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sexta-feira, 5 de maio de 2017

1977-05-05 - Luta Popular Nº 542 - PCTP/MRPP

EDITORIAL
ACERCA DA DESESTABILIZAÇÃO

A acreditar no que se ouve e vê, o vocabulário político português «enriqueceu-se» irremediavelmente com uma nova e retumbante palavra: a palavra desestabilização.
Todos os dias, o operário, o assalariado rural, o camponês pobre, o soldado, o marinheiro, a mulher e a juventude trabalhadoras são agredidos, atacados e bombardeados, além do mais, com essa bala terrífica da desestabilização.
É a rádio, a televisão e os jornais; são os ministros, os deputados, os vadios e os capatazes; é o oficial, o polícia, o juiz, o padre e o presidente da República; são os fascistas, são os «socialistas», são os social-fascistas, são os neo-revisionistas — todos o acusam, ao povo trabalhador, dum novo e nefando crime, pior que todos os crimes jamais cometidos por qualquer homem ou qualquer classe ria historia: o crime de desestabilizar.
O protesto popular contra a carestia, desestabiliza; desestabiliza a greve do operário pelo pão e mais a reivindicação do camponês à terra; desestabiliza a luta contra os despedimentos, a concentração dos desempregados, a resistência às desocupações, a aplicação da semana das 40 horas, a manifestação política.
Mas desestabiliza, também, a entrevista que se concede, o discurso que se profere, o artigo que se escreve, ou a reclamação que se assina.
E desestabiliza, sobretudo, tudo aquilo que os marxistas-leninistas fazem ou deixam de fazer, pensam ou deixam de pensar, defendem ou deixam de defender.
Em contrapartida, somos «informados» e «esclarecidos» pelos mesmos meios de deformação ideológica de que, de maneira nenhuma, desestabiliza o congelamento salarial ou o «grande empréstimo» ianque; que não desestabilizam nem a desvalorização do escudo, nem a subida vertiginosa dos preços dos produtos de primeira necessidade, nem muito menos, o lock-out (encerramento das fábricas pelos patrões), os despedimentos, o desemprego, os despejos, a fome ou a miséria das massas.
Torna-se manifesto que a desestabilização é um «crime» que só o povo trabalhador pode cometer, e que os monopolistas, os banqueiros, os latifundiários e os seus agentes estão, pela natureza das coisas e em razão da classe a que pertencem, absolutamente isentos e inevitavelmente impossibilitados de o praticar.
Em consequência, é «crime» tudo o que possa servir o povo e defender os seus interesses, tudo o que vá contra a «ordem» estabelecida, tudo o que contenda com os interesses da burguesia exploradora e, de perto ou de longe, ponha em perigo a «estabilidade social», isto é, a estabilidade do seu poder político, da sua ditadura de classe e do seu sistema de exploração.
E, se porventura acontece que um ou outro politicastro burguês — como já sucedeu com o senhor Galvão de Melo e mais frequentemente com o senhor Melo Antunes — venha a sofrer o anátema de «desestabilizador», isso constitui apenas uma séria chamada de atenção feita pelo grande capita!, a fim de que eles se abstenham de perturbar a aplicação dos planos políticos da classe dominante e se submetam rapidamente à sua direcção centralizada!
O maior erro que os trabalhadores poderiam cometer, sobretudo quando têm as costas um governo de charlatães do socialismo e de autênticos bobos dos monopólios estatizados ou privados, nacionais e estrangeiros — como é o actual governo e como o foram os governos provisórios de coligação, dos quais fizeram parte falsos comunistas e pretensos socialistas — seria o de se deixarem iludir pelas palavras, tomá-las como expressão da verdade real e amedrontarem-se com quaisquer espantalhos, como é o da desestabilização.
Ao contrário, devemos examinar os fenómenos políticos dum ponto de vista de classe e no quadro da luta aguda que as classes travam na nossa sociedade. Se qualquer luta dos trabalhadores, inclusive o mais simples dos seus protestos e até as suas palavras de indignação, são susceptíveis de «desestabilizar», não é por causa da luta, do protesto ou da indignação, mas porque subjaz a tudo isso uma crise económica e política mais profunda de que a indignação, o protesto e a luta das massas são a manifestação e a consequência e não a causa ou a fonte.
