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sexta-feira, 7 de abril de 2017

1972-04-00 - Folhetos Vermelhos Nº 04 - CMLde P

folhetos vermelhos - 4

UM PERÍODO NA HISTORIA DO MOVIMENTO OPERÁRIO PORTUGUÊS
(desde a fundação do Partido ao começo da degeneração revisionista em 1956)

comité marxista-leninista de Portugal

ABRIL – 1972

A corrente revisionista de Álvaro Cunhal foi forçada a debruçar-se sobre o movimento operário para tentar demonstrar que se mantém fiel aos interesses do proletariado. Os revisionistas, em vez de aplicarem o método marxista-leninista à investigação das contradições e luta de classes, amontoam as ideias feitas e os dogmas e deturpam os factos que não lhes convêm. A sua análise é um museu de imagens santas que se devem venerar.
No caminho para a reposição dos factos segundo uma óptica marxista-leninista apresentamos agora um estudo do movimento operário relativo ao período do vigorosa luta de tendências que foi o do combate entre as diversas tendências surgidas no movimento operário desde o aparecimento do Partido Comunista ao começo da degeneração revisionista por este sofrida a partir de 1955-1956.
1- A decadência do anarquismo e a crise do movimento operário»
Por volta de 1920 a experiência anarquista do nosso proletariado começa a entrar em declínio. As massas trabalhadoras, empobrecidas e dizimadas pela guerra lançavam-se em greves, manifestações, marchas de fome que terminavam, não raro, em choques com a polícia. Os sindicatos, enquadrados pela poderosa C.G.T. tinham mais de cem mil filiados. A burguesia clamava contra "o espectro do bolchevismo” que vinha da Rússia. O anarquismo esgotava-se como força orientadora do proletariado porque demonstrava dia a dia a sua incapacidade para por em ordem de batalha o exército proletário e levá-lo à destruição da burguesia. Não havia um plano geral. O proletariado avançado (região de Lisboa e Alentejo) esgotava-se em acções parcelares por falta de um plano estratégico para a conquista do poder. O proletariado não aparecia no ta­blado político do país como força verdadeiramente independente. A primária aversão do operário de espírito semi-camponês pela política e a crença supersticiosa nos sindicatos, como forma suprema de organização, impediam a formação de um Partido que fosse o Estado-Maior de classe. O ambiente é, pois, de confusão e indisciplina. Agravando a situação os dirigentes sindicais concluíam a cada passo pactos sem princípios com estes ou aqueles pequenos-burgueses e esperavam o cumprimento das promessas. O anarquismo era bem o produto do proletariado português da época jovem, semi-camponês ainda, mais artesanal do que fabril e onde pesava ainda um forte contingente de proletariado rural.
Cerca de 1924 há uma alteração na correlação de força. Novo vigor da burguesia (lucro da guerra e das colónias) que endurece a sua posição - aparecem em cena as associações patronais, a polícia começa a flagelar com dureza os operários de vanguarda, no Parlamento, Cunha Leal reclama a pena de morte para os bombistas. O anarquismo não podia responder a esta ofensiva visto que não tinha elaborado um plano coerente de acção. Alguns esboços da organização de combate (a Legião Vermelha) afundam-se na confusão e na ineficácia. O cansaço alastra. A agonia do anarquismo é acelerada pela ascensão da corrente comunista que desde 1920 vinha lutando para se enraizar no proletariado. Durante cerca de 20 anos vai-se assistir à luta política e ideológica entre os anarquistas e os comunistas que tomará por vezes grande violência.
A burguesia, após o golpe de 1926 reforça o aparelho de Estado e começa a desmantelar sistematicamente o movimento operário (proíbe as greves e os partidos, suspende as liberdades burguesas, fascistiza os sindicatos, funda a Pevide, inicia as deportações em massa). A burguesia gaba-se insolentemente de ter aniquilado a desordem.
Uma imagem deste período que se seguiu é o Tarrafal onde Mário Castelhano e Bento Gonçalves continuaram a luta áspera para se assegurarem da direcção do movimento operário. Lamentar esta luta de tendências e a falta de unidade do proletariado para enfrentar a ofensiva fascista da burguesia é totalmente inútil. O proletariado avançado tinha de confrontar as duas tendências e escolher aquela porque se ia guiar. Esta confrontação fez-se num período desvantajoso para o proletariado. A luta entre anarquistas e comunistas não deixa por isso de ter sido inevitável e necessária. Pena é que essa confrontação não haja sido levada até ao fim.
2 - A luta pela organização sobrepõe-se à luta, ideológica
Cerca de 1930, o destino do anarquismo está traçado. Os comunistas orientam já um sector operário e apoiados nos Sindicatos, sob a sua influencia (Comissão Inter-Sindical - CIS) conquistam ao anarquismo as suas cidadelas tradicionais na região de Lisboa.
Esta passagem do proletariado de vanguarda para as fi­leiras comunistas não reflecte a assimilação do marxismo-leninismo e a superação das ideias anarquistas como se tem dito. Isto só em parte é verdade. Foi sobretudo um reagrupamento imposto pelas condições novas da ilegalidade. A corrente anarquista é desarticulada pelo facto do movimento operário ser atirado para a clandestinidade e privado da sua única base orgânica - os Sindicatos. O anarquismo não podia viver fora deles. Ao defrontar o assalto fascista, o anarquismo tenta desesperadamente entrincheirar-se nos sindicatos clandestinos. Quando estes são destruídos a corrente anarquista tende a desarticular-se por falta de base orgânica. Os comunistas pelo contrário tinham compreendido que a base de toda a actividade era o Partido, que sem o Partido não podia haver movimento operário coerente e dedicam-se à tarefa de o construir (o Partido é fundado em 1921 mas tem uma vida muito incerta até à reorganização do 1929 por Bento Gonçalves).
Em 1936 o Partido é parcialmente desmantelado pela polícia e é só a partir de 1941 que os métodos clandestinos de organização são efectivamente adoptados e passa a existir de forma permanente um Partido operário capaz de sobreviver na ilegalidade. De qualquer modo desde que, com Bento Gonçalves, começou a aplicar métodos adequados de actividade clandestina e a assentar o seu trabalho num núcleo de firmes militantes anti-fascistas, o Partido deu uma nova dimensão ao movimento operário, salvaguardando uma actividade séria na condução da luta diária.
Mas diga-se: esta maior eficácia no plano orgânico foi acompanhada por um sério enfraquecimento no plano político e ideológico. A necessidade de um destacamento sólido, disciplinado, centralizado, gerou a tendência para colocar em segundo lugar as questões de orientação e afrouxar a vigilância de classe. Ao mesmo tempo, sendo a única organização anti-fascista actuante o Partido foi-se tornando um centro de atracção de todos os que pretendiam lutar contra a ditadura e uma massa apreciável de elementos radicais da pequena-burguesia (estes sobretudo) entra para o Partido e nele entranha a sua ideologia própria. O desejo de salvaguardar a todo o custo o núcleo clandestino que assegurava a continuidade da luta anti-fascista virá a enraizar o estilo típico do movimento operário destes anos 30, em que as questões de organização comandavam e se sobrepõem às questões políticas e ideológicas. Foi à sombra deste estilo errado que penetraram profundamente no Partido duas correntes anti-marxistas-leninistas: por um lado as ideias anarquistas e anarquizantes (que vieram a ser durante anos ainda a ideologia efectiva da base operária do Partido); e, por outro lado, as ideias radicais da pequena burguesia que, coberta com uma fraseologia marxista-leninista, cristalizavam nos sectores intelectuais e em breve ascendiam à direcção do Partido.

