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sexta-feira, 3 de março de 2017

1977-03-03 - Voz do Povo Nº 137 - UDP

EDITORIAL
25 DE FEVEREIRO:
O 25 DE NOVEMBRO NA ECONOMIA

O dia 25 de Fevereiro de 1977 ficará, por certo, como um novo marco na vida política portuguesa pós-25 de Abril.
Foi a 25 de Fevereiro que o Conselho de Ministros do Governo Soares decidiu promulgar um conjunto de várias dezenas de diplomas, conhecidos como “medidas económicas de emergência”.
Dias mais tarde, na Assembleia da República, o reaccionário Adelino Amaro da Costa, falando em nome do CDS, ofereceu a “compreensão e o acordo" do seu partido para com essas medidas, que classificou como “o 25 de Novembro económico”. Vindas da boca dos reaccionários do CDS, estas palavras têm um significado bem claro: chegou a altura de eliminar as alterações económicas provocadas pelo 25 de Abril; chegou a altura de mostrar se o Governo deseja ou não levar o 25 de Novembro até ao fim. O 25 de Fevereiro é pois a segunda parte do 25 de Novembro, o seu desenvolvimento lógico. É pois natural que o CDS, que impulsionou e aplaudiu o 25 de Novembro, esteja de acordo com estas medidas. Tanto mais que uma das mais significativas dentre elas - a desvalorização do escudo - fazia parte do próprio programa do CDS. Mais uma vez Soares segue o programa do CDS, submetendo-se à vontade expressa do imperialismo, que repetidas vezes insistira já na necessidade dessa desvalorização. Também para nós, obviamente por razões diferentes, este é o 25 de Novembro na economia. Em 1975, o 25 de Novembro significou um rude golpe nas liberdades conquistadas pelo povo. Hoje, estas medidas são um rude golpe na independência nacional e nas conquistas económicas dos trabalhadores após o 25 de Abril.
Debrucemo-nos apenas sobre a desvalorização do escudo, por certo a decisão governamental com maiores implicações.
Mas que forçou Soares a tomar esta medida que há bem pouco tempo os seus ministros garantiam não estar nos projectos governamentais?
O adiamento do empréstimo de 1,5 biliões de contos pelo chefe do imperialismo americano e a visita às capitais do Mercado Comum parecem ter sido os “argumentos” decisivos que levaram Soares a tomar esta medida.
Mas porque é que a desvalorização do escudo interessa tanto aos imperialistas?
Para os imperialistas que têm numerosas fábricas em Portugal, a desvalorização significa simplesmente que os salários dos operários portugueses passam a ser reduzidos em 15% relativamente aos operários de outros países, ou seja, significa que com esta manobra, os donos de fábricas estrangeiras em Portugal, que só cá vêm utilizar a mão-de-obra barata, passam a ter um aumento de lucros da ordem dos 15%.
Para a grande burguesia portuguesa, esta medida é um sopro de ar fresco que lhe vem permitir restabelecer-se dos danos sofridos com o 25 de Abril. Assim, os grandes exportadores portugueses, nomeadamente os têxteis, serão fortemente beneficiados. Ao mesmo tempo, e como a desvalorização provoca uma alta geral dos preços, o salário real dos operários fica diminuído, aumentando assim a burguesia os seus lucros.
Os terceiros contemplados com a desvalorização são os capitalistas portugueses que após o 25 de Abril fugiram com milhões de contos para o estrangeiro. Caso desejem fazer regressar alguns capitais a Portugal, esses monopolistas sabotadores terão um bónus de 15%.
Por último, beneficiam também com esta medida os especuladores que têm andado envolvidos em grandes operações de compra e venda ilegal de moeda estrangeira.
Feitas as contas, os beneficiados com esta nova situação não atingem sequer 10% da população portuguesa. Os restantes 90%, a larguíssima maioria portanto, só tem a perder com esta medida.
Em primeiro lugar, ela provoca a diminuição brutal do salário real da classe operária e do conjunto dos trabalhadores.
Em segundo lugar, um aumento brutal dos preços.
Em terceiro lugar, condições de vida mais duras, não apenas para a classe operária, mas também para todos os que se vêem obrigados a utilizar produtos importados, ou feitos a partir de matéria-prima importada. Estão neste caso os agricultores que têm de comprar os adubos e rações. Sectores comerciais importadores e a pequena e média burguesia industrial que utiliza grande quantidade de matéria prima importada, são também afectados.
Estes 90% da população portuguesa afectada pela desvalorização, englobam como se vê, classes sociais extremamente diversas.
E junto de algumas destas classes, desiludidas com o 25 de Abril e cada vez em maiores dificuldades, que jornais ultra fascistas vão tentar manobrar, no sentido de criar um clima propício aos seus desejos de um golpe fascista.
Os revolucionários devem desenvolver todos os esforços para combaterem a desvalorização e simultaneamente essa propaganda salazarista que não visa a melhoria das condições de vida do povo, mas antes pelo contrário, o seu agravamento ainda maior.
Aos revolucionários compete unificarem o descontentamento de todas essas classes, canalizando-o num sentido revolucionário. Para isso, há que desenvolver a consciência anti-imperialista do nosso povo, aproveitando este exemplo para evidenciar os tremendos prejuízos que a ganância e rapina dos imperialistas causam aos trabalhadores portugueses.
O Governo Soares marcha de cedência em cedência aos desejos do imperialismo. Aqui há meses dizia que não se desvalorizaria o escudo. Bastou um ligeiro aumento do tom da voz dos magnates internacionais para essa firmeza se ir por água abaixo. Hoje, o ministro Sousa Gomes corre já a declarar que não haverá mais desvalorizações. Amanhã a realidade mostrará como ele hoje mente. As desvalorizações de moeda são sempre um círculo vicioso. Uma desvalorização nunca é a única. E sempre a primeira de uma série. Até os economistas burgueses são obrigados a reconhecer esta evidência, que o Governo nega, nas páginas do insuspeito jornal governamental “Diário de Notícias”.
Ao tomar estas medidas, que vêm agravar de forma brutal o nível de vida dos trabalhadores, o Governo Soares tem a hipocrisia de mandar publicar na imprensa, como publicidade paga, o slogan “Temos de viver com aquilo que temos”. Quer dizer: os trabalhadores com salários de miséria e os monopolistas e latifundiários com as fábricas e as terras que o Governo lhes devolve.
É esta a lógica desse Governo falsamente socialista, que pela sua acção torna cada dia mais difícil a vida do povo português e que dá campo aos fascistas para fazerem propaganda contra o socialismo, com o qual, aliás, o dr. Soares não tem nada a ver.
À sombra deste governo, manobrando entre o descontentamento provocado por estas medidas, os fascistas tentam a sua sorte. Como dizem os camaradas albaneses “na Europa, a social-democracia no poder é a cama para o fascismo”. Elevar a consciência anti-imperialista do povo e dos trabalhadores portugueses, lutar por um governo antifascista do 25 de Abril do Povo, é a alternativa para a política anti-operária e antipopular do governo Soares, a única alternativa capaz de juntar num só caudal o descontentamento existente, a única capaz de opor uma barreira ao golpe fascista.

MANUEL FALCÃO

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