quinta-feira, 23 de março de 2017

1977-03-23 - O Proletário Vermelho Nº 72

Editorial

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DIREITA PRECISA-SE!
Resposta à «FALSA ESQUERDA, SARL - Desestabilização e Contra-golpes»

Andam por aí os políticos no jornal das entrevistas. É ver quem mais gente apanha e mais contraditória, à “esquerda” e à direita, é ver quem mais entrevistas dá para o jornal da sua base de apoio! É ver ainda, quem dentre o Povo fica mais baralhado com as piruetas dos políticos. De certos políticos.
Este país é um lavadouro público. E nisto vai tendo o cheiro a vida e a acidez do Suor de quem trabalha, mas também de quem trabalha a lavar o cheiro dos outros.
Se o senhor Portela (Filho) quer desestabilizar um partido liberal, pega no senhor Galvão de Melo e puxa-lhe pela língua e pelo snobismo. Resultado: o sr. Freitas do Amaral alija a carga que é a inconfidência desbagada do sr. Galvão de Melo e coloca, à sua direita, este. Ficamos com um partido liberal menos o senhor Galvão de Melo e com um leque liberal mais uma hipótese de partido. Partido que apesar dos seus ataques a Kaulza e ao MIRN, toda a demagogia “esquerdenta” dirá que “alarga as forças da direita”! E com o medo irracional do cidadão livre, avança a “maioria de esquerda”!...
Se o senhor Sá Carneiro, querendo manter a todo o custo nos ares a bandeira que o distingue do senhor Mário Soa­res, cai nas mãos dos jornalistas — de certos jornalistas é certo que o senhor Soares vide, Jorge Campinos — irá ter de tomar a sua distância, de acrescentar a sua ‘diferença" do senhor Sá Carneiro. O que forçará um e outro a fazer declarações empoladas e quezilentas. Cujas irão servir de base à demagogia esquerdenta para catalogar o PPD de “Partido reaccionário" (vide entrevista do padre Cunhal ao boletim paroquial que dá pe­lo nome de “O Jornal”) e captar assim as hesitações dos Pêésses que se desgostaram com as blagues de mau gosto do senhor Sá Carneiro. E avança a “maioria de esquerda”!...
Se o Primeiro-Ministro faz no estrangeiro um desastrado aceno às dívidas do banqueiro Jorge de Brito, ninguém senão a demagogia esquerdenta colhe daí dividendos, opondo ao governo Soares a má disposição dos restantes todos - banqueiros em dívida! Logo, dos partidos liberais em que tais banqueiros depositam a esperança capitalista. E avança, um bocadinho, no público, a ideia da “maioria de esquerda”!...
Se a democracia liberal comete o erro de lavar, em público, não já o camisolão e a camisa de noite mas também os “soutiens" e as cuecas; se o senhor Tomás Rosa opõe o seu pedantismo ofendido ao esquematismo ofensor e autoritário do senhor Manuel Alegre; se se zangam os democratas, perde fé neles a sua base e reconstruir no senhor Pato a esperança da “maioria de esquerda”!...
Se a estatização da imprensa não vai avante e isso obriga as dores de barriga do governo a fechar os jornais, o governo abre na informação fendas que não servem o povo mas os seus (do povo e do governo) inimigos piores.
Se a falta de escudos do Banco de Portugal deixa espaço aberto à entrada de rublos nas caixas das tipografias; se a má administração governamental consente às distribuidoras do Estado que sirvam de bancos financiadores às iniciativas que o rublo instiga; se calar a “VIDA MUNDIAL” não nos propõe mais nada a não ser o aumento de vendas da “Opção”, o poder de contra-informação de marca moscovita marca pontos e ataca, à traição, a estabilidade.
A “maioria de esquerda”, sub-reptícia, galopa à desfilada para o próximo beco económico do governo, coloca bombas ao retardador na legitimidade da Assembleia da República, armadilha com declarações bombásticas o Conselho da Revolução, espartilha os movimentos do Presidente da República, encosta enfim À DIREITA os democratas liberais, os partidos democráticos liberais.
