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sexta-feira, 3 de março de 2017

1977-03-03 - Revolução Nº 101 - PRP-BR

EDITORIAL

Se alguém esperava que o discurso de Mário Soares elucidasse a situação criada nos últimos dias, decerto que se enganou. O primeiro-ministro mais não fez do que repetir noutro tom as declarações de Medina Carreira e Manuel Alegre na noite mesmo em que foi anunciada a desvalorização do escudo. E acerca das três podemos chegar à mesma conclusão tentativas vãs de enganar a população trabalhadora, sobrecarregada com as consequências desta crise económica imparável.
Todos tentaram demonstrar os benefícios da desvalorização do escudo, falando apenas nalgumas desvantagens... E a única verdade, é que a desvalorização do escudo é uma imposição dos EUA, em relação ao empréstimo que hão-de fazer a Portugal.
Aliás este empréstimo é uma das alavancas que determinam a sequência dos acontecimentos políticos em Portugal. O Governo PS, que de socialista só tem o nome, tem vendido o país ao imperialismo. Tem sido o governo que efectivamente tem aberto caminho à recuperação capitalista.
Mas o que a burguesia discutirá entre si é se o Governo PS ainda serve nos tempos mais próximos ou se é necessário substituí-lo de imediato. Nesse aspecto é bom que se observe que a fogosidade dos Kaulzas, dos Corrécios, dos bombistas de Caxias, não corresponde à preparação dum golpe fascista imediato. Mas esse golpe pode ser preparado pelo terreno propício que lhe pode criar uma nova fase no Poder, que é aquela que se poderá seguir ao Governo PS. A verdade é que este ou se vai remodelar, sublinhando o seu carácter direitista, ou será substituído de imediato por um governo presidencialista, onde na boa harmonia com membros do CDS e do PPD, os ministros PS obedeçam a um eanismo que será o regime forte, que tal como o de Sidónio, se antecipe ao fascismo. E não será Freitas do Amaral um «bom» ministro das finanças que, fazendo-nos evocar meio século atrás, nos lembra outro professor, igualmente prestigiado entre a burguesia beata?
Será um novo Sidónio e um Salazar que nos esperam, ou será que os trabalhadores e os revolucionários encontrarão força para se oporem a esse destino? Para tal é bom que contem com as suas próprias forças; mas não poderão deixar de encontrar aliados entre aqueles que dentro do Poder se opõem a marcha para o fascismo. Esses, que no Poder político-militar fizeram a complexa e contraditória caminhada destes três anos, têm que demonstrar agora muito claramente de que lado estão. Já não há mais fugas; todos os falsos caminhos desembocam em becos nos quais encontrarão a sua própria liquidação.
Mas se a situação não está ainda definitivamente inclinada para o Imperialismo, há que contar com o Poder que este tem ao nível militar dos Estados Maiores e dos Comandos das Regiões. E temos também de compreender que o inimigo tem um aparelho de informação e contra a informação.
É esse Poder e esse aparelho que foram desencadeados durante a última semana, quando, tomando pretexto no caso do Regimento de Estremoz, no caso de pretensas infiltrações na Região do Centro, no caso das informações no «Diário de Lisboa» sobre essa mesma região, e no caso de Notícias do «Página Um», foi desenrolada uma chuva de provocações contra a esquerda, contra a imprensa antifascista, contra soldados, contra oficiais. O Poder precisa de ir limpando antes de avançar para formas mais drásticas.
Mas entretanto, quase a três anos do 25 de Abril, pergunta-se: quem comemora este ano essa data? Estarão no banco dos réus os oficiais do Movimento e sentados no palanque aqueles que o julgam, aqueles que o saneiam, que são os que não têm nada a ver com a queda do fascismo? Quem comemorará e o quê, a 25 de Abril? Será a queda do fascismo ou o regresso de um novo fascismo? Para que tal se não dê é necessário que nos unamos todos numa larga unidade antifascista.

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