terça-feira, 14 de março de 2017

1972-03-00 - Guerra Popular Nº 02 - CGP

     Editorial

Presentemente em Portugal, desenha-se uma situação caracterizada pelo aumento de tensões entre várias fracções de bloco de classes dominantes e por um agravamento das condições de vida das classes dominadas.
1. O agravamento das condições económicas no seio da burguesia deriva da:
- reorganização industrial e agrícola: opõe-se aos interesses da pequena burguesia industrial dos sectores metalúrgico, têxtil e conservas, sobretudo) e algumas fracções da média burguesia condenadas a falência eu à absorção pelos grandes grupos; favorece as fracções da média burguesia industrial e agrícola com estruturas técnicas de produção mais avançadas, de ideologia "europeia" e interessadas na exportação, que se encontram estreitamente ligadas às tecnocratas de aparelho de Estado e aos grandes, grupos;
- política anti-inflacionista: vai contra os interesses da pequena e média burguesia comercial na medida em que se vêem acossados pelos impostos, fiscalização e fixação dos preços e restrições do crédito, ao mesmo tempo que se vêem crescentemente ameaçados pula concorrência dos grandes super-mercados (recorde-se as inúmeras falências do mercearias e a recente reacção dos comerciantes de Setúbal a instalação do um super-mercado na zona do mercado municipal).
- político colonial de governo: as barreiras levantadas às exportações para as colónias — no seguimento de uma política dos monopólios, que se destina a criar uma indústria transformadora nas colónias, par eles controlada — faz com que a pequena e estratos da média burguesia industrial e comercial, vejam fechar-se-lhes um mercado tradicional onda recuperavam a fraca colaboração dos seus produtos no mercado interne, e europeu.
2 - É evidente que estas transformações ao nível económico têm graves consequências para todo o bloco popular – a reorganização industrial conduz a um aumento da exploração do proletariado com o fim de pagar as novas máquinas e novos processos de gestão; intensificam-se os ritmos de produção; o patronato procura conter os salários; aumentam os despedimentos selectivos nos ramos tradicionais de industria e mesmo em massa nas pequenas empresas que à falência (vejam-se as recentes lutas travadas pelo proletariado das fábricas têxteis da Covilhã, devido aos despedimentos maciços);
- a inflação além de estimular a luta económica contra a contenção de salários imposta pela “reestruturação”, actua no sentido de atrair para o bloco popular largos sectores da pequena burguesia empregada;
- a restauração agrícola leva à proletarização acelerada dos camponeses pobres e semi-proletários (pequenos camponeses que se vêem forçados a vender a sua força de trabalho durante parte do ano), aniquila a pequena propriedade agrária e conduz ao desenvolvimento de um proletariado rural mais especializado, fundamentalmente nas zonas agro-industriais e nalguns latifúndios.
 3 – A nível político e ideológico começa a desenhar-se uma indecisão entre vários sectores da burguesia quanto à saída a dar às guerras coloniais, que não só parassem não ter fim, como estão a evoluir claramente no sentido da derrota total da burguesia portuguesa.
 Para os operários, camponeses, empregados e estudantes estes 11 anos de guerra não passaram sem deixar marca. A mobilização persiste, os mortos e estropiados começam a atingir uma dimensão tremenda, o carácter injusto das guerras de genocídio começa a ser crescentemente compreendido pelos soldados e marinheiros do exército colonial, o número de refractários e desertores aumenta.
4 - Tudo o que ficou dito leva algumas possas a concluir que a situação se está a agravar inexorávelmente, que a situação portuguesa se assemelha a um barril de pólvora que está mesmo, mesmo a explodir.
Parece-nos que pensar assim é um erro.
O motor da História é a luta de classes, e não a simples acumulação de contradições ao nível económico. Isto quer dizer que estas contradições na base económica de uma formação social, se é um facto que definem o pano de fundo da luta político de classes, não dispensam a acção política das organizações de vanguarda que representam os interesses de classe do bloco dominado, de modo a resolver essas contradições a seu favor.
Que fizeram então as diversas organizações políticas nestes 11 anos de guerra colonial, no sentido de mobilizar as massas contra esta guerra assassina, que põe jovens operários, camponeses, empregados e intelectuais a disparar contra as massas populares africanas? O que fizeram eles para que o povo português armado virasse as armas contra os exploradores em vez de os apontar a quem está a lutar contra quem os oprime?
