sábado, 29 de abril de 2017

1977-04-29 - Revolução Nº 106 - PRP-BR

POR UM 1.° DE MAIO DE UNIDADE E LUTA

O AUMENTO DO CUSTO DE VIDA
A situação de crise económica em que Portugal se tem afundado tem antes de tudo uma consequência   o aumento do custo de vida o qual não pesa sobre as bolsas da burguesia, mas sim sobre as bolsas dos trabalhadores.
Este aumento do custo de vida, que tem sido uma das características do actual Governo, deve-se à recuperação capitalista que tem sido levada a cabo pelo Governo PS. Este Governo tudo tem feito para roubar aos trabalhadores o que por estes foi conquistado e para repor nas mãos da burguesia nacional e internacional aquilo que a esta tinha sido retirado pelas lutas dos trabalhadores portugueses. Entre estes dois lados da batalha, o dos trabalhadores e o do imperialismo, o Governo PS tem escolhido sem hesitações o último.
Se o peixe e a carne estão a um preço insuportável para os trabalhadores, se o leite e o pão aumentam de preço, se todos os géneros alimentícios ao fim e ao cabo aumentam dia a dia, é porque a Agricultura, as Pescas e a Indústria não são pensadas e planeadas no sentido de beneficiarem os trabalhadores, mas são-no, sim, no sentido de serem totalmente recuperadas pelo sistema capitalista.
Sabemos que os sacrifícios seriam necessários num período de transição para o Socialismo em que toda a economia estaria em fase de reconstrução no sentido socialista revolucionário. Mas esses seriam sacrifícios de todos e por um futuro diferente. Hoje quem se sacrificam são só os trabalhadores e sabem que por este andar os espera um futuro sempre pior.
Apresentamos um quadro comparativo dos preços de alguns dos produtos de primeira necessidade em Maio de 1975 e Maio de 1977.
Dado que os salários em 1975 estavam já praticamente ao nível a que estão hoje, o quadro é claramente elucidativo do aumento do custo de vida que se tem verificado nos últimos tempos

O IMPERIALISMO
No entanto a situação económica deste país é tão precária que não é pelos benefícios económicos imediatos que o Imperialismo daqui retira que este tem feito um tal esforço para se segurar em Portugal.
O interesse do Imperialismo neste país é de ordem estratégica. O interesse do Imperialismo é sobretudo impedir a Revolução aqui, pois sabe que a existência dum Poder revolucionário em Portugal transformaria a face do mundo, pois contagiaria toda a Europa Ocidental e seria um elo de ligação com os restantes países anti-imperialistas, muito particularmente com as ex-colónias portuguesas. É esse perigo que o Imperialismo teme e é por causa dele que fará todos os esforços para manter Portugal na sua órbita, mesmo que tenha que ir até ao emprego do fascismo.
E a verdade é que não há meio termo em questões de estratégia internacional. Ou se é anti-imperialista ou se é pró-imperialista. A lógica da economia e a lógica das armas e dos pactos militares é implacável. E Mário Soares e o seu Governo têm escolhido pelo domínio económico do Imperialismo e pelo domínio da NATO, pacto militar de defesa do Imperialismo. Neste domínio, Portugal está à venda e a ingerência do Imperialismo aqui é descarada. Mário Soares bate à porta dos vários países do Imperialismo, tanto na Europa como na América, pedindo a esmola de empréstimos que se fazem à custa da imposição do domínio económico estrangeiro aqui. E o imperialismo irá impondo condições, como seja a do congelamento dos salários dos trabalhadores portugueses.

A REFORMA AGRÁRIA
A existência de Unidades Colectivas de Produção e de Cooperativas nas zonas de antigos latifúndios significa uma grande conquista dos trabalhadores rurais, que assim deixaram de ser explorados pelos donos das terras. Não significou, no entanto, a socialização, pois que não pode haver ilhas socialistas dentro duma estrutura capitalista. Não há socialização sem os trabalhadores estarem no Poder.
E foi por os trabalhadores não estarem no Poder que a posse das terras não foi irreversível e que foi possível ao actual Governo reocupar para os latifundiários terras ocupadas pelos trabalhadores.
A política do ministro Barreto tem sido uma política de recuperação capitalista nos campos, tudo fazendo contra os trabalhadores e a favor dos interesses privados. Por outro lado, a política deste Ministério tem tido por objectivo o retalhamento das terras sempre que é possível, transformando trabalhadores rurais em pequenos e médios proprietárias, estimulando nos seareiros e rendeiros a defesa da propriedade privada, fazendo tudo para que a Unidade Colectiva não seja uma realidade. A política deste Ministério é anti-socialista. E tal como se comporta em relação à agricultura, de igual modo se comporta este Ministério em relação às pescas, prejudicando pescadores e consumidores, em benefício dos intermediários.

