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terça-feira, 25 de abril de 2017

1972-04-25 - Bistori Nº 21 - Movimento Estudantil

Bisturi nº 21
Informativo

DEPARTAMENTO DE IMPRENSA ASSOCIATIVA DE ESTUDANTES DA FACULDADE DE MEDICINA DO PORTO

Porto, 25 de Abril de 1972
  INFORMAÇÕES DE LISBOA, COIMBRA e PORTO.

(ENTREGUE PELA DIRECÇÃO AO DIRECTOR)

LISBOA
ESTRATOS DO SUPLEMENTO INFORMATIVO Nº 10 "VIRGULA" boletim da secção de informação e, propaganda da comissão, pró-associação da faculdade de letras de Lisboa. "SEMANA DE LUTA CONTRA A REPRESSÃO PELA REABERTURA E LEGALIZAÇÃO DA C.P.A.
POR UMA ASSOCIAÇÃO DE TODOS OS ESTUDANTES.
OS ESTUDANTES DE LISBOA LUTAM CONTRA A REPRESSÃO:
- encerramento das AAEE
- encerramento da Livrelco
- prisão de elevado número de estudantes de várias escolas
- restrições à liberdade de informação cada vez mais frequentes
- invasão da Universidade pelos gorilas: contínuos treinados especialmente para lutar contra as movimentações estudantis.
Eis os pontos em que assenta a ofensiva repressiva que o Governo desencadeou o ano passado e que se tem vindo a acentuar desde Janeiro, do corrente ano.
Como lutar contra ela? Como fazê-la parar? Como defender os órgãos sindicais dos estudantes? Estas são algumas perguntas que se fazem. Vamos, ver agora como em várias escolas a ela se tem respondido na prática.
CIÊNCIAS
A Associação dos estudantes de ciências foi encerrada no fim do ano passado pelas autoridades escolares que encontraram um pretexto para essa medida na distribuição de um comunicado à população feito pelos estudantes.
Na circular 11 dos colaboradores de Ciências (22/1171) dizia-se:
"A Associação ainda existe? Apenas lhe foram amputados alguns dos seus aspectos, a que chamaremos (para evitar confusões) Aparelhos. Ora o que acontece é que como a associação é um todo e não um somatório de partes, os seus diversos aspectos estão intimamente interligados; amputar-lhe um, reflecte-se no enfraquecimento dos outros. Neste caso concreto isto reflecte-se no aumento de dificuldades para um desenvolvimento da organização dos cursos e da consistência das movimentações ou seja: contraria a consolidação interna  da associação.
(1) Vejam-se nomeadamente as dificuldades trazidas pela ausência de autonomia económica (aparelho de prestação de serviços) e pela inexistência de aparelho técnico, de imprensa e propaganda, dificuldade em difundir palavras de ordem, informações regulares e rápidas, de formar colaboradores, etc."
Foi no seguimento desta via de luta pela reconquista da Associação que continuou a movimentação dos estudantes de Ciências.
"Esta fase caracterizada fundamentalmente pela ausência de informação, (por exemplo arrancamento de cartazes) e por algumas manobras de intimidação, das quais a mais característica foi a nota do Conselho Escolar (C.E.) saída na última semana de aulas antes das férias da Páscoa. Essa nota consistia num inquérito aos boicotes aos testes de Álgebra Linear e outros actos de"indisciplina académica" (sic). Logo se efectuou uma Reunião Geral de Alunos de Álgebra Linear em que todos os estudantes da cadeira reivindicaram para si toda a responsabilidade de possíveis consequências dos actos em causa. Seguidamente começou-se a desenvolver o trabalho de convocação de uma R.G.A. da Faculdade para a tomada de posição dos estudantes de Ciências face à questão da repressão em geral (o encerramento das AAEE e Livrelco, impedimento da, informação, etc.) e concretamente face, a nota do C.E. Entretanto o novo director (Almeida Costa), recomeçou a "nobre tarefa" de arrancar cartazes associativos, nomeadamente cartazes de convocação da citada R.G.A. para sexta feira passada dia l4, às 11 horas.