3 - A luta no interior do Partido entre oportunistas de direita e de “esquerda”.
Assim, o Partido começa a ser disputado entre duas correntes não marxistas-leninistas. E no ambiente de aguda luta política contra o grupo anarquista: a direcção do Partido virá a decair no oportunismo de direita que se implantará lentamente através de uma série de posições erradas.
a)- O anarquismo agitava ruidosamente a bandeira vermelha e a revolução, favorecia o emprego indiscriminado da greve e do bombismo sem ser capaz de elaborar um plano de batalha sério nem de pôr em pé o exército proletário; mas a direcção do Partido, ao reagir contra este esquerdismo superficial e ao defender a necessidade de uma acção tenaz, minuciosa, diária, passou a banir como supérflua e superficial, a propaganda da Revolução e da ditadura do proletariado; a insurreição e a conquista do poder passam a ser considerados de tal modo longínquos que não se lhes vê qualquer ligação com tarefas tácticas. Daí que a direcção do Partido não se preocupo em estudar e definir o caracter da Revolução, elabore a linha táctica segundo a inspiração do momento e caia no praticismo acanhado que abriu a porta a toda a espécie de desvios.
b) - O anarquismo conduziu o proletariado a uma política de desprezo e, mesmo, por vezes de hostilidade para com as massas camponesas e a burguesia pobre das cidades levando o proletariado a bater-se isolado dos seus aliados potenciais enquanto dava a sua confiança a aventureiros burgueses; mas a direcção do Partido ao combater este falso esquerdismo caiu em muitos erros semelhantes pois que, proclamando uma política de larga aliança anti-fascista continuou na prática a desprezar as grandes massas trabalhadoras do campo e voltou as suas atenções para os pequenos grupos políticos da burguesia liberal. Em breve a sobrestimação da importância destes grupos, a ânsia de os atrair a uma frente única começaram a provocar a perda de iniciativa política do proletariado, dominado por tendências seguidistas.
c)- O anarquismo estimulava o emprego da violência não com vistas ao agrupamento do exército proletário mas ao serviço de explosões momentâneas e de curto alcance, desgastando assim inutilmente as forças do proletariado; mas a direcção do Partido, ao opor-se ao aventureirismo dos anarquistas veio a cair na posição de só considerar a violência admissível quando chegasse o momento da insurreição, após um larguíssimo período de acção pacifista. Dai até considerar a violência como o oposto da acção das massas e cair no pacifismo ia uma pequena distância que em breve foi percorrida pela direcção do Partido.
Além de tudo isto, com a ausência de definição duma linha para a aliança com os povos das colónias - linha que era essencial para educar o proletariado e ajudá-lo a romper com a mentalidade imperialista - o Partido desarma-se para resistir aos assaltos da ideologia burguesa, menos espectaculares que as ofensivas policiais mas mais perigosas ainda. O praticismo, o seguidismo político, o pacifismo formam um pólo em torno do qual cristaliza lentamente uma tendência oportunista de direita. E pelo seu lado, como reacção contra as tendências direitistas dos seus dirigentes de que se apercebe confusamente, a base operária do Partido alimenta as tendências anarquizantes em que julga ver a perpetuação do espírito revolucionário da classe.
Assim, no momento da prisão de Bento Gonçalves, José de Sousa e Júlio Fogaça (1936) começa a tornar-se sensível a existência de duas linhas, e de duas ideologias no Partido.  A base operária exprime os seus pontos de vista através da tentativa insurreccional de 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande e da revolta dos marinheiros da Armada em 1936 e por meio do movimento sindical clandestino desenvolve acções que representam uma nítida continuidade do espírito de revolta misturado da improvisação característica do anarquismo; quanto à direcção ela exprime os seus pontos de vista na linha oficial (contra o "putchismo" e o terrorismo, pela conquista dos sindicatos, por uma frente única que englobe todas as correntes anti-salazaristas), linha que só muito parcialmente é seguida.
Da luta entre os grupos anarquistas e comunista para ganharem a direcção do proletariado e do Partido, passava-se à luta de tendências no interior do Partido opondo o oportunismo de esquerda ao oportunismo de direita. O movimento radical da burguesia ameaçava controlar o movimento operário que, como defesa, se refugiava no "esquerdismo" anarquizante. O proletariado não era ainda guiado por uma corrente marxista-leninista.

4 - O papel de Bento Gonçalves.
Dirigiu o Partido de 1929 a 1936. Imprimiu-lhe pela primeira vez uma actividade coerente e criou uma tradição de trabalho organizado dentro do melhor estilo proletário. Pode mesmo dizer-se que o Partido Comunista em Portugal começa a ter expressão como partido operário de vanguarda com Bento Gonçalves, em 1929.
Mas Bento Gonçalves e o núcleo dirigente são também responsáveis por o Partido ter sido lançado em sérios desvios oportunistas. Bento Gonçalves não esboçou um plano estratégico em que assentasse a acção proletária para a conquista do poder. Nos seus escritos do Tarrafal encontra-se uma análise lúcida da actividade clandestina do Partido no impulsionamento da luta económica mas nada há sobre a mobilização do proletariado para a luta política superior. Fazendo uma apreciação totalmente negativa do movimento insurreccional de 18 de Janeiro de 1934 (que classifica como "mais uma anarqueirada"), Bento Gonçalves lança as bases para o florescimento do pacifismo que veio a verificar-se mais tarde. Na sua defesa em tribunal, Bento Gonçalves apaga notavelmente o carácter de classe do Partido e não faz qualquer referência ao seu objectivo final - a ditadura do proletariado sobre as classes exploradoras; nesse documento exprime-se pela primeira vez entre nós, ainda em esboço, a concepção de uma luta anti-fascista que supera a luta de classes, concepção que virá mais tarde a ser desenvolvida plenamente por Álvaro Cunhal.
O clamoroso desvio de direita contido na nova política proposta no Tarrafal por Bento Gonçalves cerca de 1940 (ele admite ai o carácter patriótico da burguesia nacional e defende o apoio táctico do Partido à ditadura salazarista, na hipótese de invasão alemã) não é mais do que o fruto das suas incompreensões anteriores. Da tendência para reduzir os interesses do proletariado ao campo económico, ele veio a cair na defesa duma acção política comum "proletariado-burguesia"; da noção utópica duma frente anti-fascista conseguida pela concordância dos comunistas, anarquistas, socialistas, republicanos, católicos, ele passava para o sonho reaccionário duma frente única com os próprios fascistas. As posições políticas de Bento Gonçalves foram marcadas pe­lo facto de ele nunca ter superado inteiramente a mentalidade sindicalista, economista, do primeiro período da sua actividade. Tendo compreendido os prejuízos do anarquismo e tendo lutado energicamente contra ele, Bento Gonçalves veio contudo a cair no campo oposto ao apoiar-se em elementos burgueses como Júlio Fogaça que em breve deram novo impulso ao oportunismo de direita dentro do Partido.
O lugar de Bento Gonçalves no movimento operário português como organizador do Partido e como combatente anti-fascista abnegado é incontestável mas isso não significa que os comunistas devam venerar as suas ideias sem espírito crítico e ocultar os seus erros (como se faz há 20 anos). Dessa veneração serviram-se os oportunistas para conseguirem novas posições dentro do Partido.

