domingo, 30 de abril de 2017

1977-04-30 - Última Página

l.° DE MAIO:
Um dia de protesto na vida do trabalhador
Por EDGAR RODRIGUES

Às 11 horas e 50 minutos do dia 11 de Novembro de 1977 faz 90 anos que foram enforcados na prisão de Chicago, América do Norte, Adolfo Fischer, Jorge Engel, Augusto V. T. Spies e Albert R. Parson, Luiz Lingg, o quinto condenado à morte, suicidou-se dentro da prisão na véspera do enforcamento.
Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) votará no seu Quarto Congresso Mundial, realizado em Genebra, no mês der Setembro de 1866, com a presença de 60 delegados de diversos países, a jornada diária de 8 horas de trabalho. O facto estremeceu a sensibilidade da burguesia industrial e comercial de então, que ganha desde logo o apoio incondicional dos governos nos países onde a reclamação se fizesse ouvir.
Em Nova Iorque, a secção da AIT reuniu-se no ano de 1871 e convocou os trabalhadores para a greve geral. O patronato; avisado pela imprensa e pela polícia, reage e recebe a pronta ajuda do governo. O proletariado é obrigado a recuar.
Em Outubro de 1884, a Federação de Agrupamentos do Comércio e Uniões de Trabalhadores dos Estados Unidos, decidem em seu Quarto Congresso, realizado em Chicago, levar a cabo a reivindicação e lançar mão do recurso da greve geral, ficando marcado o dia 1.° de Maio de 1886.
Nos quase dois anos que antecederam o dia marcado, o proletariado desenvolveu uma campanha de esclarecimento em todos os locais de trabalho. E seus jornais justificavam o movimento como uma reivindicação justa e humana. Mas se o proletariado pôde preparar-se para a grande batalha, os patrões também se organizaram para combater as «exigências» dos trabalhadores. Mobilizaram a imprensa burguesa e esta investe contra os trabalhadores mais conhecidos por suas ideias libertárias, em sua maioria estrangeiros e denuncia-os à opinião pública e à polícia como se fossem criminosos. Alguns jornais como «The Chicago Times», «The New York Herald», «The Indianápolis Journal», «The Chicago Tribune» e outros, denunciam a «existência de bombas e rifles nas residências dos operários» e chamam a «polícia a cumprir o seu dever».
A campanha contra os anarquistas, contra o «agitador estrangeiro», mobilizou as autoridades, exaltou o patrioteirismo de certos americanos que se uniam ao governo e à burguesia sem pátria!
Ao aproximar-se o dia marcado, os 500 mil habitantes de Chicago viviam um estado de expectativa e de grande tensão. A imprensa burguesa havia predisposto as duas forças — Capital e Trabalho — para um choque eminente, apesar das ponderações dos promotores da greve.
No dia 1.° de Maio é declarada a greve geral. Faz uso da palavra Albert Parson, Augusto Spies, Samuel Fieldem e Miguel Schwab visando demonstrar as razões do movimento.
No dia 2 de Maio fala Adolfo Fischer e quando Miguel Schwab principia a explicar aos presentes o sentido humanista da greve, a polícia dissolve o comício pela força das armas e a patadas, cavalares. Apesar da violência das autoridades, no dia 3 os trabalhadores voltam a reunir-se em praça pública, desarmados, com fins pacíficos como das vezes anteriores. A polícia encontrava-se psicologicamente preparada pela imprensa. Atiçada pelos industriais investe furiosamente contra a multidão pisoteando centenas de pessoas e mata diversos operários em frente à fábrica Mac Cormick. A brutalidade mereceu do proletariado um protesto que aparece assinado por Spies e tinha o seguinte teor: «A guerra de classes está declarada. Alguns operários foram assassinados diante do estabelecimento de Mac Cromick. O seu sangue brada: vingança! Não há mais dúvida.
«As feras que nos governam têm sede de sangue dos trabalhadores! Os operários, porém, não são reses em matadouro! Ao terror branco responderão com o terror vermelho!
«É preferível morrer a viver na miséria! Já que nos varrem à bala, daremos tal resposta que os nossos patrões se hão-de lembrar por longo tempo. A situação obriga-nos a pegar em armas. Ontem à noite, quando as mulheres choravam pelos filhos e maridos e as crianças choravam pelos pais mortos pelas balas dos assassinos, os ricos enchiam os copos e bebiam nas luxuosas residências em brindes aos facínoras da ordem social!
«Enxugai as vossas lágrimas, mulheres e meninos que chorais! Escravos, alçai o coração!
«Viva a insurreição!»
No dia 4 de Maio, os trabalhadores voltam novamente à praça Haymarket desarmados como nos demais comícios, apesar do manifesto de Spies.
