quarta-feira, 3 de maio de 2017

1972-05-03 - SÓ SUSPEITOS E AGITADORES ÉRAMOS 8000 - Comités Operários - O Grito do Povo

SÓ SUSPEITOS E AGITADORES ÉRAMOS 8000

1 - Desde o dia 16 de Abril que os "Comités Operários" desencadearam uma intensa campanha de propaganda para a comemoração revolucionária do nosso dia no Porto; o 1º de Maio! Esse dia sagrado para todos nós, ninguém nos arrancara, festejá-lo-emos todos os anos seja de que forma for. É um dia que simboliza os milhares de camaradas caídos ao longo de mais de um século de luta vitoriosa do proletariado contra o Capital explorador.
Dezenas de milhar de panfletos distribuídos em média de 3 em 3 dias, nas fábricas, nas ruas e nos bairros, Contra a guerra colonial assassina, Contra a exploração capitalista, Contra a carestia da vida, por melhores condições de vida e de trabalho, pela democracia popular e o socialismo, pela Revolução do Povo. O dispositivo policial com que o nosso inimigo de classe invadiu as zonas operárias não valeu absolutamente de nada pois os trabalhadores participaram activamente na ampla divulgação da luz proletária, distribuindo, colando, fazendo circular os panfletos e espalhando oralmente as palavras de ordem que liam. Os trabalhadores sabem que com os "comités” estão lançadas as bases da sua organização revolucionária pela emancipação.
Centenas de inscrições cobriram os muros de muitas fábricas dizendo "Operário, ergue-te e luta", "Em frente pela Revolução Popular", "Viva o Grito do Povo", "Abaixo a Guerra Colonial Assassina", "Viva o 1º de Maio", "Todos ao 1º de Maio preparados para a luta", "Viva o Comunismo", "Uni-vos e revoltai-vos", entre muitas outras.
Os operários recusaram-se a apagar as inscrições, sendo o inimigo burguês obrigado a trazer os "chuis" para pintarem as paredes. Em várias fábricas encontraram a oposição activa dos trabalhadores.
Nas vésperas do 1º de Maio, com "niveas" a circularem pelas zonas operárias, "chuis" de 100 em 100 metros em algumas zonas à noite, e as recém formadas "brigadas nocturnas" da bofia, foram feitas inscrições em mais de uma dezena de campos de futebol e em muitas ruas e fábricas, enquanto o cartaz "Viva o 1º de Maio - Comités Operários - O Grito do Povo" foi amplamente colado, e mais panfletos de convocação do 1º de Maio foram distribuídos nas barbas dos agentes inimigos.
Os trabalhadores acolheram com a mais viva alegria a propaganda revolucionária da sua organização. Nas fábricas, nos bairros, nos locais de encontro, a propaganda foi largamente discutida, divulga da e apoiada.
Alguns dias antes do 1º de Maio, os camaradas do "Comité Revolucionário de estudantes comunistas" apoiaram e solidarizaram-se totalmente com o proletariado, distribuindo milhares de convocatórias para a Praça, na Universidade e em liceus.
2 - Por seu turno a burguesia em peso pôs em acção um aparatoso dispositivo contra-revolucionário. No inimigo de classe devemos distinguir dois sectores: a burguesia no poder, os grandes capitalistas, e a burguesia descontente, os pequenos burgueses, os revisionistas.
Os primeiros, a burguesia no poder, enquanto prosseguiam com colossais operações-stop de metralhadora, em punho, faziam batidas a domicílios em que nada conseguiram, e arranjavam um jogo de futebol transmitido pela televisão, publicaram na véspera uma "nota oficiosa" de intimidação dos trabalhadores em que diziam, entre outras tentativas de fazer recuar;
"As forças de segurança consideram, naturalmente, suspeitos os ajuntamentos de pessoas nos locais indicados para a concentração e que não obedeçam às suas instruções" e "Espera-se que as populações desencorajem os agitadores, deixando-os entregues, sozinhos à sua própria sorte".
