quinta-feira, 4 de maio de 2017

1972-05-00 - AS LISTAS VÃO NUAS (2) - Movimento Estudantil

ELEIÇÕES: (2)
AS LISTAS VÃO NUAS

A LUTA CONTRA A REPRESSÃO É O PAPEL DE TORNESOL PARA OS OPORTUNISMOS

A luta contra a repressão é um dos pontos mais importantes da acção das Associações de Estudantes, pela sua riqueza tanto em formas de luta como em conteúdo. Por um lado, a luta contra a repressão é uma luta unitária dos estudantes, uma luta que ultrapassa a separação dos cursos, dos anos ou das escolas. Por outro lado, é uma luta que faz sair a prática estudantil do âmbito restrito da luta pedagógica, dos seus problemas de curso, e que, ao opor-se frontalmente à política governamental, permite que os estudantes se apercebam de algumas características dessa política, e avancem uns passos na compreensão global da sociedade portuguesa e dos mecanismos da sua transformação. Isto, é evidente, se toda a luta for acompanhada do aprofundamento do significado dessa repressão, isto é, por quem é exercida e contra quem.
Mas então porque reprime o governo o movimento dos estudantes? Em que é que este movimento vai contra os interesses que o governo defende?
Primeiro aspectos as lutas que os estudantes estão o travar são um obstáculo à aplicação pacífica e sem entraves da Reforma. Esta Reforma servo, em traços gerais, para que o ensino e os seus produtos (os possuidores do "canudo") sirvam melhor as necessidades de desenvolvimento da grande industria, isto é, as necessidades dos grandes industriais. Porque, em Portugal 1972, em que subsiste a posse privada dos meios de produção, quem é que lucra com o desenvolvimento desses meios de produção? Será a maioria da população, serão os trabalhadores, que afinal são aqueles que fazem andar as fábricas, trabalham nos campos, etc., isto é, aqueles que produzem? É evidente que não; quem lucra são os detentores desses meios da produção, afinal aqueles que o governo representa. Portanto, o que a Reforma visa é o aperfeiçoamento da exploração dos trabalhadores, que tem como consequências imediatas uma ainda maior degradação das suas condições de trabalho, o intensificar das cadencias até um ritmo infernal, etc. Este aperfeiçoamento da exploração, este retirar do lucros sempre maiores, que se faz à custa da maioria trabalhadora, é condição indispensável para a minoria exploradora poder continuar e consolidar a sua dominação (ao mesmo tempo, esse desenvolvimento vem formar as condições materiais que permitem o derrube dessa dominação de minoria, mas não cabe desenvolver esse ponto aqui).
Portanto, ao reprimir os entraves à aplicação da Reforma, o que o governo visa ó defender a perpetuação da exploração dos trabalhadores, e aniquilar tudo o que se oponha ao desenvolvimento dessa exploração. Se nos anos anteriores, de "preparação" da Reforma, o governo não se opôs grandemente às lutas pedagógicas dos estudantes, sabendo canalizá-la contra as forças estáticas que se opunham à Reforma e, portanto, ao desenvolvimento da indústria (caso de grande parte do corpo de catedráticos da Universidade Clássica), agora que o governo já pode fazer andar sozinho a Reforma, estas lutas tornam-se num perigo não compensatório, pelo que há que reprimi-las. E assiste-se assim este ano a uma intensificação da repressão sobre as movimentações, mesmo pedagógicas.
Mas há outro aspecto da repressão, que visa já não somente as movimentações: e as suas consequências imediatas, mas as consequências mais gerais do Movimento Associativo na sua globalidade; isto é, os ganhos de consciência das massas estudantis acerca dos problemas da sociedade em que vivem. E assim, reprimem-se directamente as Associações e os estudantes mais activos.
Efectivamente, os estudantes, uma vez acabados os seus estudos, vão desempenhar papéis de relevo tanto no exército (oficiais) como na produção (técnicos especializados). Para esses cargos são imprescindíveis pessoas que aceitem sem hesitar as ordens que lhes dão, que nunca ponham em causa o papel que eles e as estruturas em que estão integrados realmente desempenham e a quem é que servem. Ora, isto é absolutamente contraditório com o desenvolvimento da compreensão da realidade social, compreensão na qual os estudantes vão avançando com o desenrolar das suas lutas, desde que correctamente perspectivadas. Em suma, o que o Governo pretende ao reprimir as Associações é impedir que haja estudantes que, vindo a integrar-se na corrente progressista de transformação social, venham a pôr em causa o poder dos senhores que o Governo representa, venham a pôr em causa a exploração da maioria da população por uma minoria.
