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quinta-feira, 2 de março de 2017

1977-03-02 - Bandeira Vermelha Nº 059 - PCP(R)

EDITORIAL
O povo precisa de um governo que o defenda um governo do 25 de Abril do povo

Os imperialistas norte-americanos ao adiarem a concessão de um dos empréstimos sobre os quais o governo soarista assenta a sua política de recuperação capitalista, fizeram questão de mostrar a que grau chega o seu controlo sobre a economia portuguesa e a capacidade que isso lhes dá de influir na política do país. Exigiram do governo o cumprimento de uma série de medidas que aceleram a recuperação económica e política do grande capital e fazem pagar aos trabalhadores os custos dessa mesma recuperação. A desvalorização do escudo, certamente a primeira de uma série de outras desvalorizações; as desíntervenções, que significam o regresso da maioria dos patrões às empresas que haviam sabotado e abandonado; as avultadas indemnizações que vão ser concedidas aos grandes capitalistas — foram as exigências que o imperialismo fez cumprir imediatamente ao governo.
Ficou, assim, patente para quem duvidasse ainda da incapacidade do governo fazer frente ao imperialismo, que os empréstimos contraídos junto dos grandes capitais internacionais trazem consigo uma dependência económica asfixiante face ao imperialismo norte-americano que se traduz directamente em dependência política.
A chantagem imperialista veio também desfazer as ideias que ainda subsistissem que a adesão à CEE significaria menor dependência em relação aos americanos. Nas condições de Portugal em que o domínio imperialista norte-americano se reforça consideravelmente, a aproximação com a CEE far-se-á apenas na medida em que esse imperialismo permitir, e dependerá das condições que os Estados Unidos impuserem quer a Portugal quer à própria CEE.
O cancelamento do empréstimo norte-americano, na verdade, teve efeitos políticos também sobre outros países da Europa que haviam prometido empréstimos a Soares, de tal forma que os empréstimos desses países ficaram em grande parte igualmente congelados e dependentes da aceitação, pelo governo, das imposições norte-americanas.
A dependência crescente face ao imperialismo — e não uma imaginária diversificação das dependências externas do país, como defende o governo — é o preço da política seguida por Soares. A ser prosseguida, como mostra estar disposto a fazê-lo, esta política porá em sério risco a independência do país, como já se torna evidente pelas intromissões económicas, políticas e militares praticadas sobretudo pelos imperialistas norte-americanos.
LUTAR POR UM GOVERNO ANTIFASCISTA E PATRIÓTICO, DO 25 DE ABRIL DO POVO
Com a sua política de "antes torcer que quebrar" (e está disposto a "torcer" quanto o exigir o imperialismo), Soares faz-se o medianeiro do imperialismo no nosso país. No seu recente discurso, em que as promessas e a demagogia aumentaram na razão directa das cedências ao imperialismo e aos capitalistas. Soares não teve nem uma palavra de repúdio pelas pressões a que se sujeitou, nem um acto de coragem em defesa da independência nacional. Tudo o que fez foi tentar justificar as medidas anti-populares, encobrir os actos de chantagem imperialista e dar cobertura à recuperação capitalista em que a sua política se baseia.
Os ataques à reforma agrária e o regresso dos latifundiários, as desintervenções e o regresso dos patrões, as indemnizações aos grandes capitalistas, a desvalorização da moeda e a subida desenfreada dos preços são as consequências de uma política que toma por objectivo servir os interesses do capitalismo e do imperialismo e não os interesses do povo.
Por estas razões, os trabalhadores se levantam contra as medidas do governo. Esta outra face da crise, o aspecto positivo da crise, é a luta dos trabalhadores em defesa do seu nível de vida e das conquistas políticas alcançadas com o 25 de Abril. As grandes manifestações de assalariados rurais em Beja e em Évora em defesa da reforma agrária; a tenacidade dos 300 mil operários têxteis que permanecem em luta; a disposição combativa dos 250 mil operários da construção civil que se preparam para vir em defesa do contrato há dois anos entravado; as movimentações de metalúrgicos, dos trabalhadores da panificação, dos empregados do comércio, dos funcionários públicos, dos pescadores e tantos outros, são a melhor prova do repúdio popular pela acção do governo. Os trabalhadores evidenciam, assim, que querem um governo que os defenda. Um governo que preserve as conquistas políticas, defenda o pão dos trabalhadores, defenda a liberdade do povo, defenda a independência do país. Ora isto consegue-se não com uma política de duas caras que procure encontrar posições de meio termo entre quem explora e é explorado, entre quem oprime e é oprimido. Um governo que defenda o povo só pode ser um governo que ataque o imperialismo e o grande capital, que limite os preços e não os salários, que prossiga a reforma agrária e não as desocupações, que proteja as liberdades e não os fascistas, que se oponha ao imperialismo e não lhe faça concessões.
A questão política que neste campo se põe é a luta por um governo antifascista do 25 de Abril do povo, alternativa para a política anti-operária e antipopular do governo soarista.
Mas as movimentações dos trabalhadores mostram também que o imperialismo não tem tarefa fácil na sua busca de maior dominação e exploração. Ainda que, de momento, as lutas desencadeadas não visem conscientemente atacar a acção do imperialismo, o certo é que elas têm, em si mesmas, objectivos que contrariam os planos imperialistas. Toda a acção de recuperação capitalista é impulsionada e controlada pelo imperialismo, que procura ganhar ainda maiores posições no país, em todos os domínios. As brigadas da NATO no plano militar e, nos planos económico e político, o aumento da nossa dívida externa por força da desvalorização da moeda, o fornecimento de capitais aos monopolistas por via das indemnizações e a limitação das liberdades são medidas directamente impostas pelo imperialismo, contra os efeitos das quais se revoltam e lutam os trabalhadores.
A questão política que, neste outro campo se põe, é o desenvolvimento da consciência anti-imperialista do povo e dos trabalhadores portugueses de forma a opor uma barreira sólida às ingerências estrangeiras e defender a independência nacional que o governo se mostra incapaz de preservar. Esta consciência anti-imperialista é a base para a união das forças patrióticas, verdadeiramente dispostas a não permitir a submissão do país ao imperialismo, e impõe a exigência de um governo patriótico, em resposta à ingerência do imperialismo.
No plano da luta contra a recuperação capitalista, como no plano de resistência à dominação imperialista, a luta dos trabalhadores choca-se frontalmente com a política do governo soarista que, nos factos, cede e serve os grandes capitalistas e o imperialismo. O sentido para que apontam as aspirações e as lutas das massas trabalhadoras e do povo é o de um governo liberto dos conciliadores: um governo antifascista, patriótico, que defenda as conquistas populares. Um governo do 25 de Abril e não do 25 de Novembro. Um governo do 25 de Abril do povo.

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