quinta-feira, 18 de maio de 2017

1977-05-18 - O Proletário Vermelho Nº 79-80

Editorial
SE NÃO SOMOS UM PAÍS CAPITALISTA... ENTÃO QUE RAIO SOMOS?

Vai um vozeirão por aí fora à volta do decreto que limita o sector privado e o sector público, isto é, dos sectores de actividade que podem ser explorados por particulares e daqueles que só poderão ser explorados pelo Estado, ou seja, “nacionalizados”.
Com o voto contrário dos deputados moscovitas (PCP-UDP) e a abstenção dos deputados liberais capitalistas (CDS), o Projecto-Lei acabou aprovado na quase totalidade. O motivo da abstenção liberal assentou na pretensa “ambiguidade” do decreto, e o do voto contra dos brejnevistas no facto de se tratar de “mais uma medida de recuperação capitalista e da política PS de concessão à direita”.
O facto é que esta “gaita" da pretensa “recuperação capitalista" transforma-se cada vez mais no grito de "agarra ladrão" da recuperação cunhalista em curso.
O MONOPÓLIO ESTATAL, FORMA ÚLTIMA DO CAPITALISMO
A táctica moscovita baseia-se neste artifício de luta: fazer equivaler o “socialismo” a monopolização estatal da economia e, a partir daí, classificar de “capitalismo” toda a actividade económica fora do monopólio estatal.
A partir daí, basta activar o coro geral da contra-informação e construir sobre ele a falsa ideia de que “com os seus defeitos, Cunhal até é contra o capitalismo”. Logo de seguida, e jogando como é seu hábito com o obscurantismo e a baixa consciência teórica do grande público, estar contra as nacionalizações é estar contra o socialismo e estar a favor delas é estar com a Revolução.
Ora bem. Já aqui falámos sobejamente do problema da “recuperação capitalista”, problema falso que só o não seria se acaso vivêssemos no socialismo - o que, manifestamente e com a concordância de todos, não é verdade. Não vamos por isso debruçar-nos sobre o espírito de uma lei que, de inspiração social-democrata, teve, ao lado dos seus defeitos, a enormíssima vantagem de promover a já tardia “recuperação” da constitucionalíssima aliança da maioria patriótica PS-PPD.
Falaremos tão somente das ilusões moscovitas de socialismo e da elaborada e complexa - mas não menos ferozmente exploradora e opressiva — realidade que é o capitalismo monopolista de estado de fachada “socialista”.
As nacionalizações e o monopólio estatal sobre a indústria implicam várias realidades das quais a mais falsa é a de que signifiquem um decidido “avanço” para o socialismo.
O que determina a natureza de uma sociedade é a natureza do Estado e a classe que controla o poder de Estado. Mais precisamente, o tipo de relações que, a partir daí, se estabelecem entre o Poder e o Povo.
Na União Soviética, por exemplo, a apropriação do poder estatal por parte de uma casta de indivíduos - uma nova classe de burocratas e grandes senhores — é o que determina as relações de produção, que são capitalistas. Não o são menos - porque o são precisamente mais - devido à estatização da totalidade da indústria, circunstância que não obsta à existência da exploração, à difusão do direito burguês e às crises próprias do capitalismo.
Constitui pois um logro voluntariamente difundido pelos interesses mosco­vitas a concepção de que “avançar nas nacionalizações, no controle operário e na reforma agrária” é fazer avançar a roda da História para um mundo melhor. Já pelo que apontámos quanto às “nacionalizações”, já porque o “controle operário” é impraticável numa sociedade capitalista sem um forte e revolucionário destacamento proletário que conduza o fluxo das lutas contra a exploração, já porque a reforma agrária é bem outra coisa que a “pilhagem legalizada” incitada pelo cunhalismo para consolidar a ocupação para-militar do Alentejo.
Sem dúvida que as nacionalizações ao procederem ao aumento de concentração do trabalho, do número de trabalhadores por unidade fabril ou ramo de actividade sob a mesma entidade patronal, produzem o crescimento da própria consciência colectiva, de classe, e enfraquecem a resistência patronal. Porém, se essa “resistência patronal” é o estado democrático liberal; se a independência nacional está em perigo; e se a cabeça de luta dos explorados está nas mãos da quinta coluna do neo-nazismo moscovi­ta, então as nacionalizações implicam o enfraquecimento do estado democrático e podem contribuir para minar a resistência da pátria perante a ameaça externa. E esse o objectivo maior da estratégia cunhalista.

CUNHAL PREPARA HOJE O ASSALTO DE AMANHÃ
Com o precioso auxílio de todos os carequinhas mentais que por aí envergam a farda do esquerdismo pseudo infantil, Cunhal prepara hoje com as suas falinhas mansas, o terreno que há-de ceifar amanhã. Com efeito, a prossecução do processo das nacionalizações e os chamados “avanços da reforma agrária”, são para os mercenários da Rua António Serpa uma arma preciosa, a sua arma decisiva.
Aumentam o descontentamento popular perante o governo democrático burguês, o qual posto perante as dificuldades de saneamento da crise capitalista que nos fustiga especialmente, vêem no governo o inimigo “porque não prossegue as nacionalizações e acrescenta assim a crise”.
- Desarticulam a recuperação económica — hoje de desesperada urgência do país e prolongam a sua genuflexão face às exigências de ambas as superpo­tências, URSS à cabeça.
- Criam lateralmente um acrescentamento de situações de conflito Estado-trabalhadores que não pode deixar de ser resolvido pelo Poder social-democrata senão através de medidas de força ou de novas cedências à bandalheira produtiva que o gonçalvismo instalou nos sectores económicos estatizados.
- E, FUNDAMENTALMENTE, ao proporem a concentração - à custa do prestígio do governo social-democrata — do máximo de actividades nas mãos do Estado, criam uma situação real de “monopolismo de Estado” que, caindo nas suas mãos, por meio de um golpe mais hábil, facilmente lhes permitiria uma rápida consolidação do poder ao serviço do neo-nazismo moscovita.
Eis porque o PCP, contra o que é seu hábito, preferiu, ainda que colocado perante a ameaça da aliança PS-PPD, votar contra o seu namoro à “maioria de esquerda” e entrar em oposição ao governo de Mário Soares.
A lei vai ser publicada. Dela, espera a mentalidade social-democrata que saia a cura miraculosa para a nossa entrevadinha economia nacional, e nisso irá falhar porque a solução reside bem noutro local. Não é porém a alternativa contrária, não é o prosseguimento das “nacionalizações, da Reforma Agrária e do controle operário” que encerra a solução. Bem pelo contrário. Essa alternativa encerraria a escravização definitiva do nosso país sob as patas dos carrascos do Krem­lin. Antes passar fominha... como dizia há tempos um conhecido militar.

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