domingo, 19 de março de 2017

1977-03-19 - I REUNIÃO DE MULHERES DO DISTRITO DE LISBOA - PCTP/MRPP

no nosso país a revolução triunfará no dia em que as mulheres trabalhadoras se puserem de pé!

Alocução do camarada ARNALDO MATOS

I REUNIÃO DE MULHERES DO DISTRITO DE LISBOA
19/3/77

Queridas Camaradas,
Constitui para mim uma grande honra pessoal poder participar nesta primeira Reunião de mulheres do Distrito de Lisboa, e que é também uma das primeiras reuniões importantes das mulheres do nosso Partido.
As minhas calorosas saudações Comunistas devem ser endereçadas antes de tudo, as mulheres trabalhadoras que estão aqui dignamente representadas e apelar-lhes para que elas cumpram a quota parte das tarefas que lhes cabem, tanto na edificação do nosso Parti do como no triunfo da Revolução.
No nosso País a Revolução triunfará no dia em que as mulheres trabalhadoras se puserem de Pé.
São uma força adormecida, explorada é certo, mas adormecida, que não despertou suficientemente ainda por insuficiências do nosso trabalho, do trabalho dos Comunistas - que não despertou suficientemente ainda para as tarefas da luta política, da organização política. Mas o dia em que ela despertará em grandes massas não está longe, esta bem próximo.

O PAPEL DA MULHER TRABALHADORA NA SOCIEDADE PRIMITIVA
A mulher trabalhadora tem uma longa história. Poder-se-ia dizer que também é a história do homem, mas isso é só meia verdade. A mulher trabalhadora, desde que a humanidade apareceu à superfície da Terra, não viveu na situação em que vive hoje. Na Sociedade Primitiva, no Comunismo Primitivo, a mulher trabalhadora tinha um papel de grande destaque e era a senhora da sociedade, dada a posição que tinha na economia daquelas épocas, que era uma economia evidentemente limitada e pobre - um fraco uso dos instrumentos de produção, que se limitavam à pedra lascada ou polida, aos paus com que se plantavam as primeiras espécies agrícolas. Nessa altura a mulher, desempenhava o principal papel na produção, o principal papel económico, e em virtude disso tinha também o principal papel social.
Era ela que orientava os destinos da sociedade daquela altura, era ela que dirigia, e era a ela a quem os homens pediam conselhos e de quem aceitavam directivas. Naquelas épocas distantes, há centenas de milhares de anos, a mulher produzia tudo o que a sociedade necessitava e o homem tinha um papel secundário, mesmo na própria produção — limitava-se a caça, à pesca de certas espécies e o resto do tempo não diremos que dormia, mas pouco fazia. Em resultado deste papel económico da mulher, todas as relações sociais, todas as concepções políticas eram diferentes das actuais. Não era o homem que era considerado, mesmo no que respeita a família, o chefe. O elemento mais importante era ainda a mulher que era a chefe da família tal como era em princípio do clã da sociedade primitiva, e as relações que se estabeleciam não eram de pais para filhos mas de mães para filhos. A mulher não se limitava a ter um único companheiro, o casamento não era monogâmico porque nas condições daquela altura a economia exigia um tipo de casamento diferente do casamento das sociedades posteriores. A mulher era o único ponto de referência para saber de quem descendiam os homens e as mulheres. O filho, os homens e as mulheres, sabiam quem era a sua mãe mas não podiam determinar quem fosse seu pai, e isso não era uma imoralidade, era uma coisa altamente moral, era a regra moral mais respeitada naquela sociedade. Como as sociedades eram pequenas em virtude das dificuldades, do carácter limitado das forças produtivas e dos instrumentos de produção, sempre que crescia o clã a um certo ponto teria de dividir-se, e uma parte desse clã passava a constituir uma sociedade diferente, e as relações que se estabeleciam, as relações familiares eram tais que os homens tinham que casar por vezes com as mulheres de outro clã, ou as mulheres com os homens de outro clã ou vice versa, isso para evitar que os casamentos se viessem a estabelecer entre pessoas da mesma família, entre filhos e mães ou entre pais e filhas, e a sociedade mantinha-se neste grau e com esta moral e com esta ideologia. Mas, a medida que as forças produtivas se foram desenvolvendo as condições económicas alteraram-se e quando sobreveio a primeira grande divisão social do trabalho que é entre a agricultura de que cuidava a mulher e a pastorícia de que passou a cuidar o homem, a produtividade no trabalho, na criação do gado passou a ser maior do que a da agricultura. Em resultado disso o homem passou a ter um papel diferente na sociedade, mais importante, e a transmissão dos próprios bens da sociedade, por exemplo a transmissão do rebanho, passou a ser um problema difícil de resolver naquelas alturas. O homem passou a ser importante porque do rebanho era ele que cuidava, enquanto que a terra pertencia a todo o clã, não se pondo o problema de saber a quem pertencia individualmente, da mesma maneira que os instrumentos de produção, escassos para aquela época, também não se punha o problema de saber a quem pertenciam - pertenciam a toda a comunidade. Mas com essa grande divisão social do trabalho passou-se a pôr o problema de saber a quem pertenceria, por exemplo o rebanho; a e aí que o homem, nesta divisão social do trabalho, começa a adquirir uma importância social, porque económica maior, e passa, ao mesmo tempo que domestica os animais, passe-me a expressão, a domesticar também o outro sexo. Isto foi um progresso social porque correspondeu ao desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, mas, a mulher deixou de ter até hoje o lugar de relevo que tinha na sociedade primitiva.

