terça-feira, 2 de maio de 2017

1972-05-00 - AS LISTAS VÃO NUAS (1) - Movimento Estudantil

ELEIÇÕES: (1)
AS LISTAS VÃO NUAS

No momento em que o traço dominante do Movimento Associativo, é a fraqueza das suas lutas, a desmobilização das massas e a fraca consciência das suas vanguardas, é de fundamental importância esclarecer certas questões de princípio, criticando todas as orientações oportunistas que actualmente grassam pelo Movimento e que contribuem objectivamente que este se afunde cada vez mais.

A LUTA PEDAGÓGICA E A CONSCIÊNCIA DOS ESTUDANTES
Ao desenvolverem os seus processos pedagógicos, os estudantes opõem-se a determinadas características das instituições escolares. Combatendo a alta selecção, a forma passiva (dogmática) como o ensino é ministrado, ou ainda o intenso ritmo de trabalho que o ensino exige, os estudantes combatem as limitações da escala. Em todos os casos, há uma característica comum a estas lutas, sejam quais forem os objectivos por elas prosseguidos: as relações que os estudantes desenvolvam nunca ultrapassam o quadro profs.+autoridades escolares — estudantes, quadro de relações que do ponto de vista do conjunto da sociedade, é de uma grande estreiteza. Isto significa que é impossível aos estudantes atingirem, a partir destas lutas meramente pedagógicas, uma compreensão efectiva e global da sociedade e do papel objectivo que a escola e eles nela desempenham (i. e., a quem serve o Ensino), e menos ainda a consciência de, qual é o sentido inevitável da evolução histórica desta sociedade.
Não foi outro o trabalho desenvolvido pela Direcção. Não compreendendo nada disto, sempre a Direcção defendeu que "a consciência e os interesses dos estudantes vão progredindo na prática de luta a partir dos seus interesses imediatos" (se não são estas as palavras 6 esta a ideia). O que acontece o que as contradições que se geram entre os estudantes e a escola são de um tipo muito mais estreito do que as que existem entre as grandes classes sociais, as quais assentam nas contradições da economia capitalista, com a qual os estudantes, restringidos a escola, não têm nenhum contacto. Assim, a Direcção erra na análise: acredita que a partir duma contradição como a de estudantes-escola (luta pedagógica) se pode vir a compreender qual o modo de resolução das grandes contradições da nossa sociedade. E a partir deste erro desenvolve uma prática oportunista; limitando a luta sem lhe alargar as prospectivas impede que os estudantes compreendam o seu verdadeiro papel na sociedade o as contradições desta. O resultado desta actuação está à vistas a baixa consciência das massas, a sua receptividade à ideologia dominante que procura dar uma visão mutilada e estática da nossa sociedade, e daqui a sua fraca combatividade prática, a sua incapacidade para se defenderem da ofensiva governamental.
Mas eis que uma nova alternativa se levanta, a lista A! Será que esclarece devidamente as limitações da luta pedagógica? Não, num certo sentido aproveita-se delas. Aproveitando-se de que, apenas na luta contra as instituições escolares e os aspectos concretos da aplicação da política educacional (tomadas em si, isoladamente),é impossível aos estudantes atingirem uma consciência efectiva e global do papel que essas instituições e política realmente desempenham na sociedade portuguesa, o que faz a lista A? Apenas isto: ao mobilizar as massas estudantis, procura convencê-las de que estão afinal a lutar pela "democratização do ensino". Fazem o que se chama uma análise "liberal": defendem que melhorar o ensino é "democratizá-lo”, esquecendo as condições reais da sociedade portuguesa, que impedem que a maioria trabalhadora ganho alguma coisa com essa molharia; e fazem o que se chama uma prática reformista, que ao fim e ao cabo só leva ao aperfeiçoamento de certos aspectos parcelares da estrutura do ensino, a adaptá-lo ainda melhor as "necessidades de desenvolvimento", isto é, na realidade, às necessidades da minoria exploradora.
Vimos que a luta pedagógica se desenvolve em quadros demasiado estreitos para que a partir dela os estudantes possam adquirir uma elevada consciência social; vimos como, limitando-se a isto, a Direcção abandona na prática os estudantes às ideologias reaccionárias; e como a lista A, com base nestas limitações procura inculcar nos estudantes falsas concepções sobre o significado das lutas e sobre a sociedade. No entanto, não significa isto que devamos desprezar a luta pedagógica. Apesar das suas limitações, a luta pedagógica, ao defender os interesses dos estudantes quanto a um ensino menos embrutecedor, acresce a combatividade, a experiência de luta e a sua capacidade de crítica, contribuindo assim, como foi esclarecido pelo IV Seminário de Estudos Associativos, em 1968, para enraizar as AAEE nas largas massas estudantis.

Maio de 1972
Um grupo de estudantes do Técnico

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