quarta-feira, 24 de maio de 2017

1972-05-24 - DOS ESTUDANTES À POPULAÇÃO - Movimento Estudantil

DOS ESTUDANTES À POPULAÇÃO

24/5/72

Na manhã do dia 16 de Maio a polícia entrou no Instituto Superior Técnico e carregou sobre os estudantes, quando estes evacuavam o Instituto
Nessa tarde a polícia cercou o ISCEF, onde se realizava uma reunião informativa sobre os factos ocorridos no Técnico, de manhã Os estudantes resistiram a primeira investida da polícia, mas em breve uma segunda carga, desta vez com polícia de choque, cães, e tiros a entrada, iria forçar as portas
Foi então um massacre em toda a parte e ninguém escapou: da cantina ao gabinete do director, a polícia atacou estudantes e professores e escavacou o mobiliário. Quando a carga terminou havia sangue no chão, na mobília e nas paredes, desmaios e cabeças partidas, feridos em estado grave não só por causa das coronhadas mas também porque houve estudantes que, desesperadamente, saltavam por janelas, de uma altura de vários metros.
Os feridos recusavam ser transportados nas ambulâncias, que acompanhavam a polícia, que já vinha com ordens para fazer o que fez, senão não teriam vindo com as macas prontas.
Entretanto, são encerradas as associações de estudantes do Técnico e de Económicas, como já tinham sido as de Ciências, Direito, Letras e Instituto Industrial e a Cooperativa de Estudantes Livrelco, em Lisboa, a Comissão Pró-Associação de Medicina no Porto, e a Associação Académica de Coimbra.

PORQUÊ?
Por que é nas suas associações democráticas que os estudantes estão representados, é lá que eles se reúnem livremente para resolver e discutir os seus problemas, para decidirem quais as suas posições face a Universidade e face a Nação.
O Governo, nas suas notícias para os jornais, apresenta os estudantes como meia-dúzia de cabeludos sempre prontos para fazer barulho, e para estudar cada vez menos; como uns meninos que provocam distúrbios a soldo de potências estrangeiras e que de caminho, gastam os dinheiros do Estado sem nada produzirem.
E isso É FALSO. O que os estudantes recusam é um ensino que não está feito para servir o povo.
O que se ensina nas escolas é que tudo corre bem, que vivemos no melhor dos mundos e que os estudantes, quando forem senhores doutores, devem esforçar-se por fazerem com que tudo fique como está. Mas não é só na Universidade que a propaganda das autoridades mente - ela também diz nos jornais, na rádio e na TV que somos um povo feliz e pacífico, e que isto das manifestações, das greves, etc., é lá fora.

E O QUE SUCEDE NA REALIDADE?
Sucede que as pessoas já não acreditam em tais "balelas" porque sabem que os preços sobem de dia para dia e que os salários não chegam, porque sentem na carne os filhos que morrem na guerra colonial e também sabem que, quando protestam, lá está a policia politica (PIDE) a ouvir e lá vem a policia de choque para restabelecer a pancada a tal "ordem" que faz com que meia dúzia de magnates sejam os únicos a lucrar com este estado de coisas.
O governo diz, de tudo o que sucede na Universidade, que é obra de agitadores pagos pelo estrangeiro. MAS A SOLDO DE QUEM ESTA O GOVERNO? Quem lucra chorudos lucros com a exploração e com a guerra colonial? - NÃO SÃO OS ESTUDANTES, NEM O POVO PORTUGUÊS!
A polícia, quando carrega, não defende a tranquilidade pública mas sim a paz podre dos que vivem do suor e do sangue da grande maioria da população.
São as empresas estrangeiras estabelecidas em Portugal e nas colónias e a grande burguesia que querem mais doutores e engenheiros para colaborar na exploração do povo, para defender as leis deles, os bancos deles, as grandes empresas deles, a guerra deles. Para que sejam cada vez mais eficientes nessa sua missão, fez-se a Reforma do Ensino e tenta-se, por todos os meios, fazer acreditar que essa Reforma serve todo o povo. MAS ISSO TAMBÉM E FALSO.
Quando o Governo reprime a actividade cultural das cooperativas também está a defender a cultura para toda a população? NÃO! Só lhe interessa uma cultura e um ensino rigidamente controlados, ao serviço dos interesses que defende.
Por isso, os estudantes colocam-se ao lado das cooperativas na luta contra o Decreto 520/71 que pretende tirar as cooperativas o poder de manter livremente secções culturais próprias.
Se o Governo está tão interessado em que os estudantes estudem porque é que encerram as Faculdades e os Institutos Superiores e Médios? É QUE não se trata, para o Governo, de fazer estudar mas sim evitar qualquer discussão sobre temas importantes, não só ligados a vida escolar mas também ao papel do estudante na sociedade portuguesa. É o caso das funções dos estudantes no exército colonial, como oficiais milicianos, que eles começam a recusar com cada vez maior intensidade,
Quando o Governo reprime com tanta violência o movimento dos estudantes na da mais vem mostrar do que medo.
É o pavor da reacção popular a subida do custo de vida, a manutenção dos salários baixos, ao prolongamento indefinido da guerra colonial em África que leva a repressão brutal e histérica. Hoje são os estudantes e cooperativistas, como ontem foram os médicos, como sempre são os operários, os camponeses e os empregados. A continuação da nossa luta necessita do apoio activo da população, a propaganda mentirosa tenta enganar diariamente.

SE NOS EXPULSAM DAS ESCOLAS, CONTINUAREMOS O COMBATE NA RUA, JUNTO DO POVO PORTUGUÊS, CONTRA A EXPLORAÇÃO, CONTRA A GUERRA E A OPRESSÃO.

Os estudantes de Lisboa

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