Os segundos, os pequenos burgueses descontentes, os revisionistas tentaram com toda a gana evitar que fosse gente comemorar o dia dos trabalhadores. Fizeram isso no meio estudantil, mas no meio operário em que sabiam que seriam corridos, praticamente não se arriscaram. Elementos revisionistas chegaram a afirmar que o 1º de Maio "era um tradicionalismo parvo" e alguns foram ao ponto de dizer "que os papéis eram da pide" (estes últimos pode ser que se arrependam).
Numa tentativa feroz e impotente de prejudicarem a comemoração do 1º de Maio, tentaram arranjar reuniões de estudantes para a hora da concentração. Para disfarçarem, espalhavam no meio estudantil (!) um papel em que diziam apoiar "as lutas antifascistas" do dia. Como se enganassem alguém!!
3 - Às 19 horas, frente a um enorme dispositivo de polícia, cercando a Praça, escondidos, armados de pistola-metralhadora, com niveas em circulação por "toda” a parte e com todas as forças repressivas de prevenção, cerca de 8 000 trabalhadores compareceram em peso, decididos a concentrarem-se fosse como fosse, e a responder violentamente ao inimigo se este tentasse qualquer agressão. Não eram pequenos burgueses como uma boa parte dos que foram à manifestação de levar porrada de 15 de Abril (embora lá estivessem trabalhadores), mas eram desta vez proletários vindos das fábricas e dispostos a tudo. Hão iam pedir que acabasse a carestia de vida (como se fosse isso possível sem derrubar o capitalismo) nem iam esquecer a luta contra a guerra colonial. Iam lutar contra a carestia da vida, contra a exploração, pela Revolução Popular.
Se usássemos o paleio da nota do Ministério do Interior, seriamos 8 000 suspeitos e 8 000 agitadores. A presença em peso dos trabalhadores concentrando-se durante mais de uma hora, foi uma vitória proletária sobre o capitalismo e os revisionistas. Mostramos que conseguiremos unir-nos todos e que seremos invencíveis. Mostramos que não temos medo e desafiamos abertamente as intimidações da burguesia. Mostrámos que estamos dispostos a travar uma luta sem tréguas contra a exploração, a guerra colonial, a carestia de vida, a miséria. Mostrámos que estamos dispostos a conquistar a liberdade do Povo, a Democracia Popular e o Socialismo, a construir um país próspero e feliz eliminando o cancro parasita capitalista.
A concentração foi pois uma vitória proletária. Mas nem tudo foram rosas. Nós devemos dizer claramente, discutir e corrigir todos os erros e limitações. O contrário fazem os burgueses para nos enganar. Para nos só a verdade é revolucionária. Nós devemos conhecer as derrotas e vitorias, e aprender com as derrotas a conquistar novas vitórias. As massas trabalhadoras, os verdadeiros heróis, devem discutir não só as vitórias como também as derrotas. O que esteve bem e o que esteve mal. As rosas e os espinhos.
Houve coisas que estiveram mal e que prejudicaram a nossa vitória, que poderia ter sido maior. E o que vamos estudar.
Quais eram os objectivos do inimigo:
1 - Atemorizar e fazer recuar os trabalhadores, tentando pelo me do continuar a impor-lhes a ditadura burguesa e a exploração capita lista e evitar a revolta.
2 - Isolar, cercar e aniquilar a organização operária com vista a lançar-lhe severos golpes, prendendo ou matando muitos militantes e tentando assim evitar que a luta organizada continuasse.
Os revisionistas deram a estes objectivos da burguesia capitalista o seu assentimento não convocando a comemoração do dia dos trabalhadores e ajudando o inimigo a evitar a manifestação. Também estes esperavam a destruição da organização operaria, para poderem depois vir desviar a luta pela Revolução-operaria em proveito de uma luta para pôr no poder os burgueses que não estão contentes.
Estudados os objectivos do inimigo, considerando que o 1º de Maio é tudo pois a luta é prolongada, e tendo em conta as tentativas de isolamento dos revisionistas, os comités operários decidiram nas vésperas da luta o emprego de poucas forças organizadas dentro dos locais de possível cerco e aniquilamento dos militantes pela burguesia, colocando-se de prevenção contudo para intervirem no seio e ao lado das massas trabalhadoras se o inimigo atacasse.
