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segunda-feira, 8 de maio de 2017

1977-05-00 - Acção Directa Nº 09 - I Série

HISTORIA DO 1º DE MAIO
"A VERDADE É REVOLUCIONARIA."
Pierre-Joseph Proudhon

Em 1886, havia nos Estados Unidos da América do Norte um movimento sindical inspirado nas tácticas da acção directa e animado por inúmeros anarquistas. Tinha como divisa "um prejuízo causado a um faz mal a todos" e não considerava a solidariedade como uma palavra vazia de sentido. Agrupava nas suas fileiras os emigrados de fresca data, os operários não qualificados, os camponeses e os operários agrícolas, os desempregados, em suma, os oprimidos e explorados menos resignados com a sua condição de escravos e, materialmente, menos favorecidos. Era conhecido pela designação de "Os Cavaleiros do Trabalho".
Não militavam no seu seio nem os carreiristas e candidatos a burocratas nem essa aristocracia operária ligada a produção de massa que, nas "trade unions" bem comportadas, preferia alargar o leque salarial a bater-se contra o regime do trabalho assalariado.
Foi, contudo, desta ultima que partiu a iniciativa da luta pela jornada de 8 horas, já que eram moeda corrente os dias esgotantes de 12 e 13 horas. Iniciativa, porém, formulada sem calor nem convicção. As "trade unions", reformistas até à medula dos ossos, não tinham tropas de choque, como soe dizer-se, nem uma visão global da situação. Estavam atascadas no egoísmo corporativo e, embrenhadas nos novos processos produtivos que iriam desembocar nas cadeias de montagem do taylorismo, eram incapazes de abarcar a totalidade de um mundo a modificar totalmente. Foram essencialmente os Cavaleiros do Trabalho que asseguraram o bom desfecho do movimento, ao desencadearem o primeiro esboço de greve geral da história dos Estados Unidos.
O dia lº de Maio de 1886 devia ser a data a partir da qual mais nenhum operário devia trabalhar mais de 8 horas por dia. As greves pontuais que irromperam, sem ligação suficiente entre si para desembocarem (indo-se mais além) numa greve activa e expropriadora, contaram-se à volta de 5000 com várias centenas de milhares de participantes. Muitas categorias profissionais obtiveram a redução de horários desejada, dos carpinteiros aos tipógrafos, passando pelos padeiros, pelos estivadores, pelos bagageiros, pelos caixeiros de comércio, pelos homens dos transportes, pelos ferreiros e ainda outros. E lograram-no em grandes cidades como Boston, Baltimore, São Luís, Newark, Pittsburg e Nova Yorque.
Mas em Chicago é que o horizonte se toldou. Tinha havido no 1º de Maio e nos dias seguintes impressionantes desfiles de trabalhadores efectivamente unidos na luta e não, como hoje, ficticiamente, por estados maiores sindicais e partidos políticos que, em nome da unidade, por definição tudo partem e nada deixam inteiro. A burguesia aterrada, com o fabricante de maquinaria agrícola Cyrus Mac Cornick à cabeça, decidiu por ponto final no assunto, mesmo que o preço a pagar (pelos outros) fosse caro: uma provocação sangrenta, por exemplo. Acirrou os bandos armados do detective Allan Pinkerton, personagem sinistro que tinha fundado uma agência de polícia privada, a qual actuava com a conivência das autoridades e se tinha especializado na arte de furar as greves e assassinar os sindicalistas mais combativos. E foi a 4 de Maio de 1886 que tudo se precipitou. No parque de Haymarket, uma bomba misteriosa lançada para o meio dos polícias, durante um comício de rua, forneceu o pretexto tão histericamente desejado. Os bodes expiatórios foram encontrados num ápice. Eram precisamente os que mais se tinham distinguido no ritmo a imprimir ao movimento reivindicativo: Schwab, Parsons, Spies, Neebe, Lingg, Fischer, Engel e Fielden. Todos anarco-sindicalistas, ao mesmo tempo teóricos da sua prática e práticos da sua teoria.
