sábado, 1 de abril de 2017

1977-04-00 - Seara Nova Nº 1578

Editorial

Temos referido, em anteriores editoriais, o perigo fascista, os modos como espreita, os modos como pode e tem de ser afastado. É evidente que ele espreita a oportunidade do seu desenvolvimento no caminho do colapso económico. A direita insinua que tal colapso seria um objectivo das forças revolucionárias. Trata-se de uma manobra de propaganda destinada a rentabilizar em termos políticos, ao mesmo tempo que os esconde, os seus reais interesses em que se caminhe para um tal colapso. Historicamente, sabe-se que as forças democráticas, as forças de esquerda, não têm qualquer interesse ou vantagem nisso. A crise económica prolongada, o colapso, não só trazem enormes sofrimentos para as classes trabalhadoras que essas forças representam, como geram um clima confuso propício ao desespero, à desmobilização de sectores do campo democrático e às aventuras reaccionárias, fascistas e fascizantes.
1. O mês de Março, para além da manutenção da ofensiva política reaccionária que tem um ponto alto de arrogância no comício fascista do Coliseu, com Galvão de Melo, foi marcado precisamente por acontecimentos ligados à esfera económica — a discussão das medidas económicas do Governo tomadas em fins de Fevereiro e a grande campanha nos órgãos de Comunicação Social sobre a projectada adesão ao Mercado Comum. Um facto e outro devem aliás ser analisados em conjunto com o continuado boicote patronal à negociação dos CCTs, as perspectivas de congelamento da contratação, a lei liberalizadora dos despedimentos, a utilização de medidas repressivas contra trabalhadores em luta, o «misterioso» «pacto social» cujo sentido concreto se pode prever e recear, mas que não tem sido explicitado mesmo perante as interrogações dos trabalhadores, a devolução ao patronato sabotador de empresas intervencionadas, os afirmados e desmentidos mas observáveis acordos entre o Governo PS e o PSD sob o projecto-lei que define os limites do sector público e do sector privado.
a) Quanto às medidas económicas, para além do aplauso da direita, — só com a reserva de querer mais ainda e de se apresentar como melhor executora da política por elas desenhada — vários sectores de esquerda têm manifestado a sua discordância. Para além de um pequeno conjunto de medidas aceitáveis, o seu núcleo fundamental, não só tecnicamente parece insusceptível de obter os resultados explicitamente pretendidos (caso da desvalorização do escudo) como traduz um inevitável agravamento das condições de vida das classes trabalhadoras e das camadas médias e revela indisfarçadamente a consequência, senão objectivo, da recuperação capitalista (a querer-se fazer passar por recuperação económica) — o reforço da acumulação capitalista e o consequente aumento da exploração dos trabalhadores (à desvalorização juntar a liberalização dos preços, a reavaliação dos activos das empresas privadas, a mobilização provisória das indemnizações de acções e títulos de empresas nacionalizadas, etc.).
O carácter de cedência às pressões do imperialismo e das suas agências financeiras (por exemplo, o Fundo Monetário internacional) é manifesto em algumas destas medidas como por exemplo, em relação à liberalização dos despedimentos, em sintonia, aliás, com pressões idênticas exercidas actualmente por essas mesmas agências sobre outros governos europeus (casos da Inglaterra e da Itália, p. ex.).
b) Por outro lado, sendo claro que a tão falada adesão ao Mercado Comum só se realizará num prazo relativamente distante, é também hoje cada vez mais claro que o projecto de adesão tem fundamentalmente um significado político, até porque não se vislumbra como tal «opção» resolverá os problemas económicos do nosso país a curto e a médio prazo. Esse significado político é o de fornecer uma justificação da política actual de recuperação capitalista e do que a seguir se pretenderá realizar nesta mesma via — agravando entretanto as dependências tradicionais da nossa economia e submetendo o nosso país aos monopólios internacionais. A satisfação com que a direita, nomeadamente o CDS, acolhe este projecto de adesão vislumbrando, e confessando, a possibilidade de se acentuar a pressão exterior para «corrigir» (leia-se destruir) as «anomalias» (leia-se as conquistas revolucionárias) da nossa Constituição, é aliás sintomática.
2. O que é dramático é que há ainda quem se deixe embalar pela tese capitulacionista de que a melhor maneira de travar a direita é ceder-lhe, é deixá-la tomar posições. A realidade tem-se encarregado de desmentir mais do que suficientemente esta perigosa ilusão. A direita reaccionária, alimentada precisamente pelas cedências que lhe são feitas, tem vindo a crescer na sua arrogância, seja qual for a variação táctica da sua linguagem.
Para esses que se enredam na cegueira e na descrença em relação à enorme capacidade e força da classe operária, dos trabalhadores em geral e das massas populares, o mês que vivemos é propício ao despertar necessário.
Que o dia 2 deste mês de Abril lhes recorde que há um ano foi promulgada contra os desejos e esforços da direita reaccionária, a Constituição da República Portuguesa — uma clara, e que deveria ser bastante, plataforma democrática, anti-fascista, anti-monopolista, anti-latifundista e anti-imperialista.
Que o dia 25 de Abril lhes recorde o que foi a luta heróica e triunfante do povo português contra a opressão longa de quase meio século, o que foi e é a capacidade da unidade e entusiasmo revolucionário das massas populares e do poder da sua aliança com os militares democráticos.
Que no dia 1.° de Maio em que este Abril se prolonga, possam compreender melhor a força indomável dos trabalhadores unidos e em movimento, na defesa dos seus interesses, na luta pelo futuro que consigo transportam.

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