Isto foi uma justa linha de actuação, pois a luta de classe do proletariado é uma longa luta, e só devemos arriscar todas as forças face ao inimigo quando somos muito mais fortes do que ele.
Mas isto não exclui erros que levaram a magnifica concentração a não se transformar em manifestação. Demos erros porque se devia ter gritado bem alto as palavras de ordem revolucionarias:
"Viva o 1º de Maio" "Abaixo a guerra colonial" "Morte ao capita­lismo" "Não à miséria" etc.
Se o inimigo tivesse atacado de início, os trabalhadores muitos deles preparados devidamente e enquadrados pelos Comités teriam feito conhecer o seu peso. Mas o inimigo teve medo, ao ver que não estava face a pequeno-burgueses, mas frente a proletários dispostos a vencer.
E ninguém começou! Ninguém deu um grito! E incrível, mas é verdade! Foi um grave erro! Porque demos esse erro?
- A organização operária - porque preparou, uma máquina demasiado rígida em que, por percalço, não tendo funcionado uma peça a maquina não trabalhou por não se conseguir adaptar a circunstâncias imprevistas. (Não é conveniente divulgarmos pormenores pois o inimigo ficaria a conhecê-los).
- As grandes massas trabalhadoras - porque, se mantiveram na expectativa sem tomar iniciativas o que não permitiu que as falhas fossem preenchidas.
Estes erros são resultado da pouca experiência que o proletariado tem de manifestações de rua. Se nos pegamos nos erros e os escondemos ou ficamos desmoralizados, então estamos a andar para traz e vamos repetir esses erros ou cometer outros piores. Mas se pegarmos neles, se os estudarmos e os corrigirmos para não os repetir, então os erros transformam-se num instrumento para termos vitórias e para conseguirmos a vitória final sobre o inimigo de classe.
É isso que devemos fazer. Discutir o que se passou e como proceder, para outra vez, que si vitória será nossa. Estamo-nos nas tintas para o que os revisionistas possam dizer. Eles podem tentar sabotar a nossa coragem revolucionária, mas não temos medo disso, porque de nos não levam nada,
A principal questão que temos de discutir é a luta contra o espírito de expectativa, contra estarmos à espera dos outros e não tomarmos a iniciativa. Se não tivermos poder de iniciativa, quando uma coisa preparada falhar, não a conseguimos substituir. Se tivermos iniciativa, as falhas serio sempre suprimidas.
Os nossos erros permitir-nos-ão conquistar novas e maiores vitórias! "A derrota é a mãe da vitória" diz o camarada Mao.
Alguns camaradas andam abatidos. Não há razão para isso. A concentração foi uma vitória. Pode-lo-ia ser maior. E será!
Camaradas a nossa luta é invencível! Dm frente na luta. Em fren­te pela Revolução Popular.
4 - A LUTA CONTINUA NA FÁBRICA
Não vamos estar à espera do próximo lº de Maio. Até lá teremos talvez outras manifestações de rua. Mas a nossa luta principal neste momento deve ser na fábrica, nos locais de trabalho. Há muita coisa a fazer. É preciso mobilizar para a luta toda a classe, empreender uma guerra sem tréguas, aos patrões, aos capitalistas, ao Estado burguês. Na fábrica, se nos soubermos unir conquistaremos vitórias sucessivas, reforçaremos a nossa unidade, aprenderemos novas experiências, desenvolveremos a nossa organização operária.
Proletários, preparemos e desencadeemos greves e outras formas revolucionárias de luta. Exijamos aumentos, melhores condições de vida e de trabalho. Organizemo-nos clandestinamente e arrastemos connosco todo o Povo revolucionário.

VIVA O PROLETARIADO!
MORTE AO CAPITALISMO!
EM FRENTE PELA REVOLUÇÃO POPULAR!

3/ Maio/72
COMITÉS OPERÁRIOS

Sem comentários:

Enviar um comentário

1977-06-00 - ER Boletim Nº 01

O QUE É E PARA QUE SERVE ESTE   BOLETIM Os militantes sem partido da Unidade Popular são um largo conjunto de militantes revolucioná...

Arquivo