5 - A crise de 36-40
Ao contrário do que sucede em Espanha, onde se trava uma grande batalha de classes, em Portugal o movimento está em estagnação quase total no princípio da guerra, para o que há várias razões.
a) - Crise ideológica no interior do Partido e do movimento operário - Após o insucesso das acções armadas de 1934 e 36 (era a tendência anarquista que guiava os operários de vanguarda - mesmo os que formavam a base do Partido), o oportunismo "esquerdista" agoniza enquanto se verifica a ascensão de um oportunismo de direita, voltado para a acção económica, e para o seguidismo político encoberto sob insígnias democráticas sem conteúdo de classe bem definido. (É uma corrente saída do sindicalismo marcada pelas taras reformistas). É esta corrente que ganha o controle do Partido (Bento Gonçalves, Manuel Rodrigues da Silva José de Sousa). É uma fase de grande confusão e instabilidade em que qualquer das correntes é oportunista visto que descura os interesses do proletariado a longo prazo e submetem as tarefas estratégicas aos interesses momentâneos.
b) - Crise de organização - O aparelho estatal da ditadura torna-se mais eficaz. Assiste-se ao desmantelamento do Partido e do movimento operário, fim 1936, 150 dirigentes e activistas vão para o Tarrafal e há um corte na continuidade do movimento operário, prólogo de uma crise prolongada. Há perda do controle da situação e desarticulação do aparelho clandestino. No princípio da guerra de 39, a Internacional suspende os contactos com o Partido dada a situação extremamente confusa na sua direcção.
c) - Estabilização do nível de vida da classe operária a partir de 1934 - Durante cerca de 20 anos as massas tinham suportado sucessivamente a especulação, a carestia e a fome na Primeira Guerra, depois a inflação (a desvalorização vertical da moeda), a vaga de desemprego de 1930/33 resultante da crise mundial do capitalismo. A extrema agitação e combatividade da maior parte deste período sucede a acalmia gradual e uma certa tendência para a expectativa das massas. Verifica-se um certo isolamento dos sectores mais avançados além de uma prolongada crise de reagrupamento interno. A agitação provocada pela guerra de Espanha não se materializa em nenhuma acção importante. A inércia e a desmoralização alastram com a vitória do franquismo.
Enfim, neste período, o Partido evolui para uma posição democrática pequeno-burguesa. As condições de anarquia criadas pela ofensiva policial tendem a transformá-lo num grupo radical pequeno-burguês sem influência séria nas massas. A luta contra o "grupelho provocatório" ("grupelho" de Velez Grilo e Cançado Gonçalves) empreendida por Álvaro Cunhal, constituiu no entanto uma apreciação unilateral. Concretamente não é dito que, se a direcção do Partido cai, em 1939-40, nas mãos de elementos suspeitos, tal não passa contudo e no fundo de um período de crise, sobretudo ideológica: - A crise do movimento operário repercute-se numa correspondente crise na Direcção.

6 - As grandes greves e a tendência "economista" no interior do Partido.
A Guerra vem modificar este quadro. A burguesia, passada a pressão estagnante do imperialismo inglês, lança-se, durante a guerra, na especulação e na exportação de matérias primas e produtos manufacturados e semi-manufacturados. Uma massa apreciável de capitais dirige-se para a indústria e grandes contingentes de camponeses ingressam nas fábricas. Verifica-se uma intensificação do ritmo de trabalho e em certas indústrias são instituídas as horas extraordinárias obrigatórias. Aparecem ou desenvolvem-se a especulação, a carestia e o racionamento. As massas empobrecem enquanto a burguesia faz uma acumulação maciça de capital. Esta é a base do movimento económico de 41/43.
Há uma animação do movimento operário por virtude do seu crescimento em centenas de milhares de trabalhadoras. Aparecem novas formas de luta não exploradas desde a instauração do fascismo — utilização dos Sindicatos nacionais, comissões de fábrica (comissões de unidade). Faz-se notar o aspecto instrutivo das greves. Registam-se a greve semi-espontânea de Novembro de 1942 em Lisboa (20 mil operários), a de Julho de 1943 (50 mil operários em Lisboa), a Maio de 1944 no Baixo Alentejo, a da Covilhã (1946), a do Estaleiro Naval de Lisboa (Abril de 1947) e as anuais das ceifas do Alentejo. Grossos contingentes operários lançam-se à luta económica aproveitando meios legais. A tendência persistente para boicotar os sindicatos nacionais inverte-se o desde de 1941 desenha-se o grande movimento de massas para penetração nos "Sindicatos; Nacionais” em seguimento das consignas do Partido. Em 1946/48 regista-se uma luta generalizada pela conquista das direcções sindicais e pela expulsão dos rafeiro do patronato e da Pide ali instalados, o que se consegue, embora por pouco tempo. O recurso às comissões de fábrica torna-se permanente (as semi-legais comissões de unidade).
Verifica-se nessa altura a tendência para a passagem do plano puramente económico ao plano político. Sem a intervenção dirigente do Partido, este movimento operário não teria sido possível - havia-se operado a reorganização de 40-41 numa base proletária e o Comité Central dirige directamente as greves. Os quadros clandestinos do Partido servem de armadura orgânica para a luta económica por virtude da inexistência de meios e órgãos legais (donde a importância que assume o "Avante!").
Mas este papel do Partido como organizador da luta económica em breve começa a absorvê-lo e a provocar a degeneração do seu carácter, incapacitando-o para as tarefas superiores. A base operária do Partido - confinado que está, em geral, a uma perspectiva sindical, defensiva - tende a subestimar o papel do Partido como instrumento de luta pelo poder e pelo estabelecimento da ditadura do proletariado; e acicatada pela repressão fascista da burguesia, reclama dos Comités do Partido, da sua imprensa, da sua direcção, a mera junção de apoio à acção económica. Esta pressão, atrasada da base operária do Partido faz-se sentir em todo e qualquer período mas nesta época acentua-se dado que tinham irrompido na cena da luta de classes, grandes massas inexperientes, entradas de fresco na fábrica e na engrenagem capitalista, educadas na escola da greve, das concentrações e manifestações - tinham ainda uma consciência muito imperfeita da grandeza das tarefas do proletariado e necessidade de uma educação política completa.
Isto implicaria, a necessidade da trabalho redobrado da direcção do Partido para combater os desvios sindicais no seu interior e para chamar às fileiras do Partido à compreensão das tarefas políticas do proletariado. Este trabalho não se verificou, em consequência, alastrou-se a tendência fora o dentro do Partido para se fazer deste, um organismo clandestino de luta económica. Isto constitui uma grave ameaça à sua têmpera revolucionária.