APENAS COM A REVOLUÇÃO SOCIALISTA A MULHER PASSARÁ A TER O PAPEL DE RELEVO IGUAL AO DO HOMEM
Apenas com a revolução socialista a mulher passará a ter o papel de relevo igual ao do homem. Enquanto essa sociedade não chegar, enquanto a mulher não se libertar de todas as peias que a oprimem, através da revolução social, ela nunca poderá ser equiparada aos homens. Convém dizer e lembrar que as mulheres não são uma classe na nossa sociedade, as mulheres integram as classes existentes na nossa sociedade. Existe a burguesia e há portanto mulheres burguesas e existe a classe operária e há portanto mulheres operárias e entre estas duas classes principais da nossa sociedade, existem um conjunto de outras pequenas camadas de classe, como a pequena burguesia, por exemplo, e a média burguesia e as mulheres estão também integradas nessas camadas de classe intermédias. Isto para que se evite uma abordagem cientificamente errada dos problemas das mulheres e se passe a considerar que a luta de classes na nossa sociedade seria entre as mulheres e os homens e não entre as classes sociais - a classe que é explorada e a classe que a explora. Não pode a mulher trabalhadora pensar que os homens vão fazer por ela a revolução social, socialista; será a mulher que a terá que fazer também e a quota parte da mulher é extremamente importante, não apenas porque elas são no nosso país 600 mil a mais que os homens, não apenas por uma questão de número, mas porque essa força que está adormecida, quando despertar é mais capaz parada luta, mais decidida, mais determinante do que aquelas forças que já estão habituadas, mas que tem também os seus pontos fracos.

O PARTIDO E A MULHER TRABALHADORA
A eleição a que procedemos hoje deste comité de mulheres trabalhadoras, é uma grande vitória na edificação do nosso Partido e no trabalho das mulheres. O nosso Partido, verdade seja dita, nunca dedicou a atenção que merece a mulher trabalhadora, e nunca dedicou à organização da mulher trabalhadora os esforços que é preciso dedicar. As mulheres trabalhadoras estão na nossa sociedade oprimidas, duplamente e por vezes triplamente - há vários tipos de opressão que se desencadeiam sobre a mulher, desde a opressão do marido, à opressão familiar, à opressão religiosa, ou à opressão económica e social. Há muitos tipos de opressão de que aqui geralmente não se fala mas que impendem fundamentalmente sobre a mulher. Por exemplo, no caso da religião, é sobre a mulher que as diversas ideologias reaccionárias religiosas desencadeiam os principais dos seus ataques, porque a encontram narcotizada pela sociedade e é nessa camada das mulheres que eles vão obter frutos imediatos maiores. Essas opressões de diverso tipo que impendem sobre a mulher impedem-na muitas vezes de realizar aquilo que gostaria, de lutar como quereria, e o nosso Partido - dizia eu há pouco - não tem dado suficiente atenção a estas dificuldades para organizar as mulheres trabalhadoras.
Teremos que adoptar uma política consistente em confiar nas mulheres trabalhadoras, em dar-lhes cargos de responsabilidade em igualdade com os homens e na minha maneira de ver mesmo em certa desigualdade, quer dizer: para que a mulher possa cumprir a sua função é necessário que ao preencher lugares dentro do Partido se elas estiverem um pouco abaixo ainda dos homens que são susceptíveis de ocupar aqueles cargos, o Partido deve dar o lugar à mulher. Isto porque sem esta bitola desigual, nunca conseguiremos criar uma situação de igualdade real. É claro, que seria duma grande hipocrisia dizer: "Dirigirá a célula quem estiver em melhores condições de a dirigir.” Porque neste caso raramente as mulheres estarão à partida, em condições iguais aos homens para dirigir uma célula ou um Comité. Logo, a política dos Comunistas deve ser outra, a de que deve-se dar evidentemente aos que estão em condições de dirigir, mas se houver uma mulher cuja diferença em relação ao homem seja pequena, isto é, não seja catastrófica para o Partido, deve-se dar esse lugar à mulher. Se proceder-mos de acordo com esta norma, as mulheres irromperão pelo nosso Partido dentro, algumas soçobrarão, como também acontece com os homens, algumas conseguirão levantar-se decididamente e isso, arrastará atrás de si, não apenas toda a camada das mulheres trabalhadoras, mas será um grande exemplo para os homens trabalhadores.
