quinta-feira, 2 de março de 2017

1977-03-02 - O Proletário Vermelho Nº 69

Editorial
POR QUEM DOBRARÃO OS SINOS?

O país está aí, de pé, aguentando-se como pode no arrimo que não deixa que se lhe chegue. A contradição do absurdo está aí igualmente, roendo ao país a bengala a que houve de se arrimar, após ter secado a ubre colonial (que pouco mais deu de resto que orgias e prazeres aos senhores, e fel e morte aos colonizados).
O absurdo é simples, é claro: quer pôr-se o coxo de pé, roendo-lhe sindical­mente o arrimo da produção e cavando-lhe sob os pés, nas finanças, o buraco do endividamento externo. O governo - desgoverno? - que temos quer dirigir com a ideologia quando, da ideologia, os mais avessos e todos os «t’arrenegos» vêm da social-democracia. Especialmente, da social-democracia de «inspiração marxista», entenda-se do «socialismo não-praticante».
Quer — dizem — o governo, fazer a «revolução cultural» de António Sérgio como se bastasse levar o país à Universidade para, de diploma encaixilhado, tornar o país num gigantesco diálogo.
O cidadão, de fascismo às costas por alguns anos e bons, pensa mais com a barriga e os bolsos que com os compêndios e os bonitos princípios. O governante quer matar-lhe a fome com alegres discursos sobre as liberdades - justas - deixando degradar «por mor da democracia» a própria vida democrática.
AS “CULPAS” DA OPOSIÇÃO
Instados sobre os porquês, respondem os socialistas que «a culpa é da oposição», da oposição incivilizada que, de Cunhais e Carneiros, enche o caminho da reconstrução de escolhos e empecilhos. Aos quesitos de que talvez seja antes culpa a de ser um governo excessivamente minoritário, de que só assim é que tal oposição é obstáculo de monta, diz que não. Diz que as alianças, a não poderem — por culpa dos outros — fazer-se â esquerda (referem-se a Cunhal) e à direita (referem-se a Carneiro) ao mesmo tempo, haviam, se feitas apenas a uma banda, de acicatar mais ainda a oposição da outra.
Perguntados se cada voto PC vale para ele (governo que se diz legitimado a votos) dois votos PSD, pois que só assim há que pôr, no mesmo pé, o peso dos dois partidos, respondem que não é bem assim. Ou melhor, respondem que é mesmo assim, pois que PC + Intersindical são mais temível rival que PSD + um certo exército. (Mesmo mais temível ainda que se somados a uma passagem a «selvagem» da «oposição civilizada» do CDS).
E nisto põe-se a resposta sob a forma de pergunta quando é a pergunta que já arrasta a resposta, isto é, confirma ainda o governo que minoritário sendo e incapaz de dar conta do recado (que é difícil, já se sabe) minoritário se afirma... deitando as culpas aos outros. Com efeito, talvez que seja da maioria a culpa — Se em termos de culpa quisermos ver estas coisas - da minoria existir. Certas vezes até é. Mas menos nesta.
E que se vê depois na prática? Que se pode esperar deste nada fazer, deste teimar em nos dizer que a «democracia é assim» quando a democracia, bem na vemos esvair-se no desvario das utopias e na carestia da vida? Pouco de bom; muito, perigosamente muito de mau.
Não é que em tal resvalar se vai deitando achas cada vez maiores na fogueira da oposição? Não é que a tal «erosão» que Soares préanuncia acaba em erosão do governo do país antes de ser erosão do partido do governo?
Não é que ali está espreitando à esquina O perigo de a erosão do governo ser também a erosão das ideias do governo, da própria democracia portanto?
Não é que se pode recear legitimamente que no final do túnel cada vez mais estreito da contradição económica e do agravamento da vida, esteja Cunhal à espera p’ra «maioria de esquerda» com a Inter a enxotar para lá quem hoje se diz negar a fazê-la?
Não é que a isso conduz o fantasma do fascismo que os socialistas agitam - enquanto deixam parir tranquilamente elogios a Salazar - quando, além dos velhinhos saudosistas e dos putos histéricos do papá, outro fascismo se não vê que o de Moscovo?
QUEM PAGA A DESPESA DO QUE NÃO BASTA?
COMO SE ENCHEM AS PRATELEIRAS?
Não basta pegar no escudo já bichado e «tocado» por ter caído da árvore da pataca africanista e amputar-lhe os 15 por cento podres a um lado. Não basta pôr a malta - sempre a que ganha pior, a que a aperta mas não vive na «cintura» — a subsidiar a exportação: é preciso ter coisas para exportar. É preciso produzi-las, essas coisas, e de boa qualidade. Não basta assim abrir a loja e baixar, na montra, convidativos, os preços: é preciso encher as prateleiras e abastecer o armazém.
E como? Como? Com os que já ganham melhor a produzir menos e a reivindicar mais e os que pouco melhoraram a ter de pagar a despesa?
É preciso cativar o investimento e salgar os impostos à dinheirama parada. E como? Estimulando a exportação para pagar o que se importa? Estimulando o turismo para gastar no regabofe as divisas? Incentivando o emigrante para deixar no banco — ou nos festins de corrupção dos vários IARNs que por aí sobram ainda - as poupanças que cá para dentro atira?
Tributando os capitais imóveis para os fazer fugir dos bancos para o bolor das arcas ou para as arcas da Suíça?
DE NADA SERVE HIPOTECAR TUDO PARA “SALVAR” A DEMOCRACIA
Este país precisa de muito mais decência no vestir e no estragar e muito menos conselhos de parlatório. Precisa de governo que seja instrumento, antes de ser só coisas lindas aos ouvidos. Precisa de quem tome decisões e as aplique corajosamente. De saneamento, precisa este país, de saneamento do cretinismo e imbecilidade que campeia no próprio aparelho de Estado, para não falar da corrupção que lhe suga as poupanças e o próprio sangue.
Este pais precisa que lhe digam a verdade não só sobre o presente, não só sobre o passado, mas especialmente sobre o futuro! É do futuro que se trata.
Já sabemos que temos de gramar a social-democracia. Já sabemos que é preciso cumprir o jogo democrático e que temos de aceitar no seio a víbora cunhalista que nos vai morder um destes dias. Já sabemos que a situação é má e temos de pagar ainda o preço da descolonização de que só os senhores aproveitaram para o lançar nos Brasis e nas Suíças. Precisamos entretanto de saber, com absoluta certeza, que o governo não nos leva ao matadouro. Não basta rejeitar a «maioria de esquerda»: é preciso impedir que ela nos surja pela frente como... o mal menor!
De nada serve hipotecar tudo para salvar a democracia se tal estrada conduz a ter de vir a aceitar a ditadura para não morrer de fome. Nessa hora, senhores socialistas, por quem dobrarão os sinos?

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