7 - Nova corrente oportunista na direcção.
Em 1939/40 são libertados alguns militantes responsáveis e verifica-se a salda da zona industrial do Barreiro e do movimento estudantil de Lisboa, de quadros jovens ligados à base. Em consequência começa uma acção organizada contra a direcção contaminada de liberalismo (e com elementos incapazes e suspeitos) vindo a assistir-se à publicação de dois “Avantes!": duas correntes (com dois Comités Centrais) disputam o controle do Partido o qual só vem a retomar a sua unidade sob a direcção de experientes militantes operários - José Gregário e Militão Ribeiro - e de elementos saídos do movimento intelectual e estudantil - Álvaro Cunhal, Júlio Fogaça e Pedro Soares.
A reorganização da direcção inicia um período brilhante de grande actividade. O aparelho clandestino quase totalmente destroçado começa a ser pacientemente erguido. Aparece pela primeira vez um quadro de revolucionários profissionais. O Partido ganha dianteira à polícia nos métodos de trabalho clandestino e infiltra-se em regiões onde até aí não chegara. Por volta de 1942 o Partido ascendia rapidamente à cena política e ganhava a confiança e apoio das manas na luta económica, na luta anti-fascista e de apoio à URSS. Surge nova geração da direcção operária (Alfredo Dinis, dirigente das greves de 43 e 44, assassinado; e Dias Lourenço) a que se juntam militantes vindos da deportação (Sérgio Vilarigues, Américo de Sousa, Manuel Guedes e Pires Jorge). Verifica-se a correcção dos hábitos de anarquia e improvisação tradicional. A planificação da actividade conspirativa e orgânica das tarefas práticas do proletariado reflecte o seu cunho proletário e a liquidação do estilo pequeno-burguês de direcção que os pequeno-burgueses tinham trazido ao Partido.
Todavia este esforço não se estende à linha estratégica, ao estabelecimento das características da Revolução; e o Partido cai prisioneiro das exigências tácticas postas pela luta diária contra a ditadura. Não há seguimento a uma ou outra tentativa para situar a linha do Partido no contexto da luta proletária pelo poder (como as feitas em alguns "Militantes" de 40-42 sobre as tendências no movimento operário - caso de "A luta de classes no campo", etc.). Nota-se a predominância da óptica anti-salazarista e a sobreposição da acção prática às considerações de ordem estratégica. Toma-se assim possível a formação de uma tendência “económica" e sindicalista de base e outra praticista de perspectivas acanhadas, da direcção que, fundidas, dão origem a uma corrente oportunista que gradualmente se acentua na actividade do Partido até a dominar.
Esta corrente oportunista já é sensível no I Congresso ilegal, realizado após a greve de Julho de 1943. Constitui este Congresso uma vitória importante na consolidação orgânica e política do Partido e da sua direcção mas esta consolidação é feita em volta de uma linha onde se começa a tornar patente a indeterminação dos objectivos finais, a limitação do proletariado à luta económica e à expectativa de uma iniciativa política partindo da burguesia oposicionista. O informe de Álvaro Cunhal dá uma atenção minuciosa ao movimento económico do proletariado ("A frente única operária”) mas não dá uma atenção correspondente às tarefas políticas a longo prazo - as referências ao carácter da Revolução, às suas etapas, ao alinhamento das forças são superficiais e não orientam a definição das tarefas tácticas, A linha do I Congresso não vai além de um ajustamento e impulso do movimento económico do proletariado e da apresentação de propostas formais de colaboração à burguesia oposicionista (é apresentada uma plataforma para um governo democrático de unidade nacional) o objectivo da conquista do Poder e as tarefas daí resultantes (politização das massas, luta armada, aliança com o campesinato, aliança com os povos das colónias, neutralização do movimento reformista burguês, elevação ideológica do Partido) não são indicados e fica o caminho aberto ao avanço da corrente oportunista no interior do Partido.
A gravidade desta falta é já notória no período da rápida ascensão da luta económica e política de 42/46 mas vem a tonar grande acuidade quando o ritmo do movimento de massas começa a afrouxar depois de 1947 e o movimento democrático burguês se torna na corrente importante na luta de classes.
 
