domingo, 2 de abril de 2017

1977-04-00 - Seara Vermelha Nº 08

EDITORIAL
      O papel dos intelectuais

Uma questão que ganhou actualidade é a das tarefas dos intelectuais. Passaram-se três anos de luta directa pelo controle das alavancas militares e políticas do aparelho de Estado. Três anos em que os intelectuais participaram directamente e diariamente na batalha política. Os episódios mais importantes da batalha intelectual travaram-se nos órgãos de informação. O controle do aparelho de Estado pelos sociais-fascistas e a censura inquisitorial que estes exerciam vedou o acesso dos intelectuais patriotas aos órgãos de informação. Durante três anos, assistiu-se a uma estagnação cultural ainda maior que a dos últimos vinte anos do fascismo. Dominando o aparelho de Estado, os sociais-fascistas e seus prostituídos MUTIs controlaram estruturas culturais (INATEL, IPC, Secretaria de Estado da Cultura). Os intelectuais kolabos do novo Hitler, Brejnev, muitos deles antigos subsidiários e subser­vientes do SNI, deslapidaram centenas de milhares de contos em subsídios para os seus filmes e peças de teatro. Ainda hoje, aliás, não foram desalojados do IPC e do INATEL.
Hoje, as organizações de massas são um terreno privilegiado de luta. E se a luta pelo controle dos sindicatos está no primeiro plano das preocupações das diferentes forças políticas, também se sente o interesse que lhes despertam as estruturas culturais.
A batalha política do dia a dia sucede-se, na mente de muitos intelectuais anti-sociais-imperialistas, o retomar de planos a mais longo termo nos seus campos de actividade específicos. Começam a aparecer alguns filmes e peças de teatro. Anuncia-se a reabertura do Teatro Nacional. Nas associações culturais há um recrudescer de actividade e, sobretudo, aparecem revistas de crítica que procuram impor determinadas correntes no meio dos intelectuais, visando conquistá-los para o seu campo. Os intelectuais são alvo de uma intensa disputa por todas as forças que procuram intervir na vida política portuguesa. Não só os intelectuais no sentido estrito do termo — os cientistas e os artistas — mas também, e sobretudo, os intelectuais no sentido lato do termo, entre os quais é dada especial atenção aos jovens dos meios estudantis.
Os intelectuais são, não há dúvida, quadros indispensáveis a quem queira intervir na luta política, na luta pelo controle dos postos-chave da produção, na luta pelo controle das estruturas científicas e na frente cultural.
QUEM SERVEM OS INTELECTUAIS?
O contingente dos intelectuais aumenta com o desenvolvimento científico e técnico. O seu peso comparado ao da classe operária não atinge, no entanto, a importância que ideólogos do imperialismo, como Marcuse, lhe pretendem atribuir, ao proclamarem que a classe operária seria já numericamente inferior aos intelectuais. Aberração que todas as estatísticas desmentem, pois a classe operária é não só a classe mais revolucionária da sociedade como muitíssimo mais numerosa do que os intelectuais.
Os sociais-fascistas revisionistas, com o fim de bajularem os intelectuais e os utilizarem para controlar a classe operária, chamam-lhes «trabalhadores». Temos, assim, os «trabalhadores da canção», os «trabalhadores-médicos», os «trabalhadores dos ministérios», etc. O fenómeno tomou tais proporções que, um dia, um funcionário público, ao ver-se classificado de empregado, no decorrer de um comício, interpelou um dos oradores afirmando que estava de acordo com tudo o que fora dito mas que não contassem com ele enquanto não o considerassem como um trabalhador.
Os intelectuais não são uma classe social, embora formem uma camada social. No nosso País, como aliás em todos os países capitalistas, os intelectuais não possuem, regra geral, meios de produção e são originários de diferentes classes sociais, embora na sua larga maioria sirvam a burguesia. O que define os intelectuais é a classe que servem e de que lado da barricada se colocam, hoje, na luta entre Portugal e o social-imperialismo russo.
