Translate

quinta-feira, 6 de abril de 2017

1977-04-06 - O Proletário Vermelho Nº 74

Editorial
O EXÍLIO, NÃO, SENHOR PRESIDENTE!

V. Exa. tem na mão o leme do futuro político deste país tal qual está. E digo “país tal qual está” porque pessoalmente bem o quiséramos de outro modo os que trabalhando neste país no posto da produção — trabalhando de facto - teimamos em que o socialismo e a sociedade sem classes são coisas bem diferentes das que a Constituição “promete”.
As coisas estão porém assim, e delas devemos partir. Porque assim e porque delas partimos — logo que delas partimos - V. Exa. está lá. A caminho.
Cabe com efeito ao Presidente desta República, que jurou esta Constituição convicto de estar ao serviço dos mais importantes objectivos e anseios deste povo, defender a Constituição para defender o País, o povo do País, a liberdade, a democracia, a independência praticamente concretizáveis de quem habita a história presente desta Pátria.
Acabou de fazer agora um ano, esta Constituição. Ano bem difícil este. Bem atravessado de boatos e convulsões, excessivas para uma Constituição que mal começa.
A um ano de vista, porém, continua a ver-se mal No futuro que os defensores desta Constituição têm para nós. Futuro que não votámos, obviamente. Que não podíamos votar, de resto. Todavia, apesar disso, poderíamos confiar. E não confiamos. E consideramos grave não confiar mas outra solução não há.
Temos uma Constituição de guerrilha, feita nas montanhas do dia a dia gonçalvista. Uma Constituição que teria sido bem outra se votada uns seis meses antes ou uns seis meses depois. E um povo, as necessidades vitais e económicas de um povo não se mudam em seis meses, mesmo quando esse povo é o povo português em 1976. Daí que dos que antes a votaram agora alguns haja que lhe fazem caretas e dos que a rejeitaram, muitos hoje de sirvam dela. V. Exa. sabe isto, tenho a certeza.
Sabe isto tão bem quanto nós sabemos que ser PR hoje e aqui é mais qualquer coisa que a vontade de um homem. Que ser PR ainda não deixou de significar ser o ponto de convergências e de conflito, de resolução e de consenso das forças opostas entre si, não só civis, não só partidárias como militares.
Esta Constituição é pois mais a Constituição de um Partido que a Constituição de um Povo.
Porque aponta para o socialismo quando só o capitalismo lhe pode ser expressão, só o capitalismo a justifica. Porque se não defende por si mesma e necessita de uma Comissão que a defenda, não lhe bastando o Presidente da República, a Assembleia e os Tribunais para tal. Porque consigna práticas e objectivos que menos que o desejo dos trabalhadores, serve os objectivos, as manipulações e a demagogia dos seus piores inimigos.
Porque, enfim, é uma Constituição elaborada por constituintes muito "verdes” divididos entre os desorientados, os arrivistas e os inimigos, lobos com pele de cordeiros. E destes, havia-os em excesso.
Vem esta fala à volta da Constituição a propósito de outra fala, esta à volta do golpe de Estado.  
Não ignora decerto V. Exa. que neste nosso país, o £ golpe de Estado come à mesa com o mais pacato cidadão. Como diz o nosso povo, cá em casa “golpe de Estado é mato”. Há o hábito, a expectativa e, perigosamente, a tácita aceitação de que “terá de ser”.
O golpe de Estado, cá em casa, já entrou na técnica o de vendi. Uma revista “traz o golpe” do CDS na primeira página... e esgota. Já temos portanto golpe de Estado em ante-estreia. Dá-se ao luxo de apontar nomes, destinos e reacções como se realidade fosse. Dá-se ao luxo de dar, a V. Exa., como imagem, a do Presidente exilado! E foi isso que nos levou a escrever desta forma, acerca disto.
É que cremos que não nos basta um Presidente daquela Constituição. Precisamos de um Presidente deste País. Porque a Constituição é aquilo de que já falámos, aquela contingência que nela se lê quando se pensa nela e na história dos povos. Porque precisamos ter a certeza de que alguém - e não apenas um texto daquele modo elaborado — vela porque isto ao menos não piore. Com efeito, é bem pouco imaginar um Presidente no exílio, uma espada em riste na defesa da lei fundamental de um povo, se esse povo tem de se haver entretanto às mãos de quem cá fica.
O medo é, como V. Exa. bem sabe, uma arma terrível. Foi também deputado à Constituinte, o medo. Está a ser a droga quotidiana dos boateiros do golpe, dos conspiradores do contra-golpe. Está a ser a O AS desta possível tranquilidade já de si difícil para quem procura o melhor caminho e o mais justo num país arruinado.
Os portugueses que querem esta Pátria independente, livre e democrática, os combatentes que hão-de fazer deste país - hoje, amanhã e depois - uma pátria de trabalho e construção do futuro para todos quantos querem romper as cadeias de exploradores e explorados, de produtores e parasitas, de socialistas a sério e de fachada, precisam de ter a certeza de que V. Exa. se não exilará. Não lhes basta saber pela voz do Presidente da Assembleia da República que V. Exa. se baterá pela Constituição. Porque, consagrada a democracia, a liberdade, a independência e o progresso social, pouco se dá trabalhador quotidiano que vai pondo este País em pé que a Constituição tenha esta ou aquela redacção. Precisa que exista uma, e que a existir, se cumpra e seja útil.
Esta Constituição não nos protege pois dos assaltos à liberdade. Menos ainda, dos obuses na nossa independência Esta Constituição não vale nada contra o golpe. Um povo em pé, sim. Um povo confiante, vale. Um povo confiante e em pé, faz dos golpistas uma minoria e dos batoteiros uns miseráveis mercenários.
Não somos, no caso, dos que crêem no ensaio geral de golpe que o senhor Portela Filho nos vendeu para fazer esgotar a sua revista. Bem ao contrário. O que sinceramente nos preocupa é o golpe que tais boatos prolongam. O golpe permanente, continuo. O golpe sem dor que dá a um povo a imagem que quer do Presidente que ele elegeu.
E que o texto desta Constituição, não o votou cada um dos trabalhadores, mas o Presidente desta República votaram-no mais de 60 por cento dos portugueses, o que dá uma ampla maioria dos produtores. Por isso, não nos tranquiliza o exílio, nem o heroísmo dos Allendes. Necessitamos de obter a certeza que o povo do Chile não teve, a firmeza que o povo checo não pôde manifestar.
Estamos a pagar caro demais o post-descolonização porque pagamos ao mesmo tempo o post-gonçalvismo. Não queremos - e V. Exa. deve garantir-no-lo - voltar a pagá-lo de novo. Não queremos ditaduras de minoria, mas toma-se perigoso que o excesso de democracia liberal abra alas à instalação de sub-governos que apenas esperam o primeiro 11 de Março para nos saltar em cima como “salvadores”.
Cabe decerto a V. Exa. procurar que assim não seja. Há suficientes milhões de trabalhadores a temer que as coisas assim continuem. O que é já um estado de golpe.

Sem comentários:

Enviar um comentário