       8 - Ascensão do movimento democrático-burguês para controlar o movimente operário.
A burguesia estava inicialmente dividida perante a ditadura. A sua tendência dominante era a expectativa benevolente para com o saneamento financeiro e a repressão do movimento operário empreendida por Salazar. Todavia começa nos anos 30 a manifestar aberta hostilidade perante a rapina a que se entregam os grandes comerciantes e latifundiários à sombra da máquina corporativa; e o alarme de muitos pequenos comerciantes e proprietários desalojados das suas posições, em breve se torna uma larga corrente de descontentamento durante a guerra.
Por roda de 1944 verificasse já um desforçamento numérico da pequena-burguesia e camadas intelectuais, a ela ligadas, do modo que a exasperação provocada pela rápida concentração do capital e ascensão dos monopólios, a pressão exercida de baixo pelo movimento operário e pelo Partido, as ilusões num derrubamento fácil da ditadura por intervenção das democracias - tudo acelera as manifestações de descontentamento pequeno-burguês que vem, confluir num poderoso movimento democrático e radical nos anos 44-48, arrastando na sua esteira largas camadas da população. Este movimento não é um reflexo geral das posições da pequena-burguesia - abrange só o sector desfavorecido pela animação capitalista e não se estende de modo nenhum aos grupos mais dinâmicos da pequena-burguesia que conseguiram manter-se ou enriquecer com a conjuntura da guerra e que continuavam a apoiar a ditadura. Mas este movimento distingue-se pela sua amplitude e coerência do movimento pequeno-burguês radical de 1910-1930, assinalado pela adigitação anárquica, instabilidade política e ideológica e pela moda do "putchismo” que em 20 anos tinha revelado toda uma plêiade de aventureiros. Agora, nas condições de severa disciplina imposta pela ditadura do grande capitalismo, a pequena-burguesia oposicionista exprime-se frequentemente pela crítica e pela acção política nos limites consentidos pelo governo.
Ao mesmo tempo, contrariando as tendências de fragmentação próprias do movimento pequeno-burguês todo o período de 1944-1948 é atravessado por uma forte corrente unitária nascida da necessidade de fazer frente única face à ditadura. Resulta dai um movimento completo, com um programa político mais ou menos de unido (centrado à volta da luta pelo retorno à democracia burguesa) e com forte capacidade de atracção sobre o pequeno-proletariado urbano e mesmo sobre certos extractos do campesinato médio e do proletariado.
Mas o movimento radical burguês não podia encontrar em si mesmo reservas de energias nem capacidade organizativa suficientes para conduzir a luta a bom termo sem contar com as restrições da ditadura. Nota-se a incapacidade de fazer cristalizar o seu movimento num Partido (o que pressupunha a criação de um aparelho clandestino) e a falta de meios de propaganda política. Por isso a burguesia radical se volta naturalmente para o P.C.. Utilizar o Partido e o seu sólido aparelho clandestino como instrumento da democracia burguesa é uma tendência que nem por ser espontânea e inconsciente é menos imperiosa nos políticos burgueses oposicionistas. O seu objectivo é o de, por meio do proletariado e do seu Partido realizar as suas próprias reivindicações pequeno-burguesas - ou seja, o retorno à "democracia".
A ameaça que esta corrente representava para o movimento revolucionário do proletariado torna-se especialmente pesada porque este não estava preparado para a enfrentar; no ambiente de ilusões gigantescas gerado no fim da guerra, as aspirações democrático-burguesas passam facilmente por reivindicações de todo o povo que de alguma maneira transcendiam as classes e a luta de classes. A ideologia pequeno-burguesa radical espalha-se rapidamente entre as massas trabalhadoras, à sombra deste ambiente. Aparece assim uma ala esquerda no movimento democrático-burguês de carácter militante e radical que procura activamente fundir-se com o Partido como meio de influir na orientação do movimento operário. Constituem-na não só sectores intelectuais e estudantis como também fracção apreciável de pequenos comerciantes e proprietários empobrecidos.
A natureza desta ala da democracia burguesa que vinha emergindo desde 1938 através do movimento literário do neo-realismo não foi posta a claro. O populismo pequeno-burguês é assim confundido com o marxismo. Nem a inconsistência da sua adesão às massas populares adesão em que é palpável o paternalismo misturado com o receio típico da pequena-burguesia em contactar com o proletariado) nem a superficialidade do seu “marxismo” que não vai além de certos "slogans” em moda e da admiração pela URSS, nem a sua denúncia violenta mas quase sempre retórica e difusa do grande capital - nada disso impede a esquerda burguesa de se fazer passar por comunistas e de vir a integrar-se gradualmente no Partido onde se toma campeã da linha de unidade, isto é campeã da fusão do movimento burguês com o movimento proletário, campeã da direcção do proletariado pela burguesia.
Se o Partido fosse nesta época uma verdadeira vanguarda proletária tão solidamente estruturado no plano político e ideológico como o era no plano orgânico, ele podia ter assimilado e reeducado nas suas fileiras esta ala esquerda do movimento democrático-burguês criando, a partir dele, novos efectivos ao serviço do proletariado. Mas o Partido estava longe de possuir essa solidez e em vez de absorver a corrente pequeno-burguesa foi submerso por ela e o movimento operário começa a ser desorganizado pelo movimento democrático-burguês.

      9 - A agitação política do após guerra é de qualquer modo um período áureo para o Partido.
Ao terminar a guerra sob a influencia da derrota do nazismo e das vitórias históricas da URSS, o movimento da burguesia liberal cresce rapidamente vindo entrelaçar-se, conjugar-se com o movimento operário transformando-se ambos num vasto movimento nacional anti-fascista. As manifestações do fim da guerra, a petição nacional contra o Tarrafal, a reclamação de eleições livres somando-se ao movimento grevista obrigam a ditadura, momentaneamente isolada no plano externo, a pôr-se na defensiva. Salazar promete eleições livres, tolera a constituição do MUD (Movimento de Unidade Democrática) e dá uma amnistia.
Após a formação do MUD em Outubro de 1945, o movimento democrático nas cidades toma um carácter de massas. As comissões do MUD e do MUD Juvenil (lançado em Julho de 1946) organizam legalmente a propaganda contra a ditadura, atraindo à acção anti-fascista grandes massas de empregados, operários e estudantes. Elementos da pequena burguesia entram pela primeira vez em oposição à ditadura. Manifesta-se uma poderosa frente única.
Dedicando-se a esta luta, o Partido melhora o prestígio da sua campanha em defesa da classe operária e em apoio da União Soviética. Há um largo movimento de adesão ao Partido entre as massas trabalhadoras da cidade e a intelectualidade. A organização alarga-se nas zonas tradicionais (Lisboa, Outra Banda, Alentejo) e estende-se a regiões novas (Algarve, Oeste, Minho). A expressão do "Avante!” acentua-se.
Como se viu já, em 1945 regressam do Tarrafal Militão Ribeiro, Francisco Miguel, Manuel Rodrigues da Silva, Júlio Fogaça, Pedro Soares, João Rodrigues e outros, o que permite reforçar o aparelho clandestino do Partido, é chamado ao secretariado Militão Ribeiro, operário têxtil que no Brasil se distinguira como militante comunista que no Tarrafal não alinhara na corrente de "transição" proposto em 1944 pela O.C.P.T.- Organização Comunista Prisional do Tarrafal (propunham-se os defensores da "política de transição”: não agitar inutilmente o espantalho da Revolução, retirar a "foice e o martelo" do Avante, dedicar todos os esforços à unidade anti-fascista, entrar em conversações com os políticos burgueses, animar o golpe de estado - em resumo facilitar uma "saída doce", não revolucionária. A "política de transição" não era, já simplesmente oportunismo - ela tendia a liquidar o Partido e a entregar o movimento operário ao controle da burguesia democrática). Cria-se uma comissão política do Comité Central (pouco depois dissolvida) com Álvaro Cunhal, José Gregário, Alfredo Dinis, Sérgio Vilarigues, Manuel Rodrigues da Silva, Manuel Domingues e Pires Jorge). O Partido sofre golpes mas que não o afectam gravemente: o assalto a uma tipografia do Partido, a prisão de Maria Machado, a prisão de Francisco Miguel (em 1947), o assassínio de militantes comunistas como Alfredo Dinis, operário, dirigente das greves de Lisboa, como Germano Vidigal, trabalhador alentejano, como Ferreira Marques, empregado de café e como o médico Ferreira Soares, tomam, pelo contrário, maior o prestígio do Partido entre o proletariado e as massas populares.
Aliás é ao facto do Partido viver neste período de luta demo-liberal a fase de maior influência política da sua história que torna até certo ponto propício o triunfo, no seu seio, do oportunismo de direita. Os sucessos alcançados tiveram o efeito de aval às posições dos seus partidários, o que é facilitado pela ausência duma verdadeira armadura ideológica por parte da corrente de esquerda do Partido.

