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sexta-feira, 28 de abril de 2017

1977-04-28 - Voz do Povo Nº 145 - UDP

Editorial

1. No último número da “Voz do Povo”, desenvolvemos a ideia das duas faces do 25 de Abril. Uma face burguesa, reformista, e outra popular, revolucionária.
Três anos após essa data, em 1977, pode dizer-se que houve duas comemorações do 25 de Abril - uma com o povo na rua, em grande liberdade e alegria, e a outra, da parada militar, com comandos do fascista Jaime Neves, com discursos solenes de ameaças. Mas mesmo nesta última fez-se ouvir a voz do povo, tal como há três anos se fez ouvir, quando começaram a querer limitar o 25 de Abril.
2. Um dos factos mais positivos das comemorações deste 3º aniversário do 25 de Abril foi, sem dúvida, a força e o vigor com que o povo veio à rua para comemorar essa data, em manifestações que apontavam sem hesitações para um reerguer do movimento popular, em manifestações que constituíram uma resposta séria e poderosa aos detractores do 25 de Abril, aos fascistas saudosos do dia 24, saudosos da opressão e da ditadura.
O facto de em plena parada militar terem sido gritadas as consignas das manifestações populares, exprime a coragem e a vontade de lutar pela defesa e pelo avanço de um 25 de Abril nas mãos do povo.
O 25 de Novembro não conseguiu pois sufocar o 25 de Abril e as aspirações democráticas e progressistas do povo trabalhador de Portugal.
3. Como já tínhamos previsto, as comemorações oficiais basearam-se na tentativa de fazer um paralelo entre o 25 de Novembro e o 25 de Abril. Sobre essas comemorações é preciso dizer alguma coisa. O facto de se terem realizado comemorações oficiais do 25 de Abril, promovidas pelas mais altas autoridades do aparelho de Estado, pode levar algumas pessoas a pensarem que a realização dessas comemorações oficiais significa uma consolidação do próprio 25 de Abril. Não é disso porém que se trata. O que se passa, aquilo a que se assistiu, foi a uma tentativa de, através das comemorações do 25 de Abril, absorver o seu carácter popular e revolucionário, tornando-o numa demonstração de força e capacidade bélica, numa exaltação ao 25 de Novembro, em rasgados elogios às forças repressivas, numa ocasião ideal para se efectuarem ameaças.
A participação da brigada da NATO no desfile militar, deve ser entendida como uma provocação aos patriotas portugueses, a todos os defensores da Independência Nacional. A NATO, representante e defensora do imperialismo americano na Europa, que tantas vezes conspirou contra o 25 de Abril, passeia-se nas comemorações dessa data, que foi também uma revolta contra o imperialismo. É ultrajante!
Só por si, este facto é esclarecedor das reais intenções das comemorações oficiais. É pois necessário que não haja ilusões quanto à oficialização do 25 de Abril.
    4. Os diversos discursos pronunciados na Assembleia da República, foram bem elucidativos dos interesses das várias individualidades ou grupos políticos.
Foi evidente, nessa ocasião, a diferença abissal entre a intervenção da UDP e as restantes. A UDP falou na perspectiva do futuro, das lutas que há a desenvolver, da situação real do povo, sem falsos pudores, sem conciliação.
Os outros partidos fizeram declarações solenes de respeito pelo 25 de Abril (até o CDS, pasme-se!) e no entanto atraiçoam-no no dia-a-dia. Todos eles falaram da necessidade da acalmia, do tal "pacto social”, ao qual aliás, Octávio Pato não se fez rogado, adiantando mesmo algumas sugestões. Os discursos dos partidos foram afinal a sua declaração de adesão à ideia do "pacto social”.
Esses discursos não foram virados para o desenvolvimento das lutas do povo e das suas conquistas, mas sim para a sua limitação.
Numa outra dimensão, seria essa também a ideia principal do discurso do general Eanes. Discurso que no dia seguinte, era resumido nas ruas, na boca do povo, por uma frase simples: “Ele só fez ameaças”. Discurso que foi uma afirmação de que Eanes pretende intervir mais directamente na cena política nacional, facto que desde já está a provocar os aplausos de toda a imprensa reaccionária.
5. Destas celebrações do terceiro aniversário do 25 de Abril, ressalta a iniciativa e a audácia dos revolucionários. As acções que desenvolveram contribuíram decididamente para afirmar a ideia de que o 25 de Abril está vivo. Contribuíram para frustrar os planos da burguesia, que pretendia inaugurar com essas comemorações um pacto social de acalmia política.
Por esse lado, falharam-lhe os planos e a ideia do 25 de Abril, dos “soldados sempre, sempre ao lado do povo”, da luta contra o fascismo e contra o imperialismo, veio com força para a rua.
Ficou patente que são os revolucionários os únicos a levantarem a bandeira de Abril, na defesa das conquistas alcançadas.
A próxima jornada que se avizinha, aquela para que hoje nos preparamos, é o 1º de Maio, dia de luta dos trabalhadores de todo o mundo pelos seus direitos.
Aí também os revolucionários se levantarão em luta contra um 1º de Maio que muitos pretendem que seja de conciliação, de “ordem”, “trabalho” e de “salvação nacional”.
O 1º de Maio não é uma data rotineira, que se repete todos os anos. Não pode, por isso, ser comemorado sempre da mesma, forma. E dia de luta, e em cada ano tem objectivos bem concretos.
Assim como nos levantámos contra a oficialização que pretendia apagar o carácter do 25 de Abril, levanta­mo-nos contra a oficialização, a outro nível, que pretende apagar do 1º de Maio o espírito de luta.
Nessa data se verá quem de facto segura firmemente as bandeiras dos explorados.

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