As mulheres trabalhadoras são muito acusadas dentro do nosso Partido, de todos os defeitos e os homens, em contrapartida, têm todas as virtudes. Trata-se evidentemente, dum ponto de vista inteiramente errado, dum ponto de vista reaccionário. São as consequências da posição, da ideologia dominante da nossa sociedade. São as repercussões dessa ideologia dentro do nosso Partido. É por isso que as nossas camaradas têm dificuldades, em dirigir o trabalho duma célula de Empresa ou de uma fábrica ou até de um bairro. É por isso que as nossas camaradas não se sentem encorajadas a participar na vida do Partido. Mas elas participam e devem participar cada vez em maior número.
Esta reunião foi organizada tendo em vista, apre sentar a todas as mulheres trabalhadoras aqui presentes, o exemplo daquelas mulheres, que participam na vida do Partido; ou porque são dirigentes sindicais; ou porque são dirigentes do Partido nas células; ou porque participaram nas greves; ou na Contratação Colectiva; enfim, num conjunto de domínios que em geral estão vedados à mulher.

O PAPEL DA MULHER NA PRODUÇÃO
A burguesia pensa que a libertação da mulher é uma questão técnica, é uma questão de discursos, e sempre que apareceu uma mulher a trabalhar em qualquer sítio, a burguesia faz logo um grande alarido. Por exemplo: lembro-me e lembrar-se-ão com certeza, que, quando as mulheres começaram a vender gasolina, não houve nenhum jornal nesta sociedade que não dissesse: "Olha como as mulheres estão a ocupar estes lugares todos”!" Vejam bem como as mulheres estão a emancipar-se"! Mas isto é a emancipação da burguesia. A burguesia substitui os homens pelas mulheres, pagando às mulheres o salário mais baixo e então elogia que elas apareçam nos lugares onde antes apareciam apenas os homens. É importante para nós, que as mulheres ocupem um lugar na produção. Sem dúvida que isso é importante, porque desde que elas ocupem um lugar na economia, elas começam a conquistar a base material da sua própria emancipação, começam a ser integradas na sociedade, nas lutas, na sua classe e começam portanto a ter da vida uma concepção diferente, uma ideologia mais avançada, começam a saber compreender o que querem e por onde devem ir. Por isso não somos, de maneira nenhuma, contra que as mulheres participem na produção e devemos até estimulá-las a vencer as dificuldades existentes, para que participem num grande número na produção. Mas, não vamos cair nesses pontos de vista pequeno-burgueses dos jornalistas de todos os matizes, que se aproveitam do aparecimento da mulher num local qualquer de trabalho novo, para vangloriar a mulher, exactamente escamoteando a exploração que subjaz à colocação da mulher naqueles lugares.
Ainda há pouco, uma das nossas camaradas invectivava e ironizava, contra o facto de que a mulher fazia renda. É claro, que as coisas não podem ser postas apenas nestes termos - "A mulher faz rendas" como se fosse um opróbrio a mulher fazer renda. Devemos é ver quais são as relações sociais que levam a que a mulher faça renda e porque é que isso assim é, e que relações sociais e económicas temos de destruir. Não é o problema da renda em si, porque isso é uma forma demagógica de atacar as coisas erradas desta sociedade. A mulher faz renda, antes de mais, porque na sociedade primitiva começou a fazer a rede, uma coisa absolutamente vital para a subsistência da sociedade daquela altura. Foi exactamente a partir da rede, que começou a fazer a renda. Pela qualidade do trabalho que isso exigia, pela atenção, pela concentração por uma série de particularidades que a mulher desenvolveu e o homem não desenvolveu, e que serão extremamente preciosas na sociedade dirigida pelos operários. (Nessa sociedade os homens desenvolverão essas capacidades que estão ocultas e que estão adormecidas), a produção basear-se-á logo de imediato sobre essas qualidades da mulher trabalhadora e essas qualidades vêm precisamente desses aspectos que muitas das nossas camaradas atacam de uma forma errada. A costureira seria então um opróbrio social, da mesma maneira que seria um opróbrio social, todas essas mulheres que fazem verdadeiras obras de arte, nos bordados, nas rendas, numa série de outras actividades produtivas que continuarão a existir na sociedade Socialista sejam feitas pelas mulheres ou pelos homens - que nessa altura terão também de saber fazer, todo o ponto em cruz e outras coisas parecidas.