No que se refere à luta contra o social-imperialismo russo, uma parte dos intelectuais portugueses — carreiristas, cobardes e kolabos — vendeu- se ao social-imperialismo russo, mas a maioria opõe-se-lhe. De entre estes últimos, só uma minoria se opõe activamente ao social-imperialismo russo e uma parte importante adopta posições conciliatórias.
Em relação à classe a servir e à posição a adoptar perante o marxismo, podemos dizer que a maioria dos intelectuais serve a burguesia. E fá-lo quer ao serviço do revisionismo moderno, quer ao serviço da social-democracia ou da democracia cristã, sonhando vir a ser a nova burguesia monopolista. Há ainda uma larga massa de intelectuais permeável à concepção marxista do mundo, embora influenciados pela ideologia burguesa dominante. Muitos deles consideram-se marxistas, mas do marxismo têm uma visão deturpada — desde a que lhes é dada pelo revisionismo moderno, passando pelo pseudomarxismo do PS, até ao trotskismo dos «super-revolucionários». Por fim, um número ainda reduzido de intelectuais, mas em franca progressão, coloca-se ao serviço da classe operária.
OS INTELECTUAIS E MAO ZEDONG
Em Portugal, há milhares de intelectuais que dizem muito admirar Mao Zedong e estar de acordo com os seus ensinamentos. Isto, apesar dos esforços feitos pelos «super-revolucionários» para arranjarem um novo «maior marxista vivo» cujas posições seriam opostas às defendidas por Mao Zedong e, por consequência, ao marxismo. Não será um papagaio da frase revolucionária que fará esquecer aos intelectuais marxistas que, com a morte de Mao Zedong, perderam o mais elevado expoente do conhecimento humano na nossa época.
Mas se é um facto que não será nenhum medíocre e cisionista que fará esquecer a figura de Mao Ze­dong, também é verdade que um grande número de intelectuais no nosso País, como noutros, admiram Mao Zedong mas seguem caminhos completamente estranhos ao seu pensamento — não adoptando o seu ponto de vista, a sua posição e o seu método. É de extrema importância colocá-los na perspectiva dos ensinamentos de Mao Zedong, na perspectiva da luta contra o social-imperialismo russo, pelo socialismo científico e pelo comunismo. É de extrema importância que eles compreendam que a sua política se opõe a Mao Zedong e que, por isso, servem o social-imperialismo russo. É evidente que nestes intelectuais não incluímos os oportunistas, os carreiristas, os agentes do social-imperialismo russo, que fazem do nome do Presidente Mao Zedong, das suas palavras, uma arma contra os seus ideais. Não incluímos os traficantes do marxismo, os neo-revisionistas «super-revolucionários», mas os intelectuais progressistas que se deixam ir na corrente do social-imperialismo. Muitos deles, aliás, já dizem que os rachados do chamado «PCP(R)-UDP», seu paizinho e comparsas internacionais, não combatem de facto o social-imperialismo russo, embora não rompam radicalmente com as posições dos «super-revolucionários» e adoptem uma posição centrista.
Os desvios direitistas, as aparências reformistas do revisionismo moderno no tempo de Khruchtchev provocaram o aparecimento de muitos intelectuais que, reclamando-se do pensamento de Mao Zedong, o fazem numa perspectiva esquerdista e aventureira.
A ideologia de muitos intelectuais que se dizem revolucionários é a da pequena burguesia revoltada perante a perda dos seus privilégios. A pequena burguesia teme a grave crise do sistema capitalista que a ameaça. A sua impaciência, o seu fanatismo, desenvolvem no seu seio uma visão unilateral e, portanto, não dialéctica do mundo. Reclamando-se do pensamento de Mao Zedong, que é o desenvolvimento criador do marxismo-leninismo na nossa época, nada têm a ver com ele, mas sim com a ideologia de Lin Biao e dos trotskistas do «bando dos quatro», em tudo oposta à ideologia de Mao Zedong.