Se o PS tem uma dita “esquerda” submarina e se liberta (?) dela colocando-a entre parêntesis; se o ministro (de Estado) Campinos ataca, fechando os parêntesis, essa sua “esquerda submarina", se logo a seguir vem frisar que “o PPD é um partido reaccionário", o senhor Cunhal pode, tranquilamente, chamar-lhe “a direita”, pode tranquilamente omitir o CDS (namoradeiro do governo) e passar por tão democrata como o ministro Campinos. E o ministro Cam­pinos é tão democrata que até ergueu contra Lopes Cardoso e Aires Rodrigues o seu “democrático” gládio! Passa pois ainda por mais justa a tese do senhor Cunhal contra o segundo partido da maioria deste país!
O QUE PARECE... MAS NÃO O É
Parece o império da confusão e afinal não é; é o império da conspiração. Não já da conspiração de capuz e adaga, de reuniões nocturnas pelos becos esconsos da cidade adormecida com bater de portinholas no golpe madrugador, mas outra: a conspiração da alma, da confusão dos rumos, da sabotagem da fé na força própria de cada homem que trabalha quando se associa aos seus iguais. A conspiração que mete lâminas na crença do futuro e “luvas” na honestidade moral de quem se vê forçado a atacar para sobreviver a um perigo impreciso e misterioso mas mortal.
É o império da desestabilização. Lenta mas eficaz. Que vai das conversas de supermercado sobre o “Cabaz de Compras” que não há, até às declarações do Coliseu dos Recreios que a imbecilidade da direita arcaica e o pedantismo de certos “novos ricos da democracia” colocou graciosamente na bandeja do PCP. É o império do neo-gonçalvismo sem Gonçalves. Que já não reedita a asneira de hostilizar o PS porque lhe basta agora esquartejar o PS, deixá-lo esquartejar-se nas guerras de Alecrim e Manjerona contra os moinhos de vento do “golpe fascista”.
Esquartejar o PS porque consegui-lo é, também e já, esquartejar a hipótese de qualquer futuro governo social-democrata. Fazê-lo a par e passo de alimentar no cidadão a ideia da necessidade do governo forte “de esquerda”, do governo que oponha a eficácia do chicote vermelho à festa anárquica do poder popular otelista, ao esguedelhamento mental do gonçalvismo.
O TIGRE DE PAPEL QUE O LOBO AGITA
E vai a bomba na consciência que aponta o dedo acusador do cidadão contra a direita arcaica e deixa passar a “legitimidade democrática” da “maioria de esquerda” com as asas de queru­bim de um S. Sebastião retomado de Moscovo.
E vai a exploração de todos os ais, suspiros e meteorismos que possam indispor a democracia liberal contra a democracia liberal, a exploração de todas as caturrices do pequeno capitalista avesso a negociar contratos que possam indispor os trabalhadores não PC contra “a direita”.
E vai passando a marcha de um país que amarram lentamente ao porto de Moscovo, em simultâneo com uma Espanha que parece apostada em ir-se lá amarrar de livre vontade, a caminho de uma península ibérica “estabilizada a Leste”, que desnecessita de ser ocupada quando as hordas soviéticas se lançarem ao assalto da Europa para o braço de ferro final com o imperialismo americano esclerosado.
É pois, aos Cunhais, precisa uma direita fantasma. O mais real possível. O mais comícios de Coliseu e entrevistas nos diários possíveis.
Precisa para lhes dar a si próprios o lugar “à esquerda” que necessitam para nos oprimir em nome da sacrossanta democracia. E parece continuar a haver por aí quem, a troco de provocações ou de subornos, esteja disposto a pôr de pé esse tigre de papel.
Só de tigre à porta o cidadão estará em condições de aceitar viver na mesma casa com o lobo. Só perante uma mais nítida “ameaça de golpe fascista” o cidadão estará disposto a aceitar a canga do social-fascismo.
Sabe-o o nosso inimigo; duvidam-no, suicidas, os nossos aliados; precisamos de o escrever a fogo na memória, nós, os trabalhadores que trabalhamos e queremos, sem trégua, um Mundo Novo a sério.

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