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quarta-feira, 17 de maio de 2017

1972-05-17 - SOBRE A ENTRADA DA POLÍCIA NO ISCEF EM 16 DE MAIO DE 1972 - Movimento Estudantil

Universidade Técnica de Lisboa
INSTITUTO SUPERIOR DE CIÊNCIAS ECONÓMICAS É FINANCEIRAS

RELATO DO DIRECTOR DO ISCEF APRESENTADO AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO NACIONAL EM 17 MAIO 1972

SOBRE A ENTRADA DA POLÍCIA NO ISCEF EM 16 DE MAIO DE 1972

Relato doa acontecimentos
   1.     Cerca das 17,15 horas, forças da P.S.P. chegaram diante das portas do ISCEP - rua do Quelhas e rua Miguel Lupi - estabelecendo apertado controle das entradas, de tal modo que tiveram dificuldade em o fazer vários professores e assistentes, bem como monitores e alunos, logo foi notado, por assistentes, o tom de dureza com que a P.S.P. actuava.
   2.     A pedido da A. Académica, um professor acompanhado do Presidente da Associação procurou pôr-se em contacto com o Director. Entretanto, agravava-se a situação junto da entrada da R. Miguel Lupi, vindo a informar, mais tarde, o capitão da P.S.P. que haviam sido atiradas algumas pedras contra um carro policial, quebrando um vidro. O referido professor falou com esse capitão que disse ter pedido ordem para entrar no ISCEP. Tudo isto foi comunicado telefonicamente ao Director, que prometeu seguir para o Instituto depois de proceder a algumas diligências para esclarecer a situação.
   3. Em nova comunicação telefónica, o Director informou ter recebido a indicação de que a P.S.P. não entraria no Instituto; ao pedido - dirigido ao comando da polícia de Lisboa - para retirar as forças, dado o perigo de enervamento mútuo de estudantes e guardas enquanto estes estivessem presentes, foi respondido que se temia uma concentração de alunos do I.S.T. no ISCEF, em seguimento dos acontecimentos verificados de manhã, e que a polícia estava a ser apedrejada.
   4. Em nova intervenção junto do capitão, verificou-se haver una contradição entre a ordem de entrada no Instituto (que o capitão disse ter recebido) e a indicação (prestada pela Director) de que a polícia não entraria. Com a chegada da polícia de choque - cerca de 60 agentes e seis cães - e a invasão do Instituto, pelas entradas da Miguel Lupi, verificou-se o arremesso de pedras por parte dos estudantes.
   5.     A invasão da cerca, das instalações da Associação Académica e das salas do próprio Instituto (Gabinete do Director, Sala de Professores e Assistentes, algumas salas de aula) pela polícia de choque foi feita com a maior violência e brutalidade, sem qualquer aviso prévio aos estudantes, por exemplo no sentido de saírem pacificamente do ISCEF. Deu-se cerca das 19 horas, e já pode ser testemunhada pelo Director e por numerosos membros do Corpo Docente - impotentes para deter tanta selvajaria.
   6.     A seguir, relatam-se a cenas de violência mais importantes de que se teve conhecimento, sendo os relatos provenientes de docentes em reunião com o Director do Instituto, imediatamente após os acontecimentos. Em muitos casos esses docentes - testemunhas - foram também vítimas das agressões.

Jardim e entradas do Instituto
São espancados e mordidos pelos cães da polícia vários alunos. Uma aluna, aparentemente inconsciente, encontrava-se caída no chão à entrada do edifício escolar. O largo corredor junto à sala do Conselho estava juncado de cadernos, livros e sapatos e óculos.

Sala de Professores e Assistentes
Um assistente aconselha calma aos polícias que chegam à porta desta sala e é insultado por um deles, Vários alunos são espancados à porta da sala, onde a polícia não consegue entrar devido ao número de pessoas que ali se encontravam. Alguns alunos saltam pelas janelas da sala.

Gabinete do Director do Instituto
Alguns alunos e docentes, não conseguindo entrar na sala dos professores e assistentes, refugiam-se neste Gabinete; são perseguidos e espancados pela polícia. As manchas de sangue espalhadas pelo chão e pelo mobiliário do Gabinete resultam dos espancamentos dos presentes. Alguns estudantes saltam pelas janelas da sala, cerca de 3 m, para onde são empurrados pela polícia. Um dos assistentes espancados nesta sala identifica-se como tal perante um dos polícias que o espancavam; um destes respondeu não lhe interessar tal facto.
Mesmo após terem terminado os espancamentos, os polícias continuaram a destruir o mobiliário do Gabinete.

Claustros
Um docente que identifica um assistente que se encontrava manifestado por cinco polícias é espancado, ficando a sangrar da cabeça.

Sala 32
A polícia invade a sala e espanca os alunos que ai se refugiaram. Alguns deles saltam pelas janelas da sala (3 a 5 metros altura).

Sala 46
A polícia invade também esta sala e espanca os alunos que se encontravam presentes. Alguns deles saltam pela janela (cerca de 4 metros de altura).

Cantina da Associação Académica
Vários alunos são espancados. As empregadas são ameaçadas. A polícia leva cartazes, comunicados e até livros de estudo. Estes são mais tarde devolvidos a pedido de docentes quando as forças policiais já se encontravam em formatura para abandonar o Instituto.

Pessoas feridas
Foram levados feridos para os seguintes estabelecimentos; segundo informações colhidas na quase totalidade por alunos, ali às 23h do dia 16 de Maio de 1972.
Clínica de S. Bento: o número de feridos esgotou a capacidade de prestação de primeiros socorros da Clínica; alguns dos feridos que ai acorreram tiveram de ser transferidos para outros estabelecimentos devido à gravidade do seu estado, com a informação do pessoal clínico do que o transporte so poderia ser feito em ambulância.
- Hospital de S. José: 15 feridos deram entrada neste hospital, um dos quais, segundo informações de clínicos do hospital, em estado extremamente grave.
- Hospital da C.U.F.: 1 ferido deu entrada neste hospital.
- Hospital de Sta Maria: 20 feridos deram entrada neste hospital. 6 dos quais com fracturas, uma das quais exposta.
- Hospital do Trabalho: 2 feridos deram entrada neste hospital.

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