quinta-feira, 27 de abril de 2017

1977-04-27 - O Proletário Vermelho Nº 76-77

Editorial
A ESTRANHA DIREITA DE UM PAÍS POR FAZER

Em tomo do 3.° aniversário do 25 de Abril voltaram mais nitidamente à ribalta da grande informação os “capitães”, os homens que por decisão ou hesitação, generosidade ou calculismo, romantismo ou interesses próprios ou alheios, mercenariato ou ingenuidade, se colocaram logo desde o 16 de Março à frente do movimento militar anti-marcelista.
Três anos decorridos, perante as primeiras comemorações festivas de um aniversário que nos anos anteriores foi passado a votar, é já algum tempo de meditar. Meditemos pois, como que aceitando o repto que o capitão Armando Ramos lançou em circular aos seus colegas de acção, e, nas páginas do jornal (“O DIA”), a todo o país.
TUDO CORREU AO CONTRÁRIO?
A primeira impressão com que se fica é a de que, sem excepção, TUDO correu ao contrário do que TODOS previam, os de 16 de Março e os de 25 de Abril (pois que, ao que nos dizem, não foram exactamente os mesmos. Ao menos, passou a haver os que reivindicavam o movimento das Caldas e os que não, os que a 11 de Março de 75 acusavam mesmo aqueles de “reaccionários e fascistas”.).
Hoje, há pois capitães de Abril que metem na lapela, por despeito ou crime, cravos negros; outros, poucos, que no poder estão mais ou menos merecida- mente; outros ainda que pondo embora cravos vermelhos acusam o governo de os haver - aos cravos - estrangulado a 25 de Novembro.
Gradual e previsivelmente, a abrilada transformou-se pois num motivo de discórdia e num pólo de divisão para aqueles que a executaram, há 3 anos, em consciência ou a mando. Estes meses, a intensidade da vida nestes meses de “PREC”, consagram divisões entre quem, iludindo-se, pensara por ingenuidade ou planificara por ambição, que tudo iria ser — para si - um mar de rosas. E nisso apostaram todos os nossos inimigos.
Fez-se quase sem tiros o golpe sobre a mais velha ditadura europeia do século. Antes tivesses existido os tiros e mais limpo talvez tivesse sido o resultado posterior. Como se tem visto.
Porque o 25 de Abril disse-se que era para o regresso dos exilados e desertores da guerra colonial. Para o regresso em corpo inteiro o que, agrade ou não ao despeito de todos os Marques Ramos, que só tarde acordaram para a realidade do colonialismo, havia de incluir a possibilidade de o desertor vir também a ser ministro. Daí que nos não parece que qualquer mal venha ao Portugal de hoje, custe ou não a certo spinolismo marcelista que a História ceifou.
Porque o 25 de Abril disse-se que era para a devolução da liberdade política aos portugueses. Para apropriar a liberdade que os portugueses fossem capazes de construir e cimentar. O que, agrade ou não à frustração convulsa de todos os Otelos e Vasco Gonçalves, havia de incluir a possibilidade de o não escolherem para a policiar e menos ainda como o fez até 25 de Novembro.
Porque o 25 de Abril se fez contra a guerra colonial e para o regresso dos soldados, disse-se. Regresso imediato pois que era injusta tal guerra. O que, agrade ou não aos recém-nascidos neo-colonialistas em veste paternal, havia de gerar as recusas de embarque e intervenções populares contra o prolongamento de tal guerra, que tanto os chocam, haveria sempre o processo descolonizador de ser melhor ou pior conduzido na exacta medida das capacidades e ideais políticos de quem ficou a negociar a paz, de quem teve ou não a coragem de prolongar o colonialismo e a guerra no hipócrita “interesse do próprio colonizado”, de quem teve ou não a clarividência para prever a arrancada hegemónica do social-imperialismo apoiada na traição, essa sim de outros “homens de Abril” que já levaram a alma e os olhos da cobiça cheios de rublos naquela madrugada histórica de 25.
A APRENDIZAGEM DE UM PERCURSO
Os povos nunca estão nem deixam de estar preparados para a democracia. E aprendem sempre mal e dificilmente em democracia capitalista.
Os povos fazem sempre a história ainda quando a fazem mal ou contra si mesmos, contra o seu próprio futuro. E não faz sentido, a almas conservadoras ou pseudo-revolucionárias, falar de traição a 3 anos de vista quando, sendo o projecto abrilista um projecto regenerador capitalista na área do ocidente, continua sendo-o hoje, depois de ter perigado em projecto da área dos novos czares.
Pode o povo português acusar os capitães de lhe terem dado os germens da confusão que se seguiu; não podem, em consciência, os próprios, servindo-se do “interesse do Povo”, acusarem-se entre si de terem feito desvirtuar o seu Programa, quando esse Programa foi o que as condições históricas da força e da consciência de um povo em libertação permitiram e geraram.
Está o país mal a 3 anos de vista, empenhado no pagamento da factura da loucura, do romantismo e das manobras dos imperialismos que as geraram. Está porém este país de homens vivos bem melhor que a 24 de Abril, queiram-no ou não os contadores de mágoas e os arquitectos da sua própria frustração. Pois que é livre de ser e até mesmo de mudar. Livre de aprender e de se transformar.
Está o país distante, é certo, da liberdade que o povo maior - o povo que realmente produz necessita e anseia, embora sem vislumbrar bem o como; está porém melhor sem Copcon e sem ter de olhar o futuro pelo único óculo de certos generais, ou pelo par deles de outros que em má hora lhe seguiram e, em boa hora, se foram. Até ver.
Está mais aprendido este País e mais livre de aprender. Mais forte para viver a aprendizagem que se faz hoje, não para apontar ao olho alheio os males passados mas para se rever no espelho dos erros que o ensinaram.
E está mais aprendido — ainda que depauperado sem necessidade - porque se foram os monóculos de uns e as farri­pas e grisalho quarentão de outros, uns e outros glorificados na manhã de Abril, uns e outros incapazes no tempo de serem, para este povo, a resposta precisa, para esta História o instrumento decidido e corajoso.
Precisamos de um Povo que não acredite em titãs, que não os de quem, lado a lado e se preciso a mãos nuas, é capaz.
Seria talvez melhor que, unidos, todos os capitães de Março e de Abril estivessem do mesmo lado. Seria melhor se fosse possível. E já se sabia, antes de Abril, que não seria possível. Já se sabia antes que viriam os traidores a soldo da própria loucura dos dólares ou dos rublos de Moscovo; que viriam os românticos perigosos, a soldo da fácil glória e do gosto, comedido ou não, pelo poder demagógico; que viriam os derrotados vários das batalhas contínuas por interesses que raramente os da massa que sempre trabalhou do 26 de Abril até hoje. E que vivendo a democracia possível até agora, prossegue trabalhando de facto por uma vida melhor. Sem cartas abertas ou fechadas nem entrevistas dadas ou proibidas.
A construir com as mãos, enquanto a frustração e a cegueira quer destruir com a palavra depois de já o ter tentado com a violência. E de ter felizmente falhado nos seus intentos.
Que Abril, 25, seja pois um dia de Portugal. Que se unam todos os portugueses, sim, mas contra os Maneis de Portugal que do país usam o nome mas lhe querem comprar com veneno a alma. Que Maneis e Castrins, de Portugal chamados em Portugal faleçam de inacção, em Portugal deixem as últimas penas pois que nos querem, à uma, deixar vazia a memória do 24 de Abril e do 24 de Novembro. E essa, a memória, importa que não se esvazie. A todo o custo. NÃO SE ESVAZIARÁ.

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