       10 - O II Congresso ilegal do Partido é uma vitória da ala pequeno-burguesa.
Em 1946 o Partido reúne o II Congresso ilegal. Álvaro Cunhal apresenta os dois informes principais: o político e o sobre organização. O Informe político - "O caminho para o derrubamento do fascismo" - indica ao Partido a necessidade de multiplicar as acções do proletariado industrial e rural para tornar possível o levantamento nacional anti-fascista cujas características, contudo, não define. Não se referindo à política de alianças o informe dedica grande atenção ao movimento democrático burguês e ao MUD, descurando o problema da mobilização das massas camponesas proletárias que continuavam à margem da luta de classes. O informe ataca com vigor a ineficácia das tendências putchistas e legalistas da burguesia liberal, a plataforma de "transição" proposta pelo O.C.P.T. e as tendências titistas surgidas no Partido e no proletariado. A sua linha geral (depois desenvolvida nos informes de Cunhal às reuniões do Comité Central do Outubro de 1946 e de Junho de 1947) consiste em centrar todos os esforços do Partido sobre a unidade de todos os anti-salazaristas ("A unidade é a garantia da vitória, a divisão seria a derrota"; "aquilo que nos separa nada é, comparado com aquilo que nos une"). Guiado por esta concepção, A. Cunhal é naturalmente levado a velar a contradição entre o proletariado o a burguesia liberal no movimento anti-fascista. A luta pelo derrubamento do fascismo não é vista como uma tarefa revolucionária de classe do proletariado, apoiando-se fundamentalmente no campesinato e aproveitando a aliança instável da burguesia liberal. É uma luta do todos os "portugueses honrados" (de onde as massas camponesas estão ausentes) em que compete a todos darem provas de tolerância.
Esta linha política leva a uma atitude nova perante o movimento de massas: ele deve crer suficientemente forte para estimular e pressionar a burguesia liberal mas não tão forte que a assuste e a afaste da luta. Isto reflecte-se em diversas posições e resoluções saídas do II Congresso ilegal:
a)- Dissolução dos GACs que não chegam a actuar;
b) - Abandono da linguagem "demasiado de classe" do período de 1941-1944;
c)- dissolução da Juventude Comunista, substituída pe­lo    MUD Juvenil;
d)-  Necessidade de canalizar o movimento operário para fins exclusivamente pacíficos (Manuel Guedes dedica um informe à actividade nos sindicatos fantoches)
e)-  Esforço para satisfazer os anseios da pequena-burguesia, exigindo "que os Comités do Partido se interessem pelos documentos do comércio e da indústria das suas localidades";
f)-  Concessões aos políticos liberais a fim de se manter a Unidade, permitindo-lhes apossar-se da direcção do MUD que transformam no seu partido político.
Por seu lado, o informe de organização expõe os princípios do centralismo democrático até então mal conhecidos e mal aplicados no Partido. Ao mesmo tempo, dentro das concepções da linha geral de Unidade lança a palavra de ordem "para um Partido Nacional", capaz de exprimir as reivindicações não só do proletariado como das restantes camadas anti-salazaristas. Esbate-se a noção do Partido como Estado-Maior do proletariado para a Resolução, abrem-se as portas do Partido a grande número de elementos pequeno-burgueses e de sectores atrasados do proletariado. A vigilância de classe afrouxa, o cunho proletário revolucionário das fileiras do Partido compromete-se, muitos operários avançados começam a tomar em relação ao Partido uma posição de apoio com reservas. Assim se explica que no período de 1945-1949, apesar do ascenso do movimento de massas e dos sucessos orgânicos do Partido, o número de militantes operários formados seja mínimo. Assim se explica também a decadência, primeira lenta e depois acelerada, da organização operária da região de Lisboa e Barreiro.
Em resumo: o II Congresso ilegal, um dos mais importantes da vida do Partido, representa uma viragem oportunista sob a direcção de Álvaro Cunhal, anulando as tendências (apesar de tudo) positivas do I Congresso. Embora rejeitando a linha liquidacionista da "transição”, o Congresso orientou o Partido e o movimento operário no sentido de graves compromissos com a burguesia liberal. A partir do II Congresso acentuam-se os dois pontos fracos do movimento democrático do fim da guerra:
1) - As massas trabalhadoras seguem as directivas moderadas e "ordeiras" da Unidade (Eleições livres, amnistia, abolição da censura) e não apresentam as suas próprias reivindicações revolucionárias (fim da carestia e do terror, demissão do governo, expropriação dos ricos, expulsão dos imperialistas estrangeiros, libertação das colónias);
2) -  o campesinato mantém-se adormecido e à margem da luta política, privando o proletariado do seu único aliado seguro.