EMPRESAS EM AUTOGESTÃO E INTERVENCIONADAS
Estas empresas também não podem ser ilhas socialistas numa estrutura capitalista. É assim que estão a ser afogadas pelo sistema, conduzindo para o desemprego milhares de trabalhadores. A perspectiva do Governo em relação a estas empresas é a da «viabilidade» e a da «rentabilidade» capitalistas e todo o seu esforço e manobras são feitos no sentido de as recuperarem para as mães dos antigos patrões.
Para tal tudo têm usado, desde não ser facultado o crédito até à chantagem de porem os trabalhadores entre a espada e a parede, tendo que escolher entre o regresso dos patrões e o desemprego.

O DESEMPREGO E OS DESPEDIMENTOS
Atinge meio milhão de trabalhadores despedidos ou sem emprego. A política económica deste Governo tem conduzido ao encerramento de empresas nacionais e estrangeiras, sem que se abra qualquer perspectiva aos trabalhadores despedidos.
A enorme percentagem de desempregados entre os trabalhadores faz com que em cada família, para além das consequências dos baixos salários e do aumento do custo de vida, se faça sentir o peso daqueles que não têm trabalho, mas que têm que comer.
E isto deve-se a uma política em que a planificação não é feita no sentido do pleno emprego, no sentido da reorganização da economia pensando antes de tudo nos interesses dos trabalhadores.
A existência deste enorme exército de desempregados faz também e sobretudo com que o patronato saiba que isso lhe faculta uma mão-de-obra barata, visto que os trabalhadores acabam por ter de escolher entre baixos salários e a ausência total de salários, optando pelos primeiros para não morrer de fome. É esta a lógica capitalista.

O PERIGO DO FASCISMO
Mas os trabalhadores sabem que enquanto puderem vão resistindo a estas condições. E o Poder também o sabe. É por isso que a todo o momento o Poder reforça as chamadas forças da ordem, para poder vir a exercer a repressão de que necessita sobre os trabalhadores. Mas para poder exercer essa repressão com toda a eficácia o Poder terá que destruir sindicatos, partidos de esquerda, comissões de trabalhadores e moradores. Vai ter que proibir reuniões, manifestações, a liberdade de expressão. E isso não lhe vai ser fácil. Para isso necessita de criar um regime fascista.
É a ameaça desse regime fascista que hoje pesa sobre as cabeças dos trabalhadores portugueses.
Mas antecedendo o regime fascista, embora abrindo o caminho para ele, virão governos mais à direita, nomeadamente o chamado governo presidencialista, isto é, um governo que, à maneira dos Estados Unidos e doutros países capitalistas, depende essencialmente, do presidente da República. A posição em que foi colocado o actual Governo durante as comemorações do 25 de Abril anuncia o seu fim próximo por já não servir totalmente os interesses capitalistas.

CONTRA AS CEDÊNCIAS CONTRA O PACTO SOCIAL
Perante a recuperação capitalista, perante o avanço da direita, perante a ameaça fascista, os trabalhadores têm que resistir e lutar. Não podem ceder.
E no entanto são as vozes que fazem a propaganda da cedência e que procuram criar a ilusão nos trabalhadores de que cedendo acalmam a fúria repressiva do Poder, na esperança de virem a conquistar posições mais tarde. Este é um erro que os trabalhadores não podem cometer porque cada metro que cedem corresponde a uma vitória do inimigo.
Nem nas fábricas, nem nas casas ocupadas, nem nos campos, os trabalhadores podem ceder. Todos os lugares que perdem não voltam a ser recuperados dentro da situação actual. A política da cedência, a política do Pacto Social, é uma política de derrota. E os trabalhadores podem e devem seguir uma política de unidade e luta.

UNIDADE E LUTA
A chave da vitória para os trabalhadores reside na sua unidade. Os trabalhadores têm que estar unidos à volta dos seus interesses comuns passando por cima dos sectarismos de grupo. Os trabalhadores têm que ultrapassar as divisões partidárias que dividem alguns milhares de trabalhadores para chegar à unidade das massas que una milhões à volta dos interesses comuns que são os interesses da sua classe. Os trabalhadores têm que lutar contra o partidarismo que muitas vezes divide os trabalhadores como se tratasse de adeptos de clubes de futebol diversos. O partido tem que servir para organizar a vanguarda dos trabalhadores, mais conscientes, e não pode servir para os dividir e separar dos ou­tros.
A unidade é fundamental para a unidade da classe trabalhadora. Mas a esta unidade dos trabalhadores entre si tem que se juntar uma unidade mais ampla, uma unidade que abarque todos os antifascistas consequentes.
A verdade é que a situação actual traz para o lado dos trabalhadores e como seus aliados muitos sectores para quem o fascismo é uma ameaça real. Entre estes contam-se os militares antifascistas que estando ainda no actual poder são ameaçados pela di­reita e por isso mesmo são aliados dos trabalhadores.
É o momento de estarmos abertos a uma larga força antifascista, onde os trabalhadores pela sua força tenham a hegemonia, e que constituí um impedimento ao avanço do fascismo.

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