A burguesia aproveitou-se, aliás magnificamente, para ela, dessas grandes qualidades das mulheres e foi por isso que quando a Electrónica se desenvolveu, e foi preciso compor circuitos integrados - que é uma coisa extremamente difícil, muitas vezes feitas ao microscópio - compreendeu a burguesia, que na sociedade só havia uma espécie de gente, passe a expressão, capaz de fazer aquele trabalho: Era a mulher. Porque habituada a fazer o granito e a fazer o ponto em cruz e outros trabalhos da mão de fada, também era capaz de enrolar bobinas microscópicas, o que podia implicar um grande progresso das forças produtivas da nossa sociedade.
Devemos ver as coisas numa base científica e não numa base pequeno-burguesa, na base da demagogia. Isso é errado! Devemos ver as coisas como elas são, o significado de classe que têm, e o que é útil, perseverar na sociedade dos operários e o que se deve combater na sociedade dos operários.
As mulheres trabalhadoras têm um grande papel a cumprir na nossa revolução e particularmente nos tempos mais próximos. As mulheres podem ser donas de casa, podem ser operárias, mas elas têm de dirigir o País. Uma dona de casa pode dirigir o País. Deve dirigir o País. Não há razão nenhuma para se pensar que ela apenas sabe arrumar as panelas ou varrer o lixo. Ela deve estar em condições de governar o Partido e de governar c País, e essa é uma tarefa do Partido que elas deverão saber realizar, mas que o Partido deve saber indicar o caminho para que a venham a realizar.

O SOCIALISMO DA BOLACHA
O Governo socialista, é um Governo da burguesia, que interpreta o sentir das camadas pequeno-burguesas da nossa sociedade. É um Governo que é ao mesmo tempo cúpido e estúpido, isto é: deseja emalar o mais que pode, convencido que a política que tem é aquela que ser vê melhor essas camadas da pequena burguesia, mas também não é. O Governo Socialista é um Governo que pretende estar sentado entre duas cadeiras: a cadeira dos operários que está à esquerda e a cadeira do grande Capital, que está à direita. O resultado é que vai cair. Não há possibilidade de ninguém se sentar entre duas cadeiras - ou se senta numa ou se senta noutra. Mas o Governo Socialista, depois de um certo tempo de hesitação, escolheu definitivamente sentar-se na cadeira da direita isto é, na cadeira do grande capital, e tomou em 25 de Fevereiro - não é um dia escatológico, isto é, um dia cuja data, o número da data tenha um significado obscuro, como pretende o primeiro Ministro, porque neste País, os governantes têm uma grande tendência para cair face às dificuldades da luta de classes, para cair na escatologia, no obscurantismo, e numa série de outras ideias reaccionárias - o dia 25 de Fevereiro, aliás, deverá ser referido como o aniversário do relatório secreto de Krutchev, contra Estaline e não propriamente como um conjunto de meses a seguir ao 25 de Abril. No dia 25 de Fevereiro, o Governo Socialista adoptou um conjunto de medidas contra a Classe Operária, contra as mulheres trabalhadores também e devemos compreender algumas dessas medidas para ver como podemos lutar contra elas. A principal medida que aí foi adoptada - a primeira, mais importante - foi a desvalorização do escudo. O nosso Partido foi o primeiro nesta sociedade a explicar porque é que era inevitável - a seguir o caminho que as coisas estavam a seguir - que os governos viessem a desvalorizar o escudo. Na campanha para as Eleições Legislativas, tive oportunidade e outros camaradas tiveram também oportunidade, de falar, sobre essa desvalorização inevitável, a seguir-se o rumo económico que as coisas estavam a tomar, e explicou ao Povo, que apor; as eleições, uma das primeiras medidas que seriam tomadas eram: o aumento dos bens de primeira necessidade, do preço dos bens de primeira necessidade, das mercadorias e a segunda medida, inevitável, seria a desvalorização do escudo e chamou à atenção do povo trabalhador para as implicações que teria essa desvalorização na sua vida diária e na sua luta.