       11 - O recuo do movimento de massas e democrático verificado a partir do 1947 faz surgir na direcção do Partido uma corrente proletária de esquerda.
A partir de 1947 o movimento de massas entra no refluxo. Depois da greve de Abril o movimento grevista suspende-se. Em 1948 registam-se ainda êxitos nas "eleições sindicais” mas a situação geral é de recuo e os contingentes operários envolvidos na acção económica e política diminuem de mês para mês. Entre as causas deste refluxo podem apontar-se:
a) -  Melhoraram ligeiramente as condições de vida dos trabalhadores pois o movimento grevista obrigou a acabar com o racionamento e obrigou a afrouxar ("campanha da vida barata", 1947)!
b)-  o proletariado foi duramente castigado pela repressão das greves e do movimento político (prisões em massa, perseguições dos grevistas inscritos nas "listas negras" da policia e dos patrões)}
c) - as massas trabalhadoras foram para o movimento democrático iludidas acerca da burguesia liberal e confiantes no apoio dos EUA e da Inglaterra, mas começam a perder as ilusões a partir de 1947)I
d) - após a grande greve de Julho de 1943 e as manifestações que a acompanhavam e quando a vanguarda operária começa a voltar-se para a violência, o Partido não a orientou nessa via (dissolução dos CACs e insistência na repetição anual das greves, apesar da experiência mostrar que a ordem de greve não pode ser usada sob o fascismo do mesmo modo que sobre a democracia-burguesa)
e) - falta a ligação entre o Partido e a vanguarda operária que pressente o oportunismo da linha de unidade.
Por seu lado, depois do seu fugaz ascenso em 1945/46 o movimento democrático, em vez de se orientar no caminho dos choques armados e da luta pelo poder desagrega-se e entra em declínio. A burguesia reformista que dirige o MUD é obrigada a abandonar as ilusões na acção legal e nas eleições, perante a onda de repressão de princípios de 1947 (demissões de professores e funcionários do Estado, incidentes na Universidade, prisões, desarticulação do MUD Juvenil) os políticos liberais lançam-se no golpe militar
Após o fracasso deste começam a intrigar nas altas esferas para tentarem desagregar o regime e a hostilizar o Partido e o movimento operário. A apresentação da candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República faz-se já em plena crise da Unidade.
Como é natural, todas as manobras e traições do demo-liberais ajudam a mostrar quanto o proletariado e o Partido estão a ser utilizados pela burguesia liberal; e em consequência surge no Comité Central uma corrente que se esforça por utilizar os erros principais da linha de Unidade. O "Avante!" crítica em 1948 os "falsos democratas” e alerta os trabalhadores contra as manobras destes; o Partido tenta disputar (embora muito tarde) a direcção do MUD e da candidatura aos liberais; elementos titistas e sociais democratas que formavam a extrema direita do Partido são expulsos (Piteira Santos, Mário Soares, etc.). Por fim, na reunião de Comité Central de Janeiro de 1949, Militão Ribeiro crítica, embora de forma indirecta a linha de unidade - o movimento democrático deve seguir uma orientação proletária revolucionária no interesse de todo o povo e não uma orientação oportunista favorável à burguesia, pequena e média; os comunistas não têm que se prostrar diante dos democratas burgueses mas impulsionar sem limites o movimento de massas. Enfim: o informe de Militão Ribeiro inicia o período em que a direcção do Partido procura rectificar a linha oportunista do II Congresso ilegal.

12 - A recuperação da direcção do Partido pela sua ala proletária de esquerda.
O ano de 1949 é um ano difícil para o movimento operário português. O movimento democrático unitário em que se tinham posto tantas esperanças vem a morrer com a desistência da candidatura de Norton de Matos; o governo procede tranquilamente à burla eleitoral perante o desinteresse das massas. Logo em seguida a polícia aplica um tremendo golpe ao Partido, prendendo Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro (membros do secretariado) e assaltando uma tipografia. O movimento de massas chega a um dos seus pontos mais baixos - apatia, desmoralização, incerteza. A unidade rompe-se, o MUD desaparece, os políticos liberais como Cunha Leal e Norton de Matos passam abertamente à luta anti-comunista. 1949    é também o ano em que Portugal entra no bloco da NATO; e a reabilitação de Salazar perante o bando imperialista americano-inglês impõe uma revisão à linha geral do Partido elaborada pelo II Congresso. É a tarefa a que se vai lançar o Secretariado agora encabeçado por José Gregório.
A primeira tarefa do Secretariado é, contudo, deter a ofensiva policial que ameaçava destruir o Partido. Reservas de militantes clandestinos são engolidos pela repressão dos anos de 1949-50 - além de Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro (este morre na Penitenciária no ano seguinte), Manuel Rodrigues da Silva, Dias Lourenço, José Moreira (assassinado na sede da Pide), Sofia Ferreira, Joaquim Campino, José Martins, etc.,. Organizações regionais inteiras são destroçadas (Minho, Algarve, Alentejo, Lisboa, Oeste). Muitos elementos que tinham vindo ao Partido na fase de ascenso político, por oportunismo, lançam-se na debandada, aterrados pela repressão; certos militantes responsáveis, ao serem presos, passam-se para o inimigo (caso de Mário Mesquita). Um membro do Comité Central, suspeito de espionagem e provocação é expulso do Partido (logo a seguir apareceu morto em Belas).
O Secretariado defendeu o Partido, limpou a organização de elementos inseguros ou incapazes que também tinham sido ai metidos no período de Unidade e em 1951 acabou por suster a ofensiva da Polícia. O Comité Central fica reduzido a 5 elementos - José Gregório, Pires Jorge, Júlio Fogaça, Sérgio Vilarigues e Manuel Guedes (este preso em 1952) e a um suplente Octávio Pato, empregado, que passara à clandestinidade no fim da guerra (Um outro membro suplente do Comité Central, Soeiro Pereira Gomes - o autor de "Esteiros", "Engrenagem” e "Contos Vermelho” - morre na clandestinidade em 1950). Do antigo aparelho clandestino restavam Américo de Sousa, Cândida Ventura, M. Silva. De qualquer modo, embora muito reduzido em efectivos e circunscrito à região de Lisboa (onde a organização operária é quase inexistente). Margem Sul e certas zonas do Alentejo, o Partido está em condições de retomar a acção: - Militantes de formação mais recente como os operários Jaime Serra, Joaquim Gomes dos Santos e José Vitoriano, os estudantes Carlos Brito, Alexandre Castanheira e Carlos Costa, vêm em breve reforçar o seu aparelho e o Partido "reaparece".
Diga-se que a necessidade de garantir a unidade do Partido em período tão difícil e de manter uma elevada vigilância conspirativa contra a polícia levam a uma forte centralização do controle e iniciativa nas mãos do Secretariado. Essa centralização evitou a destruição do Partido mas tendo levado, por vezes, longe demais a depuração no Partido, tendo sufocando a luta de ideias na organização partidária, tendo criado um clima dogmático, o Secretariado veio a prejudicar a recuperação política do Partido, e a entravar o seu amadurecimento ideológico no período de 1951-55.
De todas as maneiras o facto é que é uma direcção proletária de esquerda que se afirma na direcção do Partido a partido de 49-50. Possibilitou-o a prisão do chefe de fila do oportunismo elaborado - (A. Cunhal) - e o pânico que se apoderou dos pequeno-burgueses que, assustados, se auto-expurgaram; possibilitou-o a experiência que o Partido recolhera da linha de unidade e a intensificação da luta contra o reformismo e o oportunismo de direita no Movimento Comunista Internacional a partir de 1948 (resolução do Cominform contra o titismo), mas a verdade é que é uma corrente proletária, "comunista que, neste período se apodera da Direcção e salva o Partido. Que o digam os direitistas!
Com efeito é então que pela primeira vez na vida do Partido, uma campanha sistemática contra as tendências direitistas é empreendida. Em 1951, o Secretariado (sob a direcção de José Gregório) retoma a crítica contra a plataforma de "transição", insistindo no carácter liquidacionista dessa corrente e exigindo de Júlio Fogaça, João Rodrigues e outros, novas auto-críticas que foram tornadas públicas. Em 1953 é expulso um membro responsável por defender posições direitistas. Em 1954, a 5ª Reunião Ampliada do Comité Central destroçou uma fracção direitista que se começara a formar no Comité Central em torno de João Rodrigues com o apoio de Cândida Ventura e Montes e cujo objectivo era dissolver o MND (Movimento Nacional Democrático) que sucedera ao MUD e restabelecer a linha de Unidade. João Rodrigues é expulso do Partido.