O processo que contra eles foi organizado foi ignóbil. Não houve sequer aquela pompa jurídica nem aquela técnica processual para salvar as aparências. O juiz e os 12 jurados, lacaios natos do Estado e do Capital que eram, ao mesmo tempo, o verdadeiro juiz e parte em litígio, nem sequer afectaram aquele mínimo de pseudo-independência da magistratura. De maneira expeditiva, a 20 de Agosto de 1886, o tribunal condenou à forca, para intimidar e dar o exemplo, os 8 acusados. Sá três conseguiram escapar e viram as suas penas comutadas em prisão por longos anos. Dos ou­tros, Engel, Spies, Parsons e Fischer foram executados e Lingg suicidou-se, antecipando-se ao carrasco.
As "provas” utilizadas para que se perpetrasse o crime legal residiram essencialmente nos discursos e escritos que, em vida, as vítimas tinham proferido e redigido a favor dos Sindicatos Operários, como os entendiam: autónomos e não integrados no sistema. Para os bufos, para os jurados e para o juiz Gary, homens que se exprimiam daquela maneira não podiam ser simples diletantes! Estava tudo provado é soma e segue ...
Durante o processo, todos os acusados clamaram a sua inocência e a intervenção de Fielden ficou célebre. Sentindo, porém, que era o processo da Revolução Social que estava a ser maniganciado, nenhum deles se acobertou com a famosa desculpa das "ordens vindas de cima". Todos se assumiram até ao fim, e como nenhum anarquista está às ordens de nenhum anarquista, foi com júbilo que todos disseram ser responsáveis pelas ideias que tinham e que tentavam levar para a prática.
São de Louis Lingg estas palavras! "Condenaram-me porque sou anarquista. Repito-vos que sou inimigo da vossa ordem e que, enquanto tiver um hálito de vida, vos combaterei. Desprezo-vos, desprezo a vossa ordem, desprezo as vossas leis, desprezo a vossa autoridade."
E do seu companheiro August Spies um desafio que soltou nestes termos: "A minha defesa é acusação vossa, o delito que me é imputado é história vossa. Violais a lei ao cometer um assassinato organizado. Se pensais que, enforcando-nos, refre­ais o movimento ascensional da classe trabalhadora, o movimento do qual os milhões que vivem na miséria, na escravidão do salário, esperam a sua emancipação, pois bem, enforcai-nos".
Sem esquecermos Albert Parsons que se exprimiu assim: ”Nós somos condenados como anarquistas e eu estou orgulhoso em ser anarquista. Pensais, meus senhores, que, quando os nossos cadáveres caírem da forca, tudo estará terminado? Pensais que a guerra social terminará quando nos tiverdes estrangulado?”
Ou George Engel que falou da seguinte maneira: "Havemos de pender da forca porque nos rebelámos contra a escravidão. Nesta república livre, aquele que fala em nome e no interesse da classe trabalhadora deve ser enforcado. O meu maior desejo é que os trabalhadores assalariados possam reconhecer, onde quer que seja, quem são os seus amigos e quem são os seus inimigos."
Ou ainda Adolphe Fisher que encontrou dentro de si a força suficiente para vociferar: "Se devo ser enforcado pelas minhas ideias anarquistas, pelo meu amor à liberdade e à humanidade, então grito-vos: disponde da minha vida."
Inabaláveis, contudo, ante o coro de protestos platónicos ou impotentes que até elas subia do mundo inteiro, as autoridades competentes determinaram que a 11 de Novembro de 1887 fossem enforcados, nos pátios da prisão, aqueles que ficaram na história mais conhecidos pelos "mártires de Chicago”. Nas ruas circunvizinhas, o exército continha a multidão.