Pouco, e a isto não é alheia o facto do PCP ter abandonado a via da revolução. Na sua linha legalista de aliança com a média burguesia, o PCP não pode lutar consequentemente contra o domínio colonial — que também enche o bandulho à média burguesia! — sob pena de se ir ao ar a sua "Unidade do todos os portugueses honrados" contra o fascismo.
Só assim se entende que em 1961 o PCP tenha publicado um papel no qual exortava os operários a convencer os patrões de que com uma Angola independente viriam a fazer melhores negócios!
Só assim se compreende que nas campanhas eleitorais os presumíveis "comunistas" defendam as teses burguesas do "referendum", e da “resolução negociada”, que se destinam de facto, a que o povo se mantenha passivo e caucione uma eventual solução neo-colonialista (negociada com os movimentos de libertação, senhores revi­sionistas, ou com as tão faladas burguesias brancas?)
Desde 1964 — com o Comité Marxista-Leninista Português (CMLP) - "Revolução Popular" — que vários organizações políticas tem procurado construir uma alternativa proletária à linha revisionista de submissão à burguesia liberal, defendida pelo PCP.
Não nos compete aqui e agora debruçarmo-nos sobre o trabalho desenvolvido esses grupos. Parece-nos na entanto importante destacar alguns pontos da sua actividade anti-colonialista, nomeadamente no que respeita à imprensa pública.
Consideramos que os camaradas das organizações que se propuseram lutar sem tréguas contra o colonialismo português e os seus patrões imperialistas, tem dado sobejas provas do coragem e de persistência no seu trabalho de propaganda, e a campanha para o 25 de Fevereiro passado é mais um exemplo disso.
Parece-mos no entanto, que esses camaradas tem subestimado a importância que as informações acerca de todos os aspectos das heróicas lutas dos povos das colónias têm para o avança da luta contra o chauvi­nismo. Numa altura em que a imprensa burguesa vomita mentiras diariamente, exigindo "sacrifícios" ao povo para uma guerra que ela apresenta como sendo de toda a nação e para o bem de todos; numa altura em ­que o descalabro político e organizativo do PCP criou um espaço político excelente para o trabalho de propaganda junto de largos sectores do proletariado o do campesinato ainda não tocados politicamente — como não dar o papel que merece a divulgação de factos que ilustram a forca irresistível dos povos quando lutam sem tibiezas contra a opressão e pela reconstrução nacional no quadro de uma sociedade socialista? Ao descurar este aspecto, os camaradas estão a privar largas camadas da população de dados que os ajudem a compreender as dificuldades com que se debatem e contribuem para que se possa eliminar o desfasamento que existe hoje em Portugal entre uma situação de crescente agravamento das condições de vida do povo e a falta de uma vanguarda popular, que saiba explicitar essa situação e saiba guiar as massas na via da libertação.
Desmontar desde já o aparelho ideológico da burguesia, desmascarar com clareza as posições revisionistas, dar o máximo de divulgação de que nós podemos aprender com os povos revolucionários das colónias, - tais são as tarefas que uma imprensa central deve cumprir.
É nesse sentido que apontamos as nossas campanhas de agitação e propaganda para os pilares fundamentais do chauvinismo:
- contra o mito da acção centenária e civilizadora dos portugueses, mostrando o desenvolvimento da penetração colonialista em África e a resistência dos povos africanos a ela.
- contra a afirmação racista do atraso sem remédio dos africanos, mostrando a nova sociedade que está a ser já construída nas zonas libertadas como resposta à sociedade colonial e ao imperialismo.
- contra a imagem do um exército colonial, paladino da paz o factor de progresso das populações, divulgando os massacres o atrocidades por ele cometidos, que dão às guerras coloniais um cunho do genocídio dos povos africanos.
- contra a ideia de um desenvolvimento capitalista assimilador o defensor das massas populares em África, desencadeando a rapina sangrenta que confere às lutas de libertação nacional o carácter de luta simultaneamente anti-colonial e anti-imperialista.
- contra a ideologia burguesa divulgada pelo PCP e pelos "democratas" da solução pacífica das guerras, defendendo posições internacionalistas, baseadas na mobilização crescente do povo português contra o inimigo comum: a burguesia exploradora e os seus patrões imperialistas.
     Se tivermos capacidade para realizar este trabalho, estaremos não só a contribuir para o avanço da luta popular em Portugal, como também a apoiar efectivamente as lutas de libertação nacional dos povos de Angola, Guiné e Moçambique.

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