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quinta-feira, 11 de maio de 2017

1977-05-11 - Povo Livre Nº 147 - PPD/PSD

EDITORIAL
...E há-de sê-lo!

Quando logo a seguir ao 25 de Abril, um punhado de portugueses anunciou a intenção de criar um partido para defender «uma social-democracia portuguesa», não faltou quem os atacasse.
Desde então, os ataques têm girado, pendularmente, em torno de duas grandes linhas de força; ora  somos um partido social-democrata, por falta de expressão eleitoral, por falta de apoio dos trabalhadores, por falta de idoneidade política dos nossos dirigentes (argumentos usados sucessiva e repetidamente, ao sabor das circunstâncias), ora não é viável entre nós a social-democracia, por falta de condições económicas e sociais, por falta de vontade dos portugueses, por falta de impacto face a alternativas mais atraentes.
Nem uma nem outra coisa se tem vindo a verificar no processo português. Nem a social-democracia se tem demonstrado inviável, ao contrário dos modelos burocrático-colectivista do PCP, anarco-populista dos GDUP's ou terceiro-mundista do conselheiro Melo Antunes, todos eles claramente rejeitados pelo eleitorado, nem o PSD se tem vindo a negar a si próprio, impondo-se ao invés e cada vez mais como o único e verdadeiro partido social-democrata em Portugal. O nosso programa, a nossa actuação parlamentar, os nossos resultados em sucessivas eleições, o nosso apoio nas regiões pobres do interior e das ilhas, a nossa adesão nas camadas estudantis, trabalhadoras e emigrantes, são a prova mais cabal de que assim é.
Acontece. porem, que o I Governo Constitucional  deste país se formou, minoritariamente, a partir do PS; e que este partido nunca defendeu abertamente uma via social-democrata para Portugal, refugiando-se na formula, tão vaga quanto teórica, do «socialismo original», cada vez mais «a longo prazo».
O realismo e a lucidez impõem que esta situação seja ultrapassada: que se reveja a actual fórmula governativa, com base numa futura maioria democrática estável, que se aponte como dizia Ramalho Eanes, para «uma via corajosa de reformas profundas», que outra coisa não é senão a via social-democrata.
Por ela passa o futuro do nosso país, se o quisermos democrático, estável, a caminho do desenvolvimento e de uma maior justiça social. E porque assim é, tem o PSD nesse futuro, uma palavra decisiva a dizer
A construção do socialismo democrático, para que aponta a Constituição, não se esgota na social-democracia. Mas a verdade é que também não pode construir-se sem o contributo essencial dos sociais-democratas portugueses.
Batemo-nos até pela sua convergência no essencial, posto que no acessório será sempre possível um concerto que tenha em conta os interesses dos portugueses. Nesse sentido pressentimos a importância que poderá vir a ter uma maioria estável, seja ela socialista e reformista, seja ela ainda mais ampla, desde que sempre e exclusivamente democrática.
A ineficácia do actual Governo, afasta, sem dúvida, os partidos democráticos, já que, assumindo o PS o papel de Governo, força o PSD e o CDS a assumirem o de oposição — tanto mais dura quanto piores as provas que aquele vai prestando. Mas isso não obsta — pelo contrário aconselha — a que se prevejam e ponderem as convergências possíveis no futuro. Delas beneficiará, em larga medida, o País.
Ponto é que tal seja possível sem que hajam de ser renegados os ideais de cada qual — e sem que o perfil que deles decorre seja, constantemente, posto em dúvida pelos restantes.
Nunca atacámos o P.S. por não ser socialista ou o C.D.S. por não ser centrista. Não compreendemos, por isso, que de certos sectores do P.S. surja agora de novo a acusação cíclica de que o P.S.D. não é social-democrata, como recentemente declararam Jaime Gama nos E.U.A. e Raul Rego em Espanha.
Que o nosso partido sempre foi e continua a ser social-democrata — escuso-me de o demonstrar.
Que este país acabará por seguir, com realismo, a via social-democrata — é nossa esperança, inabalável, que o futuro se encarregará de comprovar.
Mas, mais importante que isso, é a profissão de fé que, com todos os democratas, vimos fazendo, de que o nosso país é e quer ser livre.
Como concluía José Estêvão em 1840, também hoje, com redobrada teimosia, dizemos nós:
… e há-de sê-lo!

HELENA ROSETA

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