quinta-feira, 20 de abril de 2017

1977-04-20 - Podium Nº 105-106

COMEMORAR ABRIL

Já ouvi para aí dizer que o 25 de Abril devia ser restringido às cerimónias oficiais, que isso de fazer festas assim, de qualquer maneira, só vêm a tirar brilho ao que está programado.
Si assim. Temos que fazer como está dito, que ninguém para aqui chamou a iniciativa popular nem, mesmo que fosse chamada conseguiria «abrilhantar» tanto a «solene cerimónia».
Sim, que as coisas pensadas por quem governa nunca saem fora do previsto e batem sempre certinhas.
Eu, a mim no 25 de Abril foi a minha avó velhinha que me acordou. Eram umas sete da manhã estava ela a dizer-me ao telefone que «havia uma revolta» e que «não saísse de casa». E, pois claro, saí também como todos, à procura do rosto dos que se atreveram a desafiar um poder velho de 50 anos.
Ainda fui à loja, em vão. Não. Nesse dia não se trabalhava, tudo estava na rua. Estupefactos percorremos, a minha mulher e eu, S. Sebastião da Pedreira com o seu Quartel General em sossego, a Alameda («lá em baixo há barulho», avisou-me um Velho ainda receoso da liberdade readquirida… mas ainda assim arriscou: «Parece que agora é de vez!») e lá fomos Almirante Reis abaixo, Rossio, Largo do Carmo.
E ainda recordo o rosto de alguém de família, hoje simpatizante de um partido da di­reita, encostado ao muro do largo que rodeia o antigo Quartel da Legião Portuguesa, vibrando com as façanhas dos soldados, que expulsavam os «feijões verdes», entre vivas aos heróis e morras aos legionários.
E dizia ainda um homem alto a meu lado: «Não acredito que libertem os presos políticos»; não esperou que eu perguntasse porquê e continuou: «Tenho lá a minha noiva — e orgulhoso, rematou — é política desde o Humberto Delgado!»
Não, eu não posso comemorar o 25 de Abril olhando para a televisão a ver as cerimónias oficiais. Não vou ver outra vez paradas, como, tantas vezes a 10 de Junho do prostituído Camões.
E mesmo que não fossem paradas não vou obedecer ao calendário oficial. Para isso eu tinha que ver lá o Otelo, o Vítor Crespo, o Vasco Lourenço, o Maia, o Careca e tantos mais; e como eu não os vou ver lá de certeza, não vejo. Para ver quem não o fez a dizer que o fez, não vou.
E mesmo que estivessem lá os capitães porque é que havia de fazer as comemorações como eles queriam?
Já a direita, o fascismo pode dizer à vontade que isso de comemorações do 25 de Abril não se usa.
Já todos os ideais saem prostituídos, mutilados e a memória das gentes é tão fraca que já qualquer um pode inventar sem receio de desmentido.
Nós podemos lá não comemorar o 25 de Abril, ou comemorar como eles querem!
Eu por mim (e já sei que muitos outros) quero ir para a rua reviver os risos e os choros, fazer do 25 de Abril a festa do povo, morder os lábios de raiva por não ter sido o que queríamos, repensar, reinventar outro Abril!
Por isso eu por mim vou e já sei que muitos mais também, vamos comemorar o 25 de Abril com todo o povo da terra; com festa, com alegria. Não sentado a ver a televisão das comemorações deles (a hipocrisia, o comunismo deles) mas vou para a rua.
Para que Abril seja possível outra vez.

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