       13 - À recuperação política do Partido, verificada sob a direcção de José Gregário segue-se a entrada na fase de irreversível degeneração revisionista.
Durante este período difícil na vida do Partido e do movimento operário prepara-se uma nova fase para o Partido e o movimento operário no que influiu tanto a "política de pulso de ferro” de José Gregário como a modificação introduzida nas relações de produção. Com efeito, depois 1950, a modernização e concentração capitalista aceleram-se impulsionadas pela penetração do imperialismo. O capitalismo português começa a passar da indústria manufactureir para a indústria moderna, assente na maquinaria e no trabalho qualificado (metalurgia, química, material eléctrico, construção naval, automatização da têxtil, etc.). A classe operária dá outro salto em frente acabando por se tornar a maior classe do país, afluindo para as fábricas médias e grandes. Ora, este crescimento revoluciona o "esquema” em que evoluía o movimento operário:
a)-  As zonas industriais são invadidas por grandes massas camponesas que fazem lentamente a aprendizagem da luta diária na fábrica;
b) - A "produtividade", o trabalho a prémio e a multiplicação das categorias lançam a concorrência e a divisão entre os operários;
c)-  Elevam-se os contingentes de operários especializados e relativamente bem pagos (aristocracia operária) que se tornam focos de reformismo no seio do proletariado;
d)- Uma massa muito grande de empregados comerciais e de escritório rodeia o proletariado e contamina-o com o seu nível de vida mais desafogado e com a sua ideologia individualista pequeno-burguesa.
Ora, isto provoca nos centros tradicionais do proletariado avançado (M. Grande, Almada, Barreiro, Lisboa, Covilhã) uma crise de adaptação e uma certa dispersão da vanguarda operária que cria condições ao florescimento do oportunismo e a um reagrupamento da corrente de direita que se mantivera no Comité Central sem nunca ser desarticulada!
Impulsionado por um Partido, “coesionado” pela acção firme de José Gregário (que reconstituiu pouco a pouco a sua direcção central) o movimento operário reanimara-se três anos depois da prisão do Secretariado (em 1949). Em 1952-54, o proletariado rural do Sul atingira o auge da sua combatividade. Em 1954, em torno da luta contra a campanha de produtividade, a classe operária do Sul, agitara-se nas fábricas: as comissões de fábrica semi-legais, as exposições, as concentrações, as paralisações foram as formas em que se apoiou o movimento económico servindo de escola a largas massas operárias inexperientes. No Norte, o operariado começara a despertar para o movimento organizado, recorrendo à utilização dos Sindicatos (utilização em declínio no Sul) e a outras formas de luta! Enfim, apesar da burocratização que invadiu o seu aparelho separando-o das grandes massas, o Partido conseguira, pela condução da luta económica, restabelecer algumas pequenas organizações operárias, em Lisboa, Almada, Marinha Grande e, pela primeira vez, Porto... A tiragem do "Avante!” foi aumentada.
Mas em 1955, José Gregório, membro do Secretariado é afastado por doença (vem a morrer em 1961 na Checoslováquia, sem ter voltado a intervir no trabalho de Direcção do Partido). Apoiada nas condições excelentes para o oportunismo que, como se disse já, se geraram na classe operária a partir de 1950 (e a que acrescem: o novo despertar do movimento liberal, as divisões que surgem no campo fascista, a atenuação do clima de guerra fria, o começo da degeneração da URSS após a morte de Staline - visita de Kruchtchev e Bulganine à Jugoslávia, em 1955) a ala direitista do Partido passa à ofensiva. A 6ª Reunião Ampliada do Comité Central em 1955 (informe político de Sérgio Vilarigues, informe sobre a organização de Pires Jorge) e realizada sob o tema da "luta contra o Sectarismo". A confrontação entre os partidários do "estilo proletário" herdado de Gregório e a corrente direitista reacende-se. E quando XX Congresso do PCURSS define as suas teses contra revolucionárias (linha geral de coexistência pacífica, possibilidade de passagem pacífica e parlamentar ao Socialismo, unidade com os sociais-democratas, condenação do "culto da personalidade" de Staline), a autoridade e supremacia incontestadas da ala reformista conduzida por Júlio Fogaça e Pedro Soares (que entretanto fugira da cadeia do Porto) tornam-se totais!
A partir dai, a direcção do Partido fica nas mãos de oportunistas demo-burgueses, envereda pelo revisionismo e todas as lutas sérias que se travam até à cisão revolucionária de 1963-1964, põem em regra, frente a frente apenas duas alas pequeno-burguesas, revisionistas ambas: a dos incondicionais agentes do imperialismo russo chefiado por A. Cunhal (hoje triunfante) e a dos sociais-democratas, reformistas, chefiada, primeiro por Júlio Fogaça (expulso em 1961), depois por Alexandre Castanheira (hoje trânsfuga).
Os comunistas não deixam por isso de tratar como seu, o Partido que, sozinho, lutou no movimento operário até 1964. E não o deixam porque até essa data, foi ele que mal ou bem os representou, foi ele que mal ou bem enquadrou a classe operária.... Mas nem por isso é incorrecto dizer que teria sido válida qualquer tomada de consciência que houvesse levado os comunistas portugueses à cisão desde que se deu o afastamento de Gregório e em particular a partir do VI Congresso realizado em 1956 (que marca a cristalização do oportunismo na Direcção do Partido). Daí que, ao estudarmos o movimento operário no período em que existiu um Partido que de facto procurou enquadrá-lo e representar os seus interesses, nos limitemos ao período que vai da sua fundação (e em especial da sua reorganização em 1929) ao afastamento de Gregório era 1955 e a realização do VI Congresso em 1956.

FOLHETOS VERMELHOS:
1 - UM GRANDE CENTENÁRIO! (A Comuna de Paris)
2 - OS OPORTUNISTAS E OS MARXISTAS PERANTE O GRANDE STALINE
3 - RELATÓRIO DO SECRETARIADO DA DIRECÇÃO DO C.M.L. DE P. SOBRE O MOVIMENTO DE JUVENTUDE COMUNISTA
4 - UM PERÍODO na HISTORIA DO MOVIMENTO OPERÁRIO PORTUGUÊS (Desde a fundação do Partido ao começo da dege­neração revisionista era 1956)
5 - COMO PENSAM E TRABALHAM OS BOLCHEVISTAS E COMO ELES COMBATEM O OPORTUNISMO (Acerca das provocações e da linha anti-marxista da direcção oportunista do Cmlp)

Comité Marxista-Leninista de Portugal

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