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quinta-feira, 16 de março de 2017

1977-03-16 - O Proletário Vermelho Nº 71

Editorial
LÁ VAMOS INDO, COMO DEUS É SERVIDO!

Passou agora o dia 11 do mês. Que é Março, mês que entre nós ficou quase tão grave na memória das gentes como o de Abril: um para certa “esquerda", outro para certa "direita”.
Para todos porém, a ocasião de meditar um pouco nos contraventos da história. É que os aniversários dos golpes (ou dos contragolpes) vão-se esvaziando de significado quando ficaram apenas pelo empolamento das ruas, iradas de slogans sonoros e massiças de "povoléu” em festa. É que, com a psicose de “comemorar” os aniversários de golpes, ficaram os partidos mais interessados neles — os do respectivo contragolpe — e não ficou - gravemente ou sintomaticamente — a malta, o Zé-trabalho. Porque certos “golpes” foram uma farsa?...
Principalmente. Mas não só. PORQUE A MALTA TEVE DE SE AGARRAR À VIDA. Porque obrigaram a malta a deixar na rua a festa e voltar a casa sozinha. Porque quem trabalha teve de vir à pressa cuidar do seu trabalho. E teve de o fazer exactamente porque mais ninguém o fazia. Porque os partidos do poder constituído e dos poderes que se querem constituir menos contra aquele que contra nós — não serviam afinal para o fazer. Não queriam fazê-lo. Fazer esta coisa grande que é a de manter a malta em acção pelo Futuro, fundir a Festa na vida.
No país, esta “guerra dos partidos à margem do povo” tem má nota no passado. E que já caiu, por tais motivos, uma, a primeira, República. Mon­tou, por tais motivos, o dorso do país o Salazar, o castrador, o safardana-mor lacaio da latifúndia e da colónia que não precisa de partidos para ser poder. E este passado pesa gravemente no horizonte futuro. Como já é comum entre nós.
Claro que já “não há” colónias; claro que já “não há” latifúndia por aí, além dos 50 mil malfadados — e mal julgados pontos. Isto é, mudaram de controleiro, estas colónias, esta latifúndia. “Colectivizaram-se" dizem num e noutro caso os seus “colectivizadores”. E que já num e noutro caso é PC que votam, é pois PC o partido que pode prescindir dos demais para cavalgar, machão, o país.
Daí que seja o PC, que seja o novo Salazar dos anos setenta - já não de bo­tina e cabelo à escovinha mas de cãs e sobrancelhas hirsutas a branco dos Urais o grande interessado em pôr este povo à margem destes partidos. Contra estes partidos. Melhor: indiferente a todos os partidos.
O grande mal é que, sorrateiramente, este povo está a ir na onda. Está a voltar os olhos da rua para o prato da sopa. Está a dizer que “PC jamais" mas também que o importante É comer. Que o importante é sobreviver. Viver, sobretudo. O que implica dizer também “com o PC” se ele nos der de comer e sobreviver.
E vêm as eleições políticas e vota menos. E vêm as eleições sindicais e vota menos. Participa menos. E vem o avanço clandestino do “Álvaro das intentas” e a malta move-se menos.
Se o senhor conselheiro general Lourenço comemora no Ralis a vitória contra o 11 de Março, antes do próprio processo do 11 de Março e apesar da quase reabilitação dos acusados do 11 de Março, este povo fica indiferente. E é grave. Para o povo que não para o conselheiro.
Se o senhor ex-general Galvão de Melo lança no Coliseu anátemas e insultos sobre a descolonização, porque lhe não convém analizar mais a fundo mas arregimentar tropa de choque, fica-se, ainda indiferente a malta. E é, apesar do ridículo, grave. Para a malta que não para o administrador da FINA.
Pegue-se no cidadão e inquire-se-lhe da vida, como vai. Pergunte-se-lhe do futuro como o vê. Interroga-se-lhe da fé na sua força, como a utiliza.
Responde que “vamos indo como Deus é servido”. E agita, céptico, os ombros carregados. Carregados de preocupação que não de decisão. Carregados — perigosamente - de desânimo, de “deixa andar não há-de ser nada”, de “o que mais importa é acordar vivo”.
Vamos pois indo mas mal. Porque de certo modo convém que assim se vá. E sabe-se A QUEM convém.
Convém ao partido do governo, esta resignação aceitante para arrumar a casa sem tanto esforço e menos crises.
Convém ao pró-governo da “maioria de esquerda” que se não movam as pessoas. Porque mais minoritário que é ainda, haveria de perder certamente na agitação da maioria que o não quer por ora.
Convém à oposição nacional capitalista que assim seja, pois que a mover-se o povoléu haveria fatalmente de se mover contra o capital, contra essa oposição pois.
Só ao povo afinal não convém a tranquilidade. Pois que contra si se ergue, contra si manobra.
Escrevia-nos há dias, grata, uma leitora, camarada de objectivos sobre a denúncia aqui feita do desertor e do cobarde que trabalha mas não luta, que se luta é para perpetuar o princípio do “salve-se quem puder e coma entretanto até poder”. E insurgia-se contra tais dizendo que reencontrara, connosco, a esperança e a coragem de voltar ao combate onde mais falta se faz: onde é mais difícil e intrincado de ratoeiras e desgostos.
Ficámos contentes todos e confiantes mais ainda.
Porque talvez outros terão sentido o mesmo, mas poucos são os que marcam a presença com algumas linhas, de alento ou de crítica.
Porque já constatámos o que já pressentíamos: que a disposição à luta passa por abandonar o núcleo de cada qual e unir as forças aos que estão do mesmo lado, não em casa mas no espaço social em que trabalhamos e vivemos.
Que a vitória de nós todos há-de ser dura e difícil. E longa. Mas é certa. Se unirmos tudo quanto PODE ser unido. Se unirmos a vontade consciente dos que sabem o que querem e querem, com certeza, servir a maioria que trabalha duro. Se nos prestarmos a lutar sem olhar à vantagem pessoal. Se possível, CONTRA a vantagem pessoal. Contra o maldito individualismo que dezenas de séculos de pré-história social nos instalaram nos hábitos e costumes.
É esse colectivamente, o inimigo a abater. Seja qual for o emblema da lapela ou o cartão de partido na carteira. Só assim acabaremos por avançar. Até lá, marcamos passo mudando entretanto de “senhor”.
Não podemos pois “ir indo conforme Deus é servido”. E preciso “ir indo conforme convém mais aos que trabalham”. Indo e fazendo. Indo e construindo o futuro. O FUTURO. E menos o presente, onde a corrupção e a vantagem pessoal imperam e contaminam.
É preciso pois, para ver mais longe, abrir mais ainda os olhos. Escancarar, mais ainda, a avidez de conhecer. Exigir, mais ainda, aos que, no presente, podem e dirigem atestado de honra. Atestado de futuro. Atestado de que merecem e merecerão a nossa confiança mas não a nossa fé. Mas sim a nossa — útil — crítica, vigilância e ajuda. A nossa participação activa e determinada na vida colectiva, social, humana.

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