O Governo Socialista, que assumiu o poder após as eleições, desmascarado pela ameaça que continha essa denúncia de que ele ia desvalorizar o escudo, foi aguentando quanto pôde e foi desmentindo continuamente que o escudo viesse a ser desvalorizado. Lembrar-se-ão, e é pena que certos camaradas nossos não dêem atenção a essas coisas, que três semanas antes do 25 de Fevereiro, exactamente três se manas, o Ministro de Economia e Finanças, sr. Medina Carreira, veio a Televisão garantir ao Povo Português, que a desvalorização não sobreviria, que não haveria desvalorização e que isso era um disparate colossal desvalorizar naquela altura, isso disse o Ministro nas Câmaras da Televisão, para todo o Povo e três semanas depois, o mesmo Ministro veio explicar a todo o Povo - a mesma pessoa, porque os que não acreditam que é a mesma pessoa, devem acreditar, porque de facto parece incrível, mas é verdade - três semanas depois a mesma pessoa vem explicar porque é que é inevitável desvalorizar e porque é que é a salvação do Pais a desvalorização.
Toda a actuação dos inimigos, doe Governos da burguesia, do grande capital e da pequena burguesia, ê a mesma. Mentem, com quantos dentes tem e na verdade, se fosse real que caiem os dentes à medida que se mente, a burguesia não teria dentes.
A desvalorização do escudo, resolve algum problema da nossa sociedade? Não resolvei Porque a desvalorização é a consequência de bancarrota, não é um mal para a bancarrota. Não se pode resolver os problemas da nossa sociedade com truques, com malabarismos, com actos de prestidigitação, como fazem no circo os ilusionistas. Resolvem-se os problemas da nossa sociedade ao serviço de uma classe ou de outra classe. Não se pode tomar medidas que contentem as duas classes; ou as medidas contentarão o povo e terão o apoio do povo ou contentarão a burguesia e serão combatidas pelo povo.
A desvalorização do escudo não resolve coisa nenhuma. Antes, onde tínhamos uma divida de 100, passamos agora a ter uma divida de 115 e onde antes exportávamos 100, passamos agora a exportar 85. Quer dizer que passamos a dever em vez de 15,30. As nossas dívidas externas aumentaram com a desvalorização do escudo, quer dizer; que a continuar por esse caminho é inevitável uma nova desvalorização do dinheiro, dentro de algum tempo. A desvalorização também não resolve nada e vai agravar a vida do povo, porque 50% - e não 4/5, como disse aquela excelente camarada que falou aqui e que emocionou, muito justamente, todo o nosso auditório - 50% do que importamos é para comer, e por conseguinte, vamos passar a comer 15% mais caro as coisas que importamos, mas as outras 50%, que não comemos pelo estômago, comemos indirectamente. Os outros 50% são para comprar máquinas, são para comprar instrumentos de produção que vão portanto elevar o preço das coisas que produzem, que ajudam a produzir e, por conseguinte, esses bens, essas mercadorias vão sair mais caras no nosso mercado. É portanto falsa, é mentirosa, ê hipócrita, é reaccionária a ideia do Ministro das Finanças e de todo o Governo de que o nosso dinheiro continua a valer o mesmo e que a desvalorização não prejudica o comércio interno no nosso país. É uma mentira que ele aliás sabe ser mentira mas, é de mentira em mentira que ele julga ir ganhando apoio e ganhando tempo e folgando as costas.
Por outro lado, as razoes apresentadas pelo Ministro devem ser repudiadas pelas nossas mulheres trabalhadoras. Diz o Ministro, que como desvalorizamos em 15%, a nossa moeda ficou mais barata, os estrangeiros vão vir, mais ao nosso país. Mas, isto é também uma fraude porque o próprio Governo tem estado a dizer antes do 25 de Fevereiro que os hotéis estão cheios para a próxima temporada, que o próximo ano será o ano de maior turismo no nosso país. Ora, se os hotéis estão cheios, quando o dinheiro valia mais 15%, não podemos enchê-los mais quando vale menos 15% e portanto isso é um negócio ruinoso para a nossa economia porque, podendo obter o dinheiro dos turistas a um preço mais alto, vamos obtê-lo a um preço mais barato. Quer dizer, essa medida vai contra os interesses da própria balança de pagamento que eles dizem estar a defender.
Por outro lado, esses 15% também não vão facilitar as nossas exportações, porque a bancarrota económica que existe no nosso país impede-nos de aumentar a exportação. Não podemos exportar mais têxteis, não podemos exportar mais artigos eléctricos, não podemos exportar mais sapatos, porque a bancarrota é tal, que essa produção não pode ser aumentada. Logo, mesmo que os sapatos fiquem mais baratos no estrangeiro, o certo é que nós não podemos exportá-los mais; mesmo que o vinho fique mais barato no estrangeiro o certo é que ninguém nos comprará mais; mesmo que os têxteis fiquem mais baratos no estrangeiro, o certo é que ninguém nos comprará mais, nem nos poderemos exportar de imediato mais; logo vamos vender as nossas coisas mais baratas e não vamos estipular a produção de maneira alguma.
