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quinta-feira, 4 de maio de 2017

1977-05-04 - O Proletário Vermelho Nº 78

Editorial
O DESESTABILIZADOR ANTUNES POLÍCIA DA CONSTITUIÇÃO

O major Antunes voltou a fazer-nos das suas. É decididamente MANIA. Depois de Abril-25, depois de Maio-1, Antunes voltou à carga.
Votações e desmentidos, como é hábito, transformam aquele conselheiro no homem que mais vezes rectificou asneiras repetindo-as em tom ainda maior e mais claro. Nisto, Antunes, o conselheiro, não destoa de muitos outros - demasiados - “declaradores públicos” da nossa presente “praça política”.
Porém, além de major, além de Melo Antunes e além de conselheiro, o desestabilizador em questão é outra coisa bem mais grave: é Presidente da Comissão Constitucional, o "homem forte” daquele grupo que tem por função defender um texto nacional (a Constituição) que — estranhamente — se não consegue defender a si próprio.
Isto confere às declarações do major um tom constitucional. Significa que o zelador da Constituição quer realmente ressuscitar a gonçalvomania, quiçá hoje Meloantunomania, e, segundo corre, apoiado na defesa desta Constituição, estribado nesse assento especial do Conselho da Revolução.
Todavia — a via originalíssima para o futuro português continua tão “original” como intransitável — houve no CR uma votação sobre um voto de crítica, velada ou não, às declarações do major. Votação que, referindo-se às declarações de Melo Antunes sobre o “papel social-revolucionário das F.A.”, se referia automaticamente e sem dúvidas a matéria constitucional. Votação que opôs de um lado Ramalho Eanes, o Presidente eleito por mais de 60 por cento do povo desta República, e do outro o major Antunes, presidente não-eleito da Comissão que vela pela Constituição, não submetida a sufrágio, do povo desta - a mesma - República!
Daqui não pode deixar de resultar originalidade, ou falando mais concisa- mente, perplexidade e, não pouca, confusão. Afinal como é? É a Constituição que o General Eanes votou a que nos serve, ou, pelo contrário, a que o major Antunes vigia?
Outras perplexidades daqui surgem, pois que o texto da nossa “Carta Maior” é o mesmo. Há, por conseguinte, duas Constituições numa. O que deixa pressupor que possam existir mais ainda. E como, sobre o seu texto, todos os partidos apontados para a “maioria de esquerda” estão de acordo, sucede que temos a reger-nos uma Carta Constitucional pró-maioria de esquerda. Carta que, originalmente, e através dos órgãos superiores da governação, vai governando o povo todo. O mesmo povo que sempre votou contra tal “Maioria”. Dizer, a partir daqui, que tal texto não exprime pois o consenso da maioria do povo, é o menos importante sendo dramaticamente verdade.
Acabámos de sair do período das festividades, e saímos com o gosto amargo de quem sabe a história da formiga e da cigarra. Saímos a cantar mas de barriga vazia e horizonte cinzento. Isto para já não falar da confusão na cabeça.
Porque este 1.° de Maio foi apresentado por todos como “jornada de unidade e de luta”.
Como “unidade” não foi lá um exemplo por aí além: as pessoas separaram-se por aqui e por ali conforme as opções partidárias ou as manifestações sindicais.
Como “luta”, rebuscando os discursos e slogans — salvo, obviamente, os do partido do governo — encontrou-se sempre a tónica exclusiva da luta contra o governo. E luta, portanto, contra um dos componentes — o principal componente
- apontados para a confecção da “maioria de esquerda”. Donde deriva que, avaliando o presente, tal “maioria” pouca paz nos promete no futuro. E, retomando a questão anterior, só ela, a Constituição, promete salvar das fogueiras infernais da desgraça. E assim, regressamos à curiosíssima ambiguidade da nossa originalíssima — e, como se vê, intransitável - “via para o socialismo”.
Ora, se cada sincero democrata não perde isto de vista; se cada verdadeiro português não tranquiliza perante a ameaça disto à independência nacional; se os poucos autênticos Amigos do Povo, de há muito vêm explicando, em pormenor, tal processo, acontece que. cada vez mais, é a direita tradicional que lhes trava a língua e tolhe a acção. Deriva daqui que é a direita tradicional o melhor aliado de Cunhal.
Tudo isto parece incrível, lembra “jogo de palavras”, e como tal é - será - “criticado” pelos cunhalistas todos, descarados ou não, que por aí pastam à socapa. Mas não é. É apenas pegar, pelos cornos, a realidade de um país que sem perceber donde veio, igualmente não descortina a meta para onde vai. O que é já bastante para não saber sequer se lá vai chegar.
A situação agravando-se dia a dia nos sectores do pequeno consumo doméstico como no sector do equipamento e da, urgentíssima, arrancada produtiva, dá quotidianamente novas armas aos inimigos do Povo. Dos partidos aos sindicatos vai a mesma sarabanda. Entretanto, porém, a Inter prepara as baterias, o PC aguça as baionetas e os grupelhos, mais ou menos trotsquo-udepinos, tiram da estrada as dificuldades para Cunhal passar melhor.
Se a social-democracia governante atasca o dia a dia no pântano dos “paninhos quentes e das zaragatoas” dos empréstimos e das medidas timoratas; se a social-democracia não governante se sabe cada vez menos por onde anda e que capacidade tem, espartilhada entre os seus MSDs (antunistas) e os seus MIRNs (ultra-direitistas); se os “Pinochets da Silva” serão neste país o último trunfo do gonçalvismo galopante que por aí grassa e os Antunes animam, que nos espera?
Ou acordamos rapidamente para soluções reais, ou nos convencemos que não se pode hoje editar cá o (falhado) “estilo florescente” americano, e tomamos em mãos o destino desta pátria que é nossa, ou levamos a tal mocada no toutiço na próxima esquina do PREC. E há-de ser dada com o canudo da Constituição pela mão de Álvaro Cunhal a soldo de Brejnev.

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