Mas a informação continuou… em cartazes, que passaram a aparecer presos a balões do hélio, nos altos tectos da Faculdade e as faixas colocadas a alturas estratégica, entre as palmeiras do, jardim."
6ª feira, l4.
Os estudantes começaram a juntar-se para a R.G.A. deparando então com a presença dos "gorilas" de um novo "destacamento", pois o primeiro fora para Direito no decorrer do período passado. A R.G.A. deslocou-se então para os jardins da Faculdade e lá se decidiu por aclamação a continuação da Reunião às l4h30m e greve às aulas durante a tarde.
Nessa tarde, com a presença do 500 estudantes, realizou-se a nova R.G.A. tendo os estudantes, após várias provocações dos gorilas corrido com eles para fora da Faculdade à pedrada.
O Director que aparece nessa altura a tentar fazer dispersar os estudantes foi vaiado e assobiado. A R.G.A. prosseguiu e aprovou por aclamação a continuação da greve no sábado e segunda feira, exigindo o fim da nota inquérito do C.E., o fim do boicote à informação estudantil e a saída dos "gorilas" da Faculdade.
2ª feira, dia 17 de manhã realizou-se uma concentração de cerca de 500 estudantes junto ao C.E. tendo o Director abandonado a Faculdade. Os estudantes realizaram esta manifestação de força para reafirmar as exigências feitas na R.G.A. da tarde do dia l4.
Durante toda a manhã houve greve geral às aulas que continuou à tarde com mais uma R.G.A. com cerca de 400 estudantes de onde se partiu para um a concentração junto ao gabinete do Director da Faculdade.
ECONÓMICAS
Foi desencadeada nesta escola uma ampla campanha de informação contra a repressão, assente nos alunos do 1º ano, que se projectou em reuniões de curso, ampla distribuição de comunicados, cartazes, etc. A base desta campanha de informação foi a criação de núcleos contra a repressão em vários cursos.
INSTITUTO COMERCIAL
Realizaram-se neste instituto no dia 17 uma série de "meeting-relâmpagos" nos corredores, no bar, e nas aulas que serviram para a convocação e preparação de uma R.G.A, que se realizou com a presença de mais de 300 estudantes. Essa R.G.A. havia sido convocada à volta de palavras de ordem contra a repressão e ai se discutiu o problema do encerramento das AAEE e da Livrelco.
Às 5 h da tarde, altura em que um aluno do instituto devia responder perante o C.E., realizou-se greve total às aulas e os estudantes realizaram uma concentração em frente do local onde devia reunir-se o C.E. que só às 7 horas conseguiu ouvir o estudante submetido a processo disciplinar.
Neste momento, em Lisboa decorrem em várias escolas os períodos eleitorais. Assim no Técnico, Agronomia, e Economia saíram já ou manifestos pré eleitorais ou as próprias listas de candidatura.
Em Economia especificamente apresentam-se 3 Listas:
Por um ensino popular
Todo o poder aos cursos
Por uma associação de todos os estudantes (lista unitária)
Em Farmácia vai-se iniciar também um período eleitoral.