Diz o Governo, o Governo dos capitalistas - contra o qual as mulheres trabalhadoras se devem levantar - diz o Governo, que os 15% da desvalorização da moeda vão facilitar a remessa dos nossos emigrantes - esses aliás procuram caçar o dinheiro dos emigrantes como quem caça moscas ou formigas nas nossas casas - elas caçam o dinheiro dos emigrantes mas o dinheiro também não vem porque o emigrante não é estúpido, contrariamente ao que acontece com o Governo. O emigrante sabe perfeitamente que, se é verdade que 100 francos têm agora mais uns escudos, onde antes dava 720$00 agora pode dar 760$00, sabe também que com os 760$00 não compra mais do que antes comprava com os 720$00 cá dentro. Quando manda o dinheiro cá para dentro o emigrante sabe: "Desvalorizou-se o dinheiro logo a minha família já não pode viver com 5 000$00 tem que viver com 6 000$00 — e mesmo que haja uma diferença na compra dos francos que ele manda para cá, o certo é que a família fica sempre arruinada. Essa a razão porque, de uma forma geral, o emigrante não mandará mais dinheiro, mesmo apesar de se dizer que esta medida tem o apoio do emigrante. De resto, os emigrantes para agradecer ao Dr. Mário Soares quando ele esteve agora em Paris, reuniram-se e foram esperá-lo à embaixada e não saíram dai sem o Dr. Soares aparecer para lhe agradecerem a medida que tinha tomado e o Dr. Mário Soares quis fugir, mas teve que ir a embaixada onde não recebeu agradecimentos; também não recebeu ovos podres, mas para a próxima não se livrara disso.
O Governo do Dr. Mário Soares intenta iludir os trabalhadores com a história do cabaz das compras. As mulheres trabalhadoras devem levantar-se contra esse cabaz, aliás elas vão compreender pela prática, ainda que de imediato possam não compreender certos aspectos da teoria, no entanto eu julgo que as donas de casa devem dirigir o País e estar em condições de compreender a teoria. O Governo adoptou uma medida cuja lógica é esta: "Se eu garantir os preços das coisas que os operários comem, durante um ano, os operários não vão pedir aumentos durante um ano”. Esta é a lógica do Governo. Mas então como é que o Governo faz? Escolhe um conjunto de produtos que os operários comem - vamos ver se copiem - que os operários comem, garante os preços daqueles produtos e diz na televisão que agora a classe operária está garantida. Tem o saco da esmola, tem o pão por Deus, tem enfim o cabaz das compras. O cabaz das compras desde logo como está constituído, não serve para a classe operária como é evidente. Desde lego o que não faz parte do cabaz das compras - o gás, o bacalhau, e batata, o vestuário, o calçado, a manteiga e uma série de outros produtos que fazem parte da comida dos operários, e que pelo menos deviam fazer, além de que não faz parte a carne fresca, mas sim a carne podre ou a carne congelada, como lhe queiram chamar, não faz parte o peixe fresco, não faz parte o principal que qualquer mulher trabalhadora tem que meter na panela em casa para dar de comer a si, aos filhos e ao marido. Mas, em contrapartida, do cabaz da fome faz parte um conjunto de coisas que a mulher não come. Por exemplo, tem três qualidades de bolacha; a bolacha Maria, a bolacha quadrada e bolacha de água e sal. Estou convencido que qualquer de vós quando apresentar isso ao marido: no primeiro prato, um prato de bolacha redonda; no segundo prato bolacha quadrada; e sobremesa a bolacha de água e sal, não se verá bem a contas com o companheiro que tem e ainda que, como eu costume dizer, o Governo socialista tenha uma especial predilecção pela bolacha, não é dever que os trabalhadores tenham” que ter essa predilecção pelas bolachas.
Em conclusão, os produtos do cabaz da fome não vão resolver os vossos problemas e também não veio resolver – mesmo que contivesse todos os produtos que lá eram necessários – também não vão resolver os problemas dos operários, porque desde logo eles foram aumentados em média 40% — os que estão no cabaz da fome e os que estão fora do cabaz da fome foram aumentados acima de 50%.