Uma crise económica profunda do sistema de exploração vigente é a verdadeira base da crise política, da instabilidade política, da luta política de classes. Luta que é, necessariamente, uma luta pelo poder político: do lado da burguesia, para o conservar, para o estabilizar; do lado do proletariado, para o derrubar e instaurar um outro poder político e um outro sistema económico, ao serviço das massas trabalhadoras.
A acusação de «desestabilizar» não pode obviamente iludir o fundo das coisas e dos problemas e não pode, por isso mesmo, atemorizar o proletariado consciente.
Porém, o espantalho da «desestabilização» é agitado pelo grande capital e por todos os lacaios ao seu serviço — lembremos que, no nosso país, esse espantalho foi agitado em primeira mão pelos social-fascistas, na altura do grande movimento grevista de Maio de 1974 — com a finalidade principal, não tanto de atemorizar e paralisar o proletariado industrial moderno, mas sim a pequena burguesia, na esperança de a afastar do campo da revolução para o campo da contra-revolução.
Em razão da sua posição de classe, a pequena burguesia é uma camada hesitante e poltrona. Hesita entre o proletariado e a burguesia, entre os seus interesses futuros e os seus interesses actuais, entre a razão e os preconceitos, entre a revolução e a contra-revolução. O espantalho da «desestabilização» é precisamente um dos meios, uma política, pelos quais a grande burguesia aterroriza essa camada instável e a procura submeter política e economicamente.
Porque a palavra desestabilização integra toda uma política da contra-revolução burguesa, consistente em apresentar-se aos olhos do pequeno-burguês instável, aterrado e poltrão como se fora a verdadeira revolução. Através dos órgãos da sua ditadura, dos seus políticos e dos seus ideólogos, a grande burguesia intenta convencer a pequena burguesia e as camadas relativamente recuadas das massas trabalhadoras de que devem acatar sem reservas a política dos monopólios e dos latifundiários, ao mesmo tempo que não devem apoiar de forma alguma a luta do proletariado revolucionário.
É que, se a pequena burguesia apoia e se une à classe operária, sobrevir a «desestabilização», e a desestabilização desembocará, no dizer dos políticos e ideólogos dos monopólios, ou no fascismo ou no comunismo.
Claro está que o proletariado revolucionário aspira ardentemente ao socialismo, ao comunismo, à sociedade sem classes, sem exploração do homem pelo homem. Claro está também que o proletariado consciente sabe que a contra-revolução burguesa não tem só a forma, a face, fascista: pelo que continua a ser de exploração desenfreada a contra-revolução burguesa sob a forma, com a face, democrática e parlamentar.
Porém, para a pequena burguesia e certos sectores dos trabalhadores ainda não suficientemente experimentados e conscientes pela prática da luta política de classes, o espantalho da desestabilização pode ter um efeito desmobilizador e paralisante.
Mas será sempre um efeito temporário. Porque a crise económica avoluma-se e aprofunda-se, impelindo as classes e as pessoas para lutas políticas cada vez mais intensas, mais claras, menos ambíguas, mais decisivas.
Os acontecimentos forçarão os hesitantes, mais cedo ou mais tarde, a decidirem-se por apoiar a única classe que pode pôr termo à exploração e à opressão — o proletariado revolucionário.
Aos comunistas, ao nosso Partido, compete denunciar e desmascarar os desígnios políticos que a burguesia encobre aos olhos do povo com a «teorias da desestabilização, «teoria» que não passa duma pacotilha reaccionária, amplificada por revisionistas e oportunistas de todos os matizes, para subtrair à classe operária um aliado impressionável e temeroso.

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