quinta-feira, 9 de março de 2017

1977-03-09 - O Proletário Vermelho Nº 70

Editorial
FORA COM A INCOMPETÊNCIA

É corrente ouvir dizer — e, para os menos distraídos ou melhor informados, é também corrente constatar — esta coisa terrível que é «a incompetência, a incapacidade profissional e o desleixo, tomam conta do país». Perante isto, ou procedemos,como o maniqueísmo moscovita ensinou à «esquerda», classificando tais afirmações de «reaccionárias», ou vamos confirmar e verificar. E se o fazemos constatamos que é verdade. Tragicamente verdade.
A ditadura terrorista de Salazar e Caetano foi a incompetência, a incapacidade e o desleixo. Por isso, porque o foi, só a chicote conseguiu impor alguma qualidade, alguma «competência» aos trabalhadores. que não aos dirigentes nem aos governantes. O edifício lógico fascista, glorificando « o trabalho, a honra e o brio» como a «Deus», à «Pátria» e à «Família» mantinha o escravo a produzir, os capatazes - da produção e da polícia — a chicotear e vigiar, a despedir e torturar, para proteger o seu Olimpo de privilégios, para render culto ao ócio, à preguiça, à incapacidade e ao cretinismo. Importando o «edifício moral» da sociedade para o interior da própria família, o fascista perpetuava assim a sua própria incompetência, rebatendo com o garrote do «pai tirano» toda a crítica que lhe pudesse chegar da sua própria juventude.
Na sociedade trabalhadora, porém, a incompetência, a ignorância e o ócio eram «crime moral», atentado social, sintoma de parasitismo típico da «vida de grande senhor». E assim pensando, pela educação da própria mão que trabalha, o produtor foi-se da ignorância libertando, foi ganhando pouco a pouco a habilidade e a cultura autêntica, construindo o «mundo da resistência popular». Até que esta resistência, reflectindo-se no «reino dos senhores», lhes abalou a unidade e a segurança mostrando que, tal como o reizinho da fábula, também o fascismo ia nu!
Hoje porém, quebrado o garrote do capataz e do polícia, apeados os antigos senhores da inércia e da cultivada burrice fascistas, o produtor repousou.
À sombra dos louros? Como revolta tardia? Por identificar o espírito de pátria com o espírito do fascismo? Por reflexo individualista do culto ideológico burguês pelo interesse pessoal acima dos interesses colectivos, dos interesses de classe ou de país?
Várias são as perguntas, regra geral tendo esta última como resposta. O facto porém é que se produz não só menos como pior. O facto é que se trabalha não só menos como menos aprendendo no trabalho. O facto é que «todo o mundo» busca a comodidade e ninguém o esforço. O facto é que, assim, vamos a pique.
A má qualidade da vida deve — tem de — começar pela qualidade do trabalho que transforma a vida. De outro modo não haverá «vida melhor para os portugueses».
Os direitos de quem trabalha não podem limitar-se ao de responder «bardamerda, já» às críticas e melhorias, mas hão-de estender-se ao direito a discuti-las no fito de prestar melhor serviço.
O direito ao mínimo esforço não pode resultar no direito a preguiçar o tempo assim poupado, mas há-de encontrar forma de aproveitar esse tempo para melhorar a qualidade do trabalho.
O direito à greve, o inalienável e sagrado direito à greve, não pode restringir-se a uni programado tempo de lazer que esbulha a sociedade toda, mas a um maior esforço ainda por obrigar o patrão a devolver parte maior da produção operária, parte valiosa porque esforçadamente feita e qualificadamente produzida.
O direito de resistência não poderá pois continuar a usar-se contra o país todo sob o pretexto de luta contra um demagógico patrão, mas há-de encontrar forma de retirar aos parasitas a apropriação imóvel dos bens sociais para maior bem social.
Se isto não for estrada para o socialismo que se quer jamais se chegará ao socialismo que se deseja, mas a «outro».
Ao «socialismo» em que a inépcia e a preguiça se escondem sob o emblema do partido do privilégio, se disfarçam sob a corrupção do voto, do compadrio e do silêncio cúmplice.
Ao «socialismo» em que a direcção do Estado haverá de recorrer à cumplicidade do silêncio para não erguer o pó em tomo da sua incompetência.
Ao «socialismo» onde os mais tolos e os mais cor­ruptores hão-de ser os mais ferozes na crítica tonitruante para esconder as suas próprias mazelas, vícios e defeitos.
Ao «socialismo» onde quase todos sabotam pela indiferença individualista e apenas alguns, teimosos, ficarão de pé a construir para o futuro.
A social-democracia foi a grande utopia dos tempos de ouro da exploração colonial. Sem esta, a social-democracia é uma utopia sem ritmo nem tino. Ritmo e tino que temos que apanhar rapidamente. Na prática da competência, na melhoria da qualidade do trabalho para melhorar a qualidade de vida, na melhoria da honestidade moral de cada um para melhorar a qualidade da crítica e o progresso.
Se temos o direito de culpar o meio século de fascismo dos nossos males de hoje, já não o temos se queremos furtar-nos a esses males no lazer e no conforto como se não tivesse havido, afinal, o fascismo.
Temos de nos entender abertamente na justiça e de recusar a unidade cúmplice e nebulosa dos que se unem na culpa. É preciso alijar esta culpa e recriar a fé de ser trabalhador, trabalhador português. É preciso para alijar de seguida os que, montados à garupa da demagogia de «esquerda», nos querem meter, mais dourado, o velho freio e os que nos acenam hoje com os «bons velhos tempos de antigamente».
Para tal, precisamos, nós trabalhadores, de estar fortes e unidos, de escorraçar os «podres» que entre nós se infiltram, de combater, porque essa é a nossa moral verdadeira, a imoralidade do parasitismo especialmente nas nossas fileiras.
Não se trata portanto de trabalhar primeiro e reivindicar depois. Trata-se, isso sim, de trabalhar melhor para reivindicar a sério. Para reivindicar o máximo. Competentemente e sem perigo de abalos.

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