Por exemplo, as camaradas sabem, que quando iam comprar 3/4 de quilo de manteiga, se acaso alguém ainda compra disso, custava 14$00 antes do dia 25 e passa agora a custar 25$00 depois do dia 25. Um aumento que é extremamente colossal, são 44$00 em quilo, o que é portanto um aumento de quase 50%. Sabem também que quando compravam pão de segunda, por exemplo o pão de centeio, custava 2$60, agora custa 5$30 aumentou mais de 100% e é evidente que este cabaz não nos leva a resolver os nossos problemas. Mas as mulheres trabalhadoras sabem isso melhor do que eu. Eu estou a levantar estes problemas para mostrar, que esta teoria de que mantinha a reserva de consumo dos operários a preços estáveis, e portanto o operário não pedia aumentos, é uma teoria que não pode ter o vosso apoio, nem ter como certeza o vosso apoio, nem o apoio de todas as mulheres trabalhadoras.
O Governo socialista julga que ilude os trabalhadores. Publicou primeiro uma lei a dizer que não podia haver aumentos salariais, não pode haver aumentos salariais por ano superiores a 15% e elaborou um cabaz da fome, cujos preços são aumentados em media 40% além de que os preços das mercadorias de primeira necessidade subiram era média 50%. Por outro lado, com a desvalorização do escudo, dentro de alguns meses todas as coisas subiram no custo, em 15%, quer dizer, que no fim do ano aqueles operários que ganhavam 5 000$00 comprarão coisas como agora comprariam com 2 500$00. Isto quer dizer que vão de facto apertar o cinto, no caso de ainda terem cinto. Que vão de facto passar uma vida de miséria, tuna vida de fome. E quando o nosso Partido fala de fome, não é demagogia, não é uma figura de retórica, e uma realidade que o povo vai sentir cada vez mais.

HÁ UMA SOLUÇÃO OPERÁRIA PARA A CRISE
Mas não há solução para estes problemas? Há solução para estes problemas. Há uma solução operária para estes problemas que não é desde logo a Revolução Socialista como nós desejamos e pela qual lutaremos até ao fim, até ao último sopro de vida, que resolverá então todos os problemas assim, mas há uma solução para os problemas imediatos do povo. A solução está em que os operários e os trabalhadores, exerçam uma vigilância apertada e uma direcção sobre os assuntos da economia. Isto é, que as donas de casa dirijam a economia, que os trabalhadores e os operários e as suas mulheres sejam capazes de organizar-se para exercer essa direcção.
Não esperem que o Governo vos chame para tomarem a direcção. O Governo nunca vos chamará a dirigir o País. Apenas a luta das mulheres imporá que as mulheres dirijam também, o Pais, as mulheres e os homens que trabalham, as mulheres Comunistas e as mulheres que não são Comunistas mas que são trabalhadoras. Não esperem, portanto que o Governo vos faça um convite para ocuparem S. Bento, nem sequer precisamos de estar lá para aplicar a política que serve à classe dos trabalhadores. Trata-se por conseguinte duma tarefa que é antes de tudo de organização. Se nos bairros, nas fábricas, nos campos, nas aldeias, os trabalhadores se organizarem para exercer a vigilância sobre os roubos, sobre os açambarcamentos, sobre os lucros dos capitalistas e exigirem que sejam publicados em toda a parte os lucros fabulosos que os capitalistas têm nesta altura de fome para o povo, concerteza que o povo ganhará força, ganhará organização e direcção suficiente para impor ao grande capital uma solução operária para a crise. Essa solução operária não é sequer de difícil execução. Na nossa sociedade existem todas as condições materiais para aplicar esse controlo dos trabalhadores sobre a produção e sobre o consumo.
Hoje o nosso País deve dinheiro ao exterior? Hoje o nosso Pais tem uma divida externa muito grande? E como contraiu essa divida? Quem fez com que o dinheiro não entrasse no nosso País?
Quem pôs o dinheiro que havia cá dentro lá fora? É preciso averiguá-lo, e preciso indicá-lo, é preciso prendê-lo, é preciso fuzilá-lo. Essa é a única solução para a crise, não há outra solução possível.
Falta trigo no nosso país e o pão é caro? Mas por que é que não se produz trigo? Porque é que os latifúndios estão abandonados? Porque e que as reservas que quiseram retirar aos camponeses não foram cultivadas? Porque é que não existem instrumentos necessários para que os camponeses cultivem a terra e produzam para alimentar a indústria? Porque é que essas coisas são assim? Porque é que não há bacalhau no mercado e há nas próprias organizações do Estado? Porque é que não existe batata ou a batata está cara, quando ela está a apodrecer? Porque é que não se pode vender no nosso País sapatos baratos e se pode vender aos russos? Porque é que não se pode vestir una camisa por menos de 300$00 e os ingleses vestem por 50$00?