Aclarámos então alguns pontos sobre o significado da repressão. Mas como é que, espontaneamente, tendem os estudantes a encarar esse significado? Ao desenvolver a luta contra a repressão os estudantes não podem, a partir dessa mesma luta e espontaneamente, aperceber-se de tudo o que a repressão significa, isto é, por quem é ela exercida, e, para além de todas as aparências, quem é que ela visa. Isolados da produção, não é possível aos estudantes verem (na sua prática) que é na base desta produção que se estrutura os interesses sociais e as relações entre os homens, entre os quais avulta a repressão. Por isso, a sua tendência natural é a de acreditarem que a repressão que sofrem se deve a qualquer motivo moral, ideal, etc., e que nada tem a ver com toda a estrutura da sociedade, mas apenas com as pessoas que (acidentalmente) estão no Governo.
Por tudo isto se vê a necessidade de encetar imediatamente uma mobilização à volta da repressão, mobilização acompanhada de um aprofundamento das questões que ela levanta. Mas qual é a posição das orientações que se digladiam pela direcção do movimento?
A linha da Direcção tem sido a de cruzar os braços. Defendendo a curiosa tese de que "se a repressão visa isolar a vanguarda das massas, combatamos a repressão ligando-nos às massas", a Direcção tem procurado a todo o custo impedir que os estudantes se defendam. Escusado será dizer que aquela tese está erradas as contradições estudantes/repressão governamental e estudantes/escola são diferentes, e como tal resolvem-se por métodos diferentes; a última resolve-se na luta pedagógica, a primeira na luta directa contra a repressão; e (evidentemente) em qualquer dos casos a vanguarda se deve unir às massas, caso contrário não existe luta de massas. É, com base neste erro, vai na prática a Direcção liquidando alegremente o movimento, lutando por impedir que os estudantes saibam até da existência da repressão sobre 7 (sete) AAEE, inúmeros colegas, etc., colando-se afanosamente -ao horizonte pedagógico.
Aproveitando-se das limitações referidas atrás sobre o que os estudantes podem apreender na prática sobre a repressão, e com base na "pedagogismo” da Direcção, vem a lista A defender e luta contra a repressão mas limitando-se à sua denúncia factual e à imobilização meramente activista, isto é, sem nunca procurar esclarecer a fundo qual a raiz do problema. Escamoteando constantemente que a repressão é um aspecto do poder de uma classe (a possuidora) sobre outra (a trabalhadora), a lista A apresenta a repressão como algo que cai do céu, provavelmente devido à maldade dum punhado de indivíduos que por acaso estão no Governo, e a qual se deve combater por solidariedade moral. Deste modo, a lista A impede que os estudantes elevem a sua consciência para além do horizonte que rodeia a escola e o conjunto de pessoas que está no Governo, de modo a aperceberem-se do verdadeiro significado dessa violência no conjunto da sociedade, única consciência que lhes permitirá tomar posições de facto progressistas e firmes.
A luta contra a repressão é uma prática que permite, se acompanhada por um trabalho de esclarecimento como atrás descrito, elevar substancialmente a consciência dos estudantes acerca do carácter do poder governamental. Não é esta a linha da lista A, que escamoteia o significado global da repressão; não é esta a linha da Direcção, que se recusa a combater a própria repressão. Ambas as linhas contribuem para o enfraquecimento do movimento. Se queremos combater este enfraquecimento, torna-se necessário encetar-mos uma luta decidida e em moldes correctos contra a repressão.

Maio 1972
Um grupo de estudantes do Técnico

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