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quinta-feira, 23 de março de 2017

1977-03-23 - Bandeira Vermelha Nº 062 - PCP(R)

EDITORIAL
OS TRABALHADORES TÊM DE SABER O QUE SIGNIFICA A "INTEGRAÇÃO EUROPEIA"

Os recentes debates realizados na Assembleia da República sobre as medidas de austeridade antipopulares praticadas pelo governo e sobre a sua política de integração no Mercado Comum, representaram um dos pontos altos da convergência das forças políticas burguesas seja nas palavras, seja na prática.
À concordância expressa do CDS com as medidas que o governo vem tomando e a viragem do PSD no mesmo sentido, apenas algumas semanas depois de as ter atacado publicamente, não podem entender-se como simples expedientes parlamentares ou como reviravoltas fortuitas. Estas últimas posições prolongam e, de certo modo culminam, uma progressiva aproximação de pontos de vista das forças burguesas não só sobre a necessidade de resolver a crise, como sobre as formas de o fazer.
   O regular deslocamento para a direita da política do PS conduzida pelos dirigentes soaristas tem sido prosseguida em obediência a duas ordens de factores: a recuperação capitalista, que implica fazer pagar às classes trabalhadoras e às massas populares os pesados custos da crise em que o grande capital, o fascismo e o imperialismo fizeram mergulhar o país, e a aceitação das imposições do imperialismo norte-americano e europeu, que implica uma dependência progressivamente maior do país e a sua submissão aos esforços de partilha do mundo levados a cabo pelas duas superpotências.
A aceitação destas duas premissas pelo dr. Soares como base da sua política antipopular, ou seja, a definitiva decisão de abandonar as promessas das suas campanhas eleitorais, era com efeito a exigência principal da direita reaccionária e fascista. Os restos de promessas de aparência popular que ainda balbucia constituem, para os reaccionários e para os imperialistas uma questão muito secundária que a seu tempo tratarão de varrer.
Deslocando-se o governo para as posições do PSD e do CDS e cumprindo, desta forma original, a missão que naturalmente competiria aos representantes mais directos do grande capital e do imperialismo, a burguesia tenta criar condições para restaurar a sua unidade desde há muito abalada.
Noutras condições e por outros meios, os revisionistas de Cunhal facilitam igualmente este entendimento político. As suas críticas ao governo e à recuperação capitalista tocam apenas aspectos superficiais das medidas tomadas pelo dr. Soares. Abandonada por lhe reconhecerem o fracasso, a "maioria de esquerda”, tratam agora de condicionar a sua crítica aos limites da “estabilidade política", caminhando no essencial na esteira da recuperação capitalista e da integração europeia, defendidas pelos demais sectores políticos burgueses.
Foi, na verdade, patente no debate travado na Assembleia da República, que a única oposição firme e claramente afirmada à política antipopular do governo, às intromissões do imperialismo e ao perigo do fascismo, partiu do deputado da UDP que viu confirmadas, alguns meses após a apresentação pública do programa do governo, as previsões de que tal programa visava atacar as conquistas dos trabalhadores e piorar violentamente as suas condições de vida. Daqui, o apoio popular às palavras do deputado da UDP, as únicas que o povo entendeu de princípio a fim, as únicas que tocaram nas suas preocupações.
A exigência de um referendo apoiado num largo esclarecimento popular acerca da proposta de entrada de Portugal para a CEE, tem grande importância na situação que atravessamos. Os representantes do imperialismo e do grande capital querem fazer passar de forma pacífica um tal encaminhamento da política portuguesa, pretendendo que tal medida não só é única como é boa. Ela não é, porém, nem única nem boa.
Há exemplos de países europeus integrados na CEE que não viram melhorar as condições de vida dos seus povos nem reforçar a independência nacional. A Dinamarca, país muito mais forte economicamente que Portugal, é um exemplo. A própria Inglaterra arrasta-se em crise há vários anos e o horizonte apresenta-se-lhe cada vez mais sombrio.
Quanto à independência nacional, que o governo e as forças do grande capital garantem reforçar-se com a integração no Mercado Comum, nada beneficiará e, muito pelo contrário, sairá progressivamente diminuída como mostra já a recente evolução política. Para o comprovar ainda melhor, bastará referir os dados recentemente publicados por um organismo internacional, que revelam ser o mercado da CEE dominado em cerca de 60°/o pelas multinacionais norte-americanas.
A nossa integração europeia não traria nem um milímetro de independência face ao imperialismo norte-americano e só reforçaria a pilhagem de outros sectores da nossa economia pelas forças imperialistas europeias, nomeadamente o imperialismo oeste-alemão. Por outro lado, e as próprias condições impostas à nossa integração tornam este facto claro, criar-se-ia ao nosso país uma situação imediata de dependência a todos os níveis mesmo que a integração a fazer-se leve 15 ou 20 anos. Desde já, a nossa economia, o nosso modo de vida, a nossa política ficariam como o cavalo atrás da cenoura, amarrados às exigências da integração, às orientações que mais conviessem aos projectos das multinacionais europeias e norte-americanas, e não, em circunstância alguma, em função das necessidades do nosso povo ou dos imperativos da nossa independência. É isto que desde já está a acontecer, entre outras coisas, com o complexo de Sines e com as centrais nucleares compradas à Alemanha, com as quais o governo empenha ao imperialismo oeste-alemão o nosso abastecimento futuro de energia.
  São todas estas razões que impõem a necessidade de esclarecer o mais largamente a nossa classe operária, o nosso povo. A miragem que hoje nos é impingida pelo governo, e pelas forças capitalistas está já a ser posta à prova — sacrifícios, restrição de liberdades, destruição de conquistas populares.
Os três ou quatro anos de austeridade que Soares começou por pedir, e que, regressado da Europa, ampliou para dez ou quinze, serão indefinidamente prolongados — é esta a lei do imperialismo.
A nossa classe operária, o nosso povo têm de ter voz activa no seu próprio futuro. Contra o imperialismo, contra a recuperação capitalista, contra o fascismo, são as palavras que nos guiam nesse caminho.

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