São estas coisas que vocês têm de perguntar, que todas as mulheres trabalhadoras devem perguntar. E se souberem perguntar, se souberem fiscalizar, se souberem exercer a vossa vigilância, com certeza que o Governo não terá apoio, com certeza que o cabaz da fome é um cesto que ele terá de levar para casa. Com certeza que nós não nas vamos deitar iludir nem pelas canastras da fome, nem pelo cabaz da fome, nem pelos pacotes dos decretos mas, vamos encontrar a solução ao nível do nosso bairro, ao nível da nossa fábrica, e ao nível de todo o País que permite resolver as dificuldades do nosso povo.
Há fome? Há certamente. Para quem? Para os que trabalham. Não hã fome para todos. Os ricos não têm fome. Os ricos não se preocupam que os medicamentos custem 15% mais caro. Os ricos não se preocupam que o pão de segunda subisse 100%, porque eles só comem de primeira. Os ricos não se preocupam que a manteiga aumentasse 44$00 em quilo porque eles já comiam a manteiga a qualquer preço que seja. Então o Governo toma medidas contra o povo e não toma medidas contra os capitalistas, contra a CUF e contra os Meios a quem vai pagar, vai reembolsar das Indústrias que possuíam, a quem vai reembolsar as acções que tinham depois de serem nacionalizadas? Então afinal quem vai pagar isto tudo? Vão pagar os que sempre pagaram e os outros que nada fizeram, que nunca trabalharam que pareciam que estavam na mó de baixo, agora vão passar a dirigir-vos. Vamos apertar o cinto e eles vão alargá-lo porque nesta sociedade onde alguém aperta noutro lado alarga, não há possibilidade de apertar para todos. Nós devíamos adoptar uma política diferente. Também gostamos da política do cinto, gostamos de apertar o bandulho dos capitalistas até que deitem pela boca o que roubaram ao povo, gostamos de apertar na cadeia o pescoço dos capitalistas, ate pagarem o que fizeram ao povo, os assassínios que cometeram, as mulheres que violaram, os trabalhadores que colocaram no desemprego. Nós também gostamos dessa política. O cinto serve para enforcar. O cinto serve para dirigir, mas é sobre a classe dos capitalistas, não é sobre a classe do nosso povo, não é sobre as classes trabalhadoras, não é sobre os nossos operários nem é sobre as nossas mulheres.
É preciso que as mulheres se levantem, que se organizem, que tenham a consciência do que vos espera porque certamente os problemas também vão começar a surgir em casa. Quando há lutas na sociedade também há em casa. Os maridos muitas vezes não compreendem o que é que se está a passar e pensam que a mulher que antes gastava 100, está agora a ser perdulária, porque gasta 150 e vão começar a surgir as desinteligências domésticas, vão começar a surgir os problemas, as dificuldades, os filhos que não podem ir para a escola, vão começar a surgir problemas porque os filhos nem sequer podem comprar as coisas para ler, vão começar a surgir todos os problemas domésticos - não vão com certeza andar à pancada com os companheiros - esperamos também que eles não façam a mesma coisa - mas o certo é que dentro da família repercute-se a luta de classes na sociedade e se a mulher não tiver uma consciência elevada dos problemas e se o homem trabalhador não tiver também uma consciência completa destas questões é logo em casa que começa a balbúrdia, a divisão, aquilo que o inimigo quer. Isto é, que todos nós andemos à bulha para ele começar a poder explorar.
O que fizemos aqui hoje, esta Reunião com as mulheres trabalhadoras, na qual tenho um grande orgulho de ter participado, é uma Reunião que deve ser histórica no nosso Partido, que deve estimular todas as nossas mulheres trabalhadoras, a levantarem-se onde quer que estejam; estejam no Partido ou estejam fora dele, ou ainda não tenham chegado a ele, nos bairros, nas fábricas, em toda a parte, as mulheres trabalhadoras, são neste momento uma camada de vanguarda, são elas que vão encabeçar essas lutas.
Mas vão encabeçá-las sobre que direcção? Sobre a direcção da Classe Operária? Sobre a direcção dos Comunistas? Nós cremos que sim. Ou vão encabeçá-las sobre a direcção da burguesia? Nós cremos que não.
VIVAM AS MULHERES TRABALHADORAS!
VIVA A CLASSE OPERÁRIA!
VIVA O POVO!
ABAIXO OS TRAIDORES!
MORTE AOS RENEGADOS!
MORTE AOS TRAIDORES!
VIVA A CLASSE OPERÁRIA!
VIVA A DITADURA DO PROLETARIADO!
VIVA O COMUNISMO!

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