quarta-feira, 1 de março de 2017

1977-03-01 - Luta Popular Nº 528 - PCTP/MRPP

comentário

AINDA A DESVALORIZAÇÃO DO ESCUDO:
A PROPÓSITO DE ALGUMAS ATOARDAS

Temos podido assistir nos últimos dias nas diversas tribunas da contra-propaganda burguesa a uma orquestrado campanha tendo como objectivo minimizar as consequências políticas e económicas da desvalorização do escudo.
Essa série de atoardas anti-cientificas pretende que a desvalorização do escudo não influirá no nível de vida das massas trabalhadoras, assevera que se trata antes de uma medida indispensável ao «relançamento da economia» e nessa qualidade deverá ser apoiada pelo povo português. Tais atoardas foram retomadas pelo Primeiro-Ministro na sua alocução do ontem à noite, quando se referiu à desvalorização do escudo garantindo que ela não acarretaria qualquer subida de preços para escassos minutos depois se ver obrigado a reconhecer que ela implicará de facto um agravamento do custo de vida e portanto das condições de existência das massas, logo dos preços também.
Ora, a realidade é aquela que sempre temos dito existir e cujos dados se mantêm no essencial. A flutuação da moeda é própria dos países que atravessam uma aguda crise económica, enquanto a sua estabilidade está associada a uma igual estabilidade, pelo menos relativa, das relações de produção e de um dado sistema produtivo.
Desvalorizando o escudo, a burguesia pretende suster a saída de divisas, incentivando por este meio o aumento das exportações (porque passamos a vender mais baratas as mercadorias exportadas) e a diminuição das importações (porque passamos a adquirir mais caras as mercadorias que compramos no estrangeiro).
Por isso mesmo, com a média a agora tomada sofrerá em primeiro lugar o povo trabalhador, se lembrarmos que boa parte das mercadorias que ele consome são importadas. Só dos alimentos correntes Portugal importa 40%.
No entanto, a desvalorização do escudo vai repercutir-se no mercado interno e no preço dos respectivos bens por outra forma ainda. Compramos no estrangeiro não apenas produtos acabados para o consumo, mas também matérias primas e maquinaria frequentemente, em percentagem esmagadora, do capital fixo de algumas grandes empresas nas maiores concentrações industriais. Sendo assim, a desvalorização do escudo vai acrescer os custos do processo produtivo dessas indústrias é aumentar ainda mais o preço final do produto acabado.
Deve dizer-se ainda que a desvalorização do escudo trazendo como traz o aumento da quantidade de moeda em circulação, vai acelerar o processo inflacionário já de si de grau elevado o que significa que ela vai contribuir para o aumento dos preços da generalidade dos bens, mesmo aqueles que não mencionámos nos anteriores parágrafos.
Certos oportunistas vem dizendo, em sua verborreia reaccionária, que a desvalorização do escudo traz consigo um reforço da independência económica do nosso país, pois poderá criar as condições para um maior equilíbrio a breve prazo (que as próprias instituições oficiais não prevêem antes de 1978) de nossa balança de pagamentos.
Será assim? Durante o reinado das camarilhas salaza­rista e marcelista a balança de pagamentos encontrou um ponto de relativo equilíbrio e nem por isso o nosso país deixou de ser vendido a retalho ao imperialismo.
Por um lado, esse equilíbrio foi conseguido à custa de uma feroz restrição do consumo dos trabalhadores. É o que agora vai também acontecer. E, se recordarmos que houve produtos incluídos no «cabaz da fome» que foram aumentados em valores que se aproximam dos 40% e se elevarmos essa percentagem do aumento de 15% que eles sofrerão (se não agora, no fim dos doze meses de vigência do «cabaz») com a desvalorização do escudo, temos que eles subirão 55%, ao fim e ao cabo.
Quanto a entrada de divisas, o Governo não procura consegui-la através do aumento da capacidade económica do nosso país (o que sucederia se ele se preocupasse minimamente com a Independência Nacional), mas pelo fomento de actividades não directamente produtivas (caso do turismo ou do incremento das remessas dos emigrantes). E se ao Governo interessa reforçar sectores bem definidos e limitados da actividade produtiva, tendo em vista o equilíbrio da balança de pagamentos, tais são apenas os sectores incluídos na cadeia de dependência do imperialismo (caso das unidades compreendidas no plano da indústria siderúrgica nacional), de modo nenhum aqueles pontos da actividade produtiva capazes de dar um princípio de satisfação às reivindicações imediatas do povo.

Sem comentários:

Enviar um comentário

1977-06-22 - A Forja Vermelha Nº Esp - UCRP(ml)

PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, NAÇÕES E POVOS OPRIMIDOS. UNI-VOS A Forja Vermelha Número Especial Preço $50 Data: 22/6/77 ...

Arquivo