O primeiro a falar foi Augusto Spies seguido de Parson e, quando falava Samuel Fielden, aparece a polícia a cavalo, fortemente armada, e, no instante em que principia a espadeirar o povo, mão misteriosa joga uma bomba que mata e fere vários operários e um policial. O gesto aviva o instinto psicopata dos cavalarianos e massacram homens, mulheres e crianças indistintamente. Colhida de surpresa, a multidão presente ao comício foi piso­teada, esmagada pelas patas dos cavalos da lei ou varadas pelas baionetas e balas da polícia.
Em seguida, desencadeia-se a caça aos promotores do movimento. São presos Spies, L. Lingg, Fischer, Engel e Parson e condenados à morte no dia 20 de Agosto. Óscar W. Neeb condenado a 15 anos de prisão, Samuel Fielden e Miguel Schwab a prisão perpétua. A pátria ianque estava salva...
O capitão John Bonfield, e os civis Séliger, Jasen e Shea, foram as principais testemunhas de acusação, e segundo ficou provado mais tarde, foram bem pagos para «facilitar» a condenação dos «réus». Na acusação destacou-se o promotor público, Grinnell que soube escolher os jurados entre inimigos ferrenhos dos anarquistas, orientados pelo «ilustre» juiz Gary.
Defendeu os trabalhadores o capitão-advogado Black, mas os 8 anarquistas haviam sido condenados por antecipação. Tinham cometido o crime de pleitear as 8 horas de trabalho e em troca o governo condenava 8 dos mais activos militantes operários!! !
Anos depois, as 8 horas de trabalho diárias foram decretadas na América do Norte e noutros países, e para satisfação de todos os que acreditavam na inocência dos anarquistas condenados, puderam ler na imprensa americana, a mesma que enxovalhara os trabalhadores, estas verdades: «Os condenados foram vítimas de uma odiosa maquinação preparada e desenvolvida sistematicamente com o objectivo exclusivo de levá-los ao patíbulo. Foram julgados e condenados por um tribunal ilegalmente constituído e a despeito das indignas maquinações do juiz, o tribunal não pôde demonstrar a culpa dos condenados. Tal ferocidade não têm precedentes na história... Considero um dever iniludível, nestas circunstâncias, e pelas razões antes expostas, proceder de acordo com estas conclusões, e ordeno hoje, 25 de Junho de 1893, que se ponha em liberdade incondicional: Samuel Fiel­den, Óscar W. Neeb e Miguel Schwab. O governador do Estado de llinois, Joahm P. Altgeld.»
Três libertários foram restituídos ao seio das suas famílias mas os condenados à morte não ganharam outra vida.
O proletariado português também não ficou alheio à luta pelas 8 horas de trabalho. De 1852 a 1909 declarou 15 greves, todas com vista a reduzir a jornada então oscilante entre 12 e 14 horas por dia.
Mas o movimento pró 8 horas intensificou-se a partir de 1910, e até 1925 os trabalhadores já tinham deflagrado 87 greves. O governo republicano cedeu às reivindicações (decreto 5516, de 7-5-1919) operárias mas os patrões por muitos anos ainda achavam meios de respeitar as 8 horas, de burlar a lei e nisso o governo estava sempre ao lado deles.
«A Batalha» (diário da manhã, porta-voz da organização operária portuguesa) protestou inúmeras vezes contra o abuso dos patrões. Em seu número de 18-7-1922 publicava: «As 8 horas em perigo. O operariado deve preparar-se para defender uma regalia ameaçada por um regulamento monstro.
«Um ministro ávido de deixar pela pasta do trabalho uma triste ideia, deliberou impor aos que trabalham, um regulamento, cujo objectivo principal é reduzir à pulverização o dia normal das 8 horas de trabalho. Chama-se ele Vasco Borges, é criatura capaz de não confessar incompetência para gerir qualquer das pastas que a intriga política delibere entregar-lhe.»
E continua: «As 8 horas de trabalho são uma conquista realizada pelo proletariado em 50 anos de persistentes e ensanguentadas lutas. Foi o esforço operário, o sacrifício operário, a energia operária, quem as conquistou após sucessivas lutas contra o Estado e contra o patronato.
Pois é agora o Estado que as pretende aniquilar.»
Ao proletariado português, tal como aos trabalhadores americanos, as 8 horas de trabalho e sua manutenção, também custaram derramamento de sangue, preço alto demais para esquecer tão depressa!!! Por isso o 1.° de Maio não pode ser convertido num dia de «festa». Para o proletariado consciente só pode ser um dia de PROTESTO!!!

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