domingo, 21 de maio de 2017

1977-05-00 - ANGOLA Enquanto as cliques guerreiam o povo continua a sofrer - PCP(R)

ANGOLA
Enquanto as cliques guerreiam o povo continua a sofrer

Dois acontecimentos estiveram na origem da luta que rebentou a 27 de Maio entre os partidários de Nito Alves e Agostinho Neto.
O primeiro acontecimento foram as resoluções do Plenário do CC do MPLA em Novembro de 1976. Aí foi decidido suprimir os ministérios da Administração Interna (encabeçado por Nito Al­ves) e da Informação (dirigido por João Filipe, nitista). Na prática, p burocracia desses ministérios manteve-se, a sua organização também. A dissolução não foi mais que uma manobra para tirar Nito Alves do aparelho de Estado. O facto de se ter recorrido a tal, mostra bem a insegurança da direcção do MPLA ao demitir Nito Alves.
O Plenário decidiu ainda afastar Nito Alves do Bureau Político, mantendo-o no Comité Central.
Estas decisões corresponderam a uma ofensiva lançada pela clique de Neto, especialmente por Lara e Iko Carreira. Neto aplicou uma dupla táctica. Por um lado reforçou a demagogia em torno da unidade tendo-se apresentado ao lado de Nito Alves no comício de apresentação das resoluções do Plenário do CC do MPLA. Neto chegou mesmo a abraçar Nito, interrogando afirmativamente, perante as massas: "Nós estamos unidos, não é, camarada Nito?"
Por outro lado Neto intensificou a repressão sobre a clique nitista. Foram presos alguns dos seus militantes de base e intermediários, principalmente das FAPLA e das Comissões de Bairro (caso do Chico Zé) e desmanteladas as estruturas organizativas de Nito Alves no seio do MPLA, sendo dissolvidos por Lúcio Lara, diversos Comités de Acção, principalmente no meio estudantil (medicina).
No entanto a grande maioria dos militantes nitistas, principalmente dirigentes mantiveram-se em liberdade, inclusive com o direito a exprimir publicamente as suas opiniões. Nito Alves manteve mesmo todas as regalias como ministro.
O segundo acontecimento foi a expulsão de Nito Alves e José Van Dunen do CC do MPLA e a sua imediata prisão a 23 de Maio último. Tudo indica que esta medida, privando a facção dos seus mais destacados dirigentes, precipitou a intentona de 27 de Maio.
É importante notar que embora a expulsão do CC tenha sido noticiada a sua prisão não o foi.
Antes desta expulsão os nitistas tinham intensificado a sua acção clandestina. A demissão de Nito Alves e de outros seus colaboradores possibilitou dedicarem-se exclusivamente a esse trabalho e, na qualidade de dirigentes do MPLA, poderem falar às massas.
A arrogância da facção de Nito aumentou de forma considerável ultimamente. Chegavam a declarar que o governo só poderia ser derrubado pela força das armas como foi o caso do nitista Nado, pertencente ao Corpo do Comissário Político do Estado Maior-General, ligado à Organização de Defesa Popular e recentemente demitido.
Entre outros actos praticados por esta clique destaca-se a ameaça de entregarem a todas as embaixadas radicadas em Angola uma exaustiva análise da situação política, caso o governo de Neto não cedesse a algumas reivindicações e a intensificação do conflito político público nos organismos do governo e do MPLA sobre determinados problemas. É notória a existência de duas correntes no seio do MPLA. No Lubango os conflitos constantes entre Muteka e Machado é exemplo típico. Actuando, no plano legal e ilegal, os nitistas fazem sair panfletos contra o governo e procedem a bastantes inscrições murais.
Acontecimentos deste tipo haviam de dar-se inevitavelmente em Angola. Quando, ao expulsar o imperialismo americano, o MPLA abdicou da ampla mobilização popular armada, a mais forte barreira anti-imperialista e deixou entrar o social-imperialismo soviético, criou as condições para que tal género de conflitos se desse. A vida já está a mostrar, o que significa a dependência do social-imperialismo.
Grande parte da burguesia portuguesa começa a esboçar satisfação pelo desfecho recente da luta entre as cliques reaccionárias do MPLA, pois pensa que Neto será mais permeável às suas pressões neo-colonialistas assim como às dos ocidentais enquanto os nitistas defendiam a integral e exclusiva dependência do Kremlim.

A luta não esmorece
Estas dificuldades do povo também tiveram o seu reflexo no actual confronto. A clique de Nito Alves procurou servir-se das massas populares e das suas reivindicações para derrubar a de Neto. Mas os factos mostram que, apesar da grave e desesperada situação do povo, os nitistas não o conseguiram arrastar significativamente para os seus objectivos de igual modo reaccionários
O povo angolano tem uma grande e rica experiência de luta. Foi temperado por 16 anos de luta armada e de grandes lutas de massas contra ferozes inimigos. Esta experiência não será esquecida, a Organização Comunista de Angola, legítima herdeira desse glorioso passado, ergue hoje a luta popular revolucionária. Nem Neto nem Nito servem o povo, fazem parte da mesma família de agentes do social-imperialismo.
Hoje os trabalhadores angolanos continuam a luta. Entre os operários da construção civil do Bairro do Golf de Luanda, que exigiam aumentos de salários há muito tempo, surgiram conflitos em Fevereiro com os cubanos que dirigiam o trabalho, levando a Central Sindical UNTA a intervir, prometendo estudar o assunto, mas sem darem qualquer resposta.
Na província do Lubango os trabalhadores da Moagem (Ex-Venâncio Guimarães) estiveram em greve no mês de Março de 77, exigindo a libertação de um trabalhador (branco) que tinha sido despedido pelo delegado da indústria (nitista). Os trabalhadores deram uma sova a esse delegado.
No Ministério da Habitação houve conflitos entre técnicos cubanos e angolanos, pois os angolanos construíram uma ponte no Uíge que se mantém de pé, enquanto que uma outra construída pelos cubanos ruiu.
Também no Lubango a fábrica N'gola (cervejaria) está na iminência de fechar devido ao facto de os técnicos portugueses estarem a abandonar o serviço por causa das perseguições racistas que lhe são movidas pelos nitistas locais.
No Bié, os camponeses recusaram-se a vender os produtos segundo a nova tabela de preços. Elementos da CPPA (força de segurança pública) confiscaram certos produtos. Isto causou grande indignação.
Um dos elementos da CPPA numa das aldeias foi corrido pela ODP (Organização de Defesa Popular) local. Os camponeses decidiram colectivamente não ir vender produtos à cidade (aldeias de Mukumbo, Kavinito e Kangonda).
O descontentamento aumentou entre os soldados das FAPLA, falta de alimentação, munições, assistência médica e "ajuda política". Além da diferença nítida existente entre o modo de vida dos soldados e dos comandantes. Isto conduz a graves contradições.
No início de Abril houve greve geral de todas as minas da Diamang, no Leste. Os trabalhadores exigiam o pagamento dos salários atrasados O governo foi obrigado a ceder e não conseguiu fazer prisões.
Tudo isto mostra que a chama da luta se mantém acesa entre o povo, que os frutos da luta anticolonial acabarão por cair nas mãos do povo e que os imperialistas, social-imperialistas e reaccionários serão varridos.

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