O camarada Mao Zedong ensina-nos que «na União Soviética, actualmente, o que existe é ditadura da burguesia, ditadura da grande burguesia, ditadura de tipo fascista alemão, ditadura de tipo hitleriano». Esta justíssima tese é confirmada pela experiência do dia a dia da luta no nosso País e no mundo. No entanto, muitos dos que se reclamam do pensamento de Mao Zedong e dizem que Brejnev é o novo Hitler não tiram daí as devidas conclusões, todas as conclusões que devem ser tiradas para a luta da classe operária e do povo português. Não o fazem porque não pensam com a sua própria cabeça. Eles ouvem um auto-intitulado «clássico» do «marxismo-leninismo» dizer com ar doutoral, pedante e sobranceiro: «nunca alguém se pode apoiar sobre um imperialismo para combater o outro... E [evidentemente!] o imperialismo americano é o inimigo principal». Se lhes ocorresse proclamar, como fazia no tempo do fascismo e com o mesmo ar com que os droguistas falam de medicina, que a «feudal-burguesia» de Lisboa era o inimigo principal, lembrar-se-iam os seus seguidores de fazerem manifestações ao som de «Morte ao Rei e a quem o apoiar!»? Ou iriam pensar pela sua própria cabeça e constatar que já lá vai o tempo em que a monarquia era o regime a abater, como também já lá vai o tempo, embora mais curto, em que os EUA eram a superpotência imperialista mais agressiva? Hoje, a superpotência mais agressiva é o social-imperialismo russo e é contra esse monstro imperialista que os intelectuais marxistas devem centrar o seu fogo. Fogo não só a nível político, mas também a nível cultural.
A LUTA NA FRENTE DA CULTURA
Os intelectuais que, ao criarem obras artísticas e literárias, não se colocam na perspectiva da luta política contra o social-imperialismo russo, não podem, como é evidente, conferir-lhes um conteúdo de luta pela salvaguarda da independência nacional e da democracia. No meio deles, aliás, capeiam intelectuais vendidos ao social-imperialismo russo.
Intelectuais há, contudo, que embora opondo-se ao social-imperialismo russo e considerando-o um inimigo a abater, não o fazem transparecer nas suas obras literárias e artísticas. Isto acontece por se deixarem ir atrás de cada nova moda lançada pelos intelectuais decadentes dos países capitalistas ocidentais, como é o caso da chamada «arte difícil», muitas vezes incentivada por intelectuais a soldo do KGB. Outras vezes é produto directo das «correntes artísticas» dos países de capitalismo restaurado.
As novas obras decadentes dão armas ao social-imperialismo russo. Um bom exemplo disso é o que recentemente se passou com uma exposição de quadros pornográficos de pintores portugueses, em que os sociais-fascistas representaram o papel de «progressistas e antidepravados» (vejam lá bem), proibindo a exposição.
Estes artistas não ligam a sua actividade artística e literária à luta do povo português. As suas obras não exaltam os nossos valores históricos e o patriotismo do nosso povo. Para eles, a nossa rica herança cultural está ainda no índex onde a meteram a Santa Inquisição e Pina Manique.
Nós sabemos que muitos dos intelectuais que perfilham estas correntes, ditas modernas, são velhas mulas burguesas corruptas. Mas no meio deles existem jovens intelectuais que pensam, desse modo, contestar a sociedade capitalista em que vivem, quando mais não fazem do que a apologia do individualismo que é o seu suporte.
Outros intelectuais existem que se mostram dispostos a fazer obras literárias e artísticas de combate ao social-imperialismo russo. Algumas já foram apresentadas publicamente e nelas estava presente essa intenção. No entanto, não só não fazem do povo português o seu herói — algumas mesmo ridicularizam-no — como não atacam frontalmente o social-imperialismo russo.
O problema dos intelectuais é, antes de tudo, um problema ideológico. Cabe aos intelectuais marxistas a importante tarefa de criar as obras literárias e artísticas do realismo socialista que, pela força do exemplo, mostrem qual o papel da cultura na luta contra o social-imperialismo russo.

Álvaro Vasconcelos

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