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quinta-feira, 23 de março de 2017

1977-03-23 - Democracia CDS 76 Nº 14

Editorial
As datas reavivam a memória

Passou o segundo aniversário sobre o 11 de Março e dele cada qual terá as suas recordações. Uma movimentação militar contra o RALIS, ainda pouco esclarecida nas suas verdadeiras origens e causas, começou por causar dois mortos — o soldado Luís e um civil. O primeiro, largamente apresentado como morto pelos militares que atacaram o RALIS, parece que foi, afinal, assassinado (por acidente ou de propósito), face aos resultados da autópsia, por um «colega» do RALIS. O segundo foi assassinado às portas deste quartel, por soldados do RALIS, que não apreciaram os seus comentários e a sua opinião sobre os incidentes. Estes foram os custos iniciais do 11 de Março e aqueles que são de todo irreparáveis. Mas o 11 de Março, que ainda se encontra envolto num véu de mistério e num nevoeiro de contradições, teve outros custos e provoca outras recordações.
Digamos que aí começou a fase mais intensa da repressão gonçalvista que nos ia levando ao caos e à tirania e que nos levou à desorganização, à ruína, ao ódio, à violência, ao empobrecimento colectivo.
Desde logo, por nossa parte, lembramo-nos das sedes destruídas. Lembramo-nos da ilegalização do PDC, então nosso parceiro eleitoral. Lembramo-nos do mais profundo sectarismo anti-democrático que se virou contra todos que não fossem comunistas ou não lhes fizessem o jogo. Lembramo-nos das perseguições e prisões de que foram objecto militantes do CDS e da JC, ao arrepio de todas as garantias fundamentais do Homem, e das violências de que esses e outros foram objecto. Lembramo-nos da sinistra actividade desses Comités da Defesa da Revolução (CDR's), ainda não desmantelados sabe-se lá porquê, e que persistentemente se dedicaram à sua baixa tarefa de «bufos» e caçadores de homens. Recordamos a iminência constante de novos assaltos e destruições, de novas prisões e violências, dos riscos enormes que era preciso suportar para subsistir. Recordamos as ameaças do Campo Pequeno e as «G-3 em boas mãos». Recordamos, numa palavra, o significado cruel e criminoso, cínico e hipócrita das «amplas liberdades».
Recordamos e não esquecemos! Nem um momento, nem um acto, nem uma responsabilidade! Temos da cicatriz a ideia de que quando se a esquece a chaga volta a abrir. Por isso, não esquecemos! Nem o sofrimento humano, nem a destruição metódica da nossa economia. É importante que se o não esqueça quando o agrupamento do Dr. Cunhal pa­rece querer preparar e oferecer aos portugueses novos «ovos de Páscoa».
O Dr. Álvaro Barreirinhas Cunhal tem decididamente má memória para os erros e arbitrariedades que. cometeu enquanto pôde e comete ainda aonde pode, mas tem muito boa memória para os métodos em que foi amestrado.
Daí que seja importante recordá-lo. Recordar ainda e sobretudo a resistência, a heróica resistência dos portugueses, que, no Verão de 75, firme e decididamente, levou de vencida Gonçalves e COPCON, PCP e Inter. De nada valeu a determinação destes em implantarem a ditadura em Portugal, porque foi maior a determinação dos portugueses em defender a liberdade e os derrotarem.
Importa, por isso, lembrar ao agrupamento do Dr. Cunhal e seus seguidores, que os portugueses não têm má memória, que não esquecem as responsabilidades dos comunistas nas dificuldades que hoje temos de suportar e vencer, que não se deixam embrulhar pela mentira e pela hipocrisia, e que estão preparados e dispostos a resistir outra vez, se outra vez aqueles procurarem subverter em acções de força a vontade da maioria.
Por nossa parte, não queremos voltar a suportar as violências que sofremos e, por nossa parte, não deixaremos chegar as coisas tão longe quanto chegaram. Estamos apostados na reconciliação nacional que sirva a unidade das forças democráticas, contra os totalitarismos que não desistem, e que proporcione a dinâmica e necessária reconstrução económica do País. Não deixaremos passar em claro quaisquer tentativas de sabotagem da recuperação da economia, de desestabilização militar, de agressão à vontade maioritária. Sabemos que é lento e difícil aquele caminho, mas estamos seguros de que é o único que serve os interesses de Portugal e as esperanças dos portugueses e de que o Presidente da República, único intérprete maioritário da vontade popular, continuará a garantir com firmeza a estabilidade democrática, contra a intriga e a insídia, a manipulação e a agressão.
E aí de quem se entretenha a semear ventos!... Seja o PCP e filiais, apostados na recuperação gonçalvista ou na instauração do fascismo, já que o martírio é melhor que o desprezo. Seja a extrema-direita, difusa mas pertinaz, que anda também a abanar o barco, na esperança de que, nalgum balanço, a sorte lhe bata à porta.
É certo que quem o fizer colherá tempestades, mas os portugueses, que já têm a experiência feita de que a tempestade dos outros também afecta de algum modo a todos, saberão impedir a tempo que a instabilidade, a intriga, o sectarismo, a demagogia vão tão longe quanto, com tão elevado preço, já foram anteriormente. E não deixarão sequer que, como no passado, se reabra o abismo intolerante entre os portugueses e se continue a cavar a ruína de Portugal.
Portugal precisa de paz e de tranquilidade. De ordem e de segurança. De autoridade e de competência. Para que a vontade democrática da maioria possa cumprir-se, a justiça possa exercer-se, e a economia possa ser construídas.
Por isso, o 11 de Março é uma data para recordar. Sendo exactamente o oposto do que Portugal precisa, é bom tê-lo presente para que não se repita, nem deixemos ninguém tentar que ele se repita.

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