamos inverter a situação e perguntar: que fez o Governo central quando, numa Câmara do Sul do País, se arreou a bandeira nacional para a substituir... pela do PCP?
4. De tudo isto podemos, enfim, retirar uma conclusão: é que não sendo os incidentes proporcionais ao impacto que se procurou dar-lhes no Continente, a dramatização que se tentou foi decerto intencional. E ela só poderá ter servido para aliviar os problemas daqueles a quem o discurso de Ramalho Eanes, em 25 de Abril, hão agradou.
Por nós, não temos qualquer dúvida em dar e pedir todos os esclarecimentos que os factos exigem.
Mas não estamos dispostos a permitir que deles se faça pretexto para estabelecer uma clivagem, entre sociais-democratas e o Presidente da República.
Afirmámos e continuamos a afirmar que neste País há problemas muitíssimo mais graves que o ocorrido nos Açores. Mas não estamos dispostos a prescindir do direito de fazer ouvir as nossas razões, na certeza de que, se ambiguidades existem, não é no partido a que pertencemos.
Por isso nos orgulhamos, cada vez mais, ao fim destes três anos de provas constantes e difíceis, de defender na palavra e nos actos a social-democracia para Portugal e a autonomia para os Açores e para a Madeira.

HELENA ROSETA

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