EXTRAÍDO DO “BOLETIM” Nº 2 de ABRIL DE 72 do CONSELHO DE REPUBLICAS “EM DEFESA DE UMA IMPRENSA LIVRE
De Lisboa
DIREITO - A Associação continua encerrada. Têm-se travado lutas parciais; uma delas, ao dos estudantes do 1º ano consistiu numa greve, que teve a duração de três semanas, à cadeira de Direito Romano; esta greve pôs fim aos processos disciplinares de que tinha sido alvo a delegação de curso que havia sido suspensa pelo simples facto de ter ido ler ao Professor da referida cadeira uma proposta aprovada em reunião de curso,
LETRAS - Apôs dois dias de greve, totalmente cumpridos sem furos, contra o encerramento da CPA, os estudantes de Letras, têm tentado a realizações de Assembleias Gerais com o fim de lutarem pela reabertura e legalização da OPA.
INDUSTRIAL – Associação encerrada; luta pela sua abertura; esforço reorganizativo.
Como complemento desta escalada repressiva sobre os estudantes de Lisboa, há a assinalar a PRISÃO de cerca de 30 estudantes de várias Faculdades.

Encontra se igualmente encerrado o GRUPO CÉNICO DA FACULDADE DE DIREITO DE LISBOA. Perguntamos, porquê?
A resposta é simples - por que o Cénico representava uma centelha de teatro vivo no ambiente podre do teatro e da cultura nacionais. Forque o Cénico perfilhava a ideia de que o teatro e a cultura não são pitéus para estômagos finos e sofisticados, sendo antes pão que deve ser dado a comer a todos. O Cénico foi vítima da sua trajectória de dignidade. O encerramento do Cénico é mais um indício da política de saque a que estão submetidos todos aqueles que neste país dizem sim à necessidade de uma cultura viva. O Cénico continua encerrado mas sabemos que os membros integrantes do Grupo continuam internamente o trabalho cultural que há vários anos tem caracterizado o Cénico. Este trabalho que está a ser desenvolvido a nível interno necessita do contacto com as pessoas a quem se destina, para vivificar e desenvolver. Lutar pela abertura do Cénico é lutar por uma cultura viva contra o anquilosamento cultural.
No dia 26 de Março, a Pide/DGS foi buscar a casa 23 colegas das várias escolas (5 de Medicina). Em MEDICINA, mal se soube destas prisões, iniciaram-se formas de apoio aos colegas; assim a Direcção da Associação entrou em contacto com o Director da Faculdade no sentido de este contactar com a Pide para se inteirar da situação dos estudantes; nos cursos a que pertenciam aqueles colegas (4º e 5º) fizeram-se Reuniões de Curso onde se apoiou uma concentração junto ao director (quando as respectivas Comissões de Curso e a Direcção da Associação o contactassem). E convocou-se uma R.G.A. para se encontrarem formas de apoio aos estudantes presos. Na R.G.A, foi aprovado a realização de um dia de greve geral na Faculdade que foi cumprido. No dia da greve realizou-se outra R.G.A.,

PORTO
ENGENHARIA
Greve a Termodinâmica II (3º ano de Mecânica)
Nesta cadeira que e dada na Faculdade de Ciências, verifica-se uma disparidade de métodos de avaliação de conhecimentos e de horários. Os estudantes exigindo que a cadeira passe a ser dada na Faculdade de Engenharia, decretaram greve até que as reivindicações sejam satisfeitas.
5º ano de Engenharia Química Os estudantes "este curso, era exigida a realização de um ante-projecto, necessário para completar o curso, ante-projecto esse para o qual não lhes era fornecido qualquer material de consulta e que não versa especificamente sobre assuntos das diversas cadeiras? Face a esta situação decidiram os estudantes fazer greve às aulas práticas, (destinadas ao ante-projecto) consistindo a greve em não fazer nada durante as aulas.
Nesta faculdade, em consequência da prisão do colega Fernando Pessoa, realizou-se uma sessão informativa no Bar, tendo em seguida a direcção da Associação, juntamente com 100 estudantes ido falar com o subdirector que depois de ter procurado intimidar os elementos da direcção, informou-se junto do Governador Civil sobre as condições em que se encontrava o preso. A direcção contactou novamente, com o director no sentido de ser permitida ao preso uma visita do director e da direcção da Associação. A resposta do director foi no entanto negativo, tendo encarregado, o prof. Neftali (chefe de Metalurgia) para se inteirar das condições do preso.
CIÊNCIAS
Todos os cursos dos 1º e 2º anos de Engenharia da Faculdade de Ciências, possuem Comissões de Curso excepto o 1º e 2º ano de Engenharia Civil. Estas comissões tem levado a cabo diversas reuniões de curso era que se tem abordado o problema da não existência da época de Outubro; problemas de frequências o mapas de exames além de começar a fazer publicações de lições.
LETRAS
Realizou-se,sexta-feira, dia 21, uma R.G.A., onde foi fraca a participação de estudantes, para decidir das conclusões do inquérito instaurado à direcção. Assim apresentaram-se à Assembleia Geral 2 propostas: uma do lº ano de Românicas, propondo a levantamento da suspensão da direcção e a readmissão dos 3 membros que se tinham demitido e outra do grupo de inquérito, proposto a demissão da direcção, a expulsão dos 3 membros que se tinham demitido, a censura de outro (voluntário) por não aparecer ao trabalho, a integração na Comissão Coordenadora dos restantes 3 membros que se tinham demitido e a suspensão do programa pelos estudantes aprovado. Sendo aprovada a proposta do grupo de inquérito por 19 votos a favor, contra 13 da outra proposta e 3 abstenções, foi apresentada uma proposta de reestruturação da C.C., tendo-se recusado a fazer parte dela os 3 membros da ex-direcção propostos.
SOBRE OS PRESOS NO DIA 15 DE ABRIL
Saiu um comunicado informativo das direcções das Associações de Medicina, engenharia e farmácia, tendo-se recusado a Comissão Coordenadora de Letras, a direcção proposta de Economia e a direcção de Ciências a assina-lo quando contactadas nesse sentido. Posteriormente foi libertado, após interrogatório o colega do D. Manuel, Jorge Coutinho.
Continuam presos entre outros não identificados os seguintes estudantes e trabalhadores: Nelson Bertini (desenhador), Domingos (operário), Luís Guimarães (liceu D. Manuel Fernando Pessoa (Engenharia)
PROTESTEMOS CONTRA A SUA PRISÃO. EXIJAMOS A SUA LIBERTAÇÃO IMEDIATA.

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