Sete anos depois, tal como aconteceu para o caso de Niccola Sacco e Bartolomeo Vanzetti (mortos na cadeira eléctrica em 1927, em Boston), uma revisão legal do processo veio confirmar que as vítimas estavam inocentes.
É esta a origem do 1º de Maio, "festa" mundialmente deformada. Os politiqueiros da 2ª Internacional (socialista) ratificaram a sua celebração no Congresso de 1889. Sempre politicantes, visavam um efeito publicitário, para melhor se estribarem nas costas da populaça e ganharem as grandes batalhas eleitorais. O populismo ou, como diria hoje Mário Soares, o "anarco-populismo" desses senhores caía de resto logo pela base, quando no Congresso de Londres de 1896, contrariamente ao que estava estipulado, proibiram pidescamente as intervenções dos anarquistas que vinham na qualidade de delegados sindicais. Essa façanha que fez com que homens como Kropotkine e Malatesta fossem expulsos e que Paul Delesalle fosse espancado, foi uma reedição da luta entre Miguel Bakunine e Karl Marx na 3ª Internacional e cavou ainda mais o fosso entre libertários e socialistas parlamentares. Nela distinguiram-se sobremaneira os sociais-democratas alemães Bebel e Wilhelm Lièbknecht, os socialistas franceses Jules Guesde e Jean Jaurès, e a filha do Profeta, a senhora Marx-Aveling. Dir-se-ia, por conseguinte, que, para todos eles, um anarquista morto podia servir de pretexto para uma procissão alegórica, para uma "festa", enquanto um anarquista vivo seria de segregar e marginalizar completamente, não fosse ele despertar o dócil gado eleitoral.
Também os déspotas e liberticidas da 3ª Internacional (comunista) vieram tirar o chapéu deferente ao Dia do Trabalho, para melhor assassinarem o seu espírito e maior glória de Lenine. Nos países que ainda hoje gerem sem partilhas nem associados, promovem grandes desfiles letárgicos de massas a que presidem do alto de tribunas cobertas de paramentos, onde a foice e martelo substituíram o báculo e o turíbulo. Ou então organizam longas procissões de carros de assalto e mísseis inter-continentais, ante os olhos em alvo do povoléu e dos convidados oficiais. Nem podia deixar de ser assim. A "festa do Trabalho" tinha que ser um ponto culminante da alienação em países onde os proletários, despojados de tudo, nem sequer o direito de greve têm, sob o pretexto de estarem no poder ... Restam-lhes as batalhas da produção em ponto grande, as medalhas de heróis do trabalho e um espírito de sacrifício profissional a que é anual e ritualmente feito apelo!
Até a Igreja Católica, cujos corvos de sotaina, como se sabe, gostam de carne morta, quis tirar partido dos cadáveres de Chicago. Como acha que o trabalho embrutecedor impede os maus pensamentos e as más acções, a tal ponto é ele absorvente, santificou-o e desfigurou o sentido da luta daqueles que querem libertar-se da maldição bíblica contida na prescrição divina! "comerás o pão com o suor do teu rosto”. Foi assim que nasceu a festa do São José Carpinteiro ...
Dito isto, achamos que o monopólio da tradição revolucionária não pertence a ninguém. Dentro desta ordem de ideias, os homens de Chicago não pertencem aos anarquistas de aqui e de agora. Pertencem, sim, a todos aqueles que não tiverem perdido completamente a memória, que não se considerarem auto-suficientes e estiverem dispostos a retomar a luta precisamente no ponto em que os nossos companheiros a deixaram. Mas, como dizia um companheiro espanhol, "a comunidade da glória não obriga à falsificação da História" ...
(Este texto é uma edição do jornal anarco-sindicalista "A Batalha", do jornal "Voz Anarquista", da revista "Acção Directa", do Grupo Anarquista "Lanterna Negra", Grupo Anarquista "A Ferro e Fogo", Núcleo de Intervenção Anarquista, Grupo Anarquista "Os Solidários", Grupo Anarquista "A Liberdade")

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