Translate

sexta-feira, 5 de maio de 2017

1972-05-00 - AS LISTAS VÃO NUAS (3) - Movimento Estudantil

ELEIÇÕES: (3)
AS LISTAS VÃO NUAS

DO TRABALHO INFORMATIVO E CULTURAL

1 - Como referimos nos dois textos anteriores, "Luta Pedagógica a Consciência dos Estudantes" e "A Luta Contra a Repressão é um Papel de Tornesol para todos os Oportunismos", tanto uma luta como outra (e elas têm sido os eixos da luta de massas estudantis, nos últimos anos), sofrem de limitações essenciais; em ambas, os estudantes nunca ultrapassam na prática as relações com a escola e com aspectos do aparelho repressivo do governo. Daqui resulta que lhes é impossível, adquirir a partir dessa prática uma compreensão clara e progressista do que faz mover a sociedade, e de qual é afinal o significado para a sociedade dessas próprias lutas. Dissemos também que, restringidas a si próprias, essas lutas mais não contribuem com os seus resultados objectivos do que para melhorar O ensino, adaptando-o melhor ao desenvolvimento da indústria, e dai ao reforço da exploração dos trabalhadores; mas apontamos ainda que no entanto, se desenvolvidas com consequência e firmeza, elas acresciam a experiência da Luta dos estudantes, a sua combatividade e capacidade de crítica permitindo, assim a ligação das AAEE às massas estudantis.
Portanto, se as lutas referidas não permitem por si só acrescer significativamente a consciência dos estudantes, como poderá uma AE elevar essa consciência, objectivo este que quanto a nós deve ser a principal finalidade do Movimento Associativo? Desenvolvendo uma correcta prática de informação e um trabalho cultural progressista.
Com uma prática correcta de informação, queremos dizer uma informação que se refira ao máximo de acontecimentos concretos, acontecimentos não apenas internos (pedagógicos), não apenas estudantis (federativos, "europeus”, etc,), mas acontecimentos também sociais (lutas concretas dos trabalhadores, repressão sobre elas, etc.) e mundiais (guerras imperialistas, etc.). Mas não basta informar de factos. Desligadas como então da produção económica, os estudantes não podem compreender directamente a partir de tais informações que as relações sociais a que se referem encerram profundas contradições globais, que assentam no modo de produção desta sociedade. Por isso o informação, além de concreta a rica em factos diversos, deve ser cuidadosamente perspectivada, isto é, sempre integrada numa visão de conjunto da sociedade, considerada em mutação constante. É esta a condição para que a informação possa ultrapassar as interpretações parciais mutiladas e estáticas de que os estudantes são impregnados através de todos os canais ideológicos que as classes possuidoras controlam, - directa ou indirectamente (escola primária, liceu, meios do comunicação, família, etc.), o que visam, evitar a tomada das posições progressistas.
O mesmo queremos dizer quando falamos do necessidade dum trabalho cultural progressista| ele distingue-se da prática informativa no medida em que exige um esforço mais profundo de interpretação teórica, que se refere a questões mais gerais e fundamentadas num maior número de dados. Mas, assim como na prático informativa, o trabalho cultural deve integrar cada questão numa visão progressista da sociedade, isto é, em que esta seja considerada no seu conjunto (conjunto da luta de classes) e no seu desenvolvimento histórico.
2 - Claro que não é assim que pensa nem que age a Direcção; Segundo o que a Direcção repete sempre que tem oportunidade (RGAs, Binómios, etc.), "a consciência dos estudantes vai evoluindo dos interesses imediatos à compreensão da sociedade, pela prática, a partir dos problemas imediatos" etc. O erro da Direcção é não ver que a diferença que há entre as contradições que se geram entre os estudantes e o Governo e as contradições que opõem as diversas classes da população, são compreendidas e resolvidas por modos diferentes, o que sendo assim, ao consciencializarem-se das contradições que lhes dizem imediatamente respeito, os estudantes não se consciencializam automaticamente das outras. Na prática, a Direcção deixa a consciência social dos estudantes entregue à ideologia reaccionária das classes dominantes, visto não fazer qualquer trabalho de informação coerente e perspectivada para não falar do trabalho cultural...
Vimos já no texto "Por um reforço do movimento", que a ausência de um trabalho informativo e cultural como o que referimos (naquele caso concreto, respeitante à Reforma), leva ao enfraquecimento das próprias formas de luta pedagógica a contra a repressão por parte das massas. Também é verdade que o reforço dessas lutas, como adiantámos no texto 1 o no início deste, ao aumentar a combatividade e a capacidade de crítica dos estudantes, os leva a uma maior receptividade ao trabalho cultural e de informação. Na realidade, embora distintos, estes trabalhos ligam-se, transformando-se mutuamente, tendo apenas per resultado o reforço do movimento. Mas a Direcção não compreenda isto assim. E embora venham agora os colaboradores a ela afectos (lista B) defender a realização futura desse trabalho, como o apresentam? Apenas como uma necessidade pura o reforço do trabalho pedagógico. Vemos já assim que, além de com isso não se definir a prospectiva que terá esse trabalho (será feito como o que atrás defendemos? Não se sabe), já à partida se lhe restringe o âmbito.
Pelo mesmo caminho vai a lista A. Em 6 textos nem uma única referência ao trabalho cultural, nem uma única alusão à perspectiva a dar à informação; se tão pouca importância se dá a estes aspectos, de modo a não merecerem apreciação, a única coisa a deduzir, é que, na senda da direcção, certamente só irá entregar a consciência dos estudantes à reacção. De resto, uma característica do programa desta lista é a indefinição: não se fala na perspectiva da informação, na perspectiva do trabalho cultural, na perspectiva da luta contra a repressão; só a posição face à Reforma é claramente definida, e num próximo texto a abordaremos, conjuntamente com o texto "Por um Ensino Popular ou Reforma Democrática do Ensino?".

(Nota: Embora assinado "Um Grupo de Estudantes do Técnico", nada temos a ver com este texto, a nossa sigla tem sido "Eleições? As Listas Vão Nuas!").

Maio 1972
Um grupo de estudantes do Técnico